Após diversas denúncias de assédio em Hollywood em 2017, as atrizes norte-americanas criaram o movimento Time´s Up, lançado na cerimônia do Globo de Ouro 2018 (07.01), em que as mulheres vestiram-se de preto como forma de solidariedade com as que foram abusadas e falaram abertamente sobre assédio sexual na indústria do cinema e em todas áreas, problema que afeta mulheres no mundo todo. O manifesto na página do projeto Time’s Up (“o tempo acabou”, em tradução livre), explica o motivo  das artistas vestirem preto no Globo de Ouro e a importância da adesão ao movimento:

  • “Porque o tempo para a discriminação acabou;
  • Porque o tempo para o assédio acabou;
  • Porque o tempo para o silêncio acabou”;
  • “Porque somos gratas às sobreviventes e aliadas àquelas que forçaram a discussão sobre assédios e abusos sexuais e aos preconceitos de gênero e os levaram aos holofotes; Porque mais de um terço dos países não têm leis específicas que proíbam assédios sexuais no ambiente de trabalho – deixando mais de 235 milhões de mulheres em situação de vulnerabilidade; Porque quase metade dos homens pensam que as mulheres estão bem representadas em cargos de lideranças e um terço delas pensam o mesmo. A realidade é que apenas um a cada dez líderes é mulher; Porque há mais mulheres trabalhando como subordinadas em profissões dominadas por homens em ambientes com elevados índices de assédio sexual do que cargos de chefia ocupados por profissionais femininas”.

Oprah Winfrey sintetizou o propósito do movimento Time’s Up em seu poderoso discurso no Globo de Ouro 2018. Confira no vídeo abaixo:

“Por muito tempo, não ouviam as mulheres, ou não acreditavam nelas quando ousavam falar a verdade sobre o poder desses homens. Mas, esse tempo acabou! Então, quero que todas as garotas que estão assistindo isso saibam que um novo dia está no horizonte. E quando esse novo dia finalmente amanhecer (…) vamos lutar duro para ter certeza de que elas tornem-se líderes que nos levem para os tempos onde nenhuma mulher tenha que dizer ‘eu também’ de novo”. – Oprah Winfrey

Ao final do discurso Oprah refere-se ao movimento MeToo  (“eu também”, em tradução do inglês), uma campanha lançada em outubro de 2017 com as hashtags #metoo compartilhadas nas redes sociais por mulheres e homens que sofreram assédios e abusos sexuais, que iniciou com a denúncia de assédio do produtor de Hollywood Harvey Weinstein. A partir disso, as personalidades do ano escolhidas pela revista americana “Time” (foto abaixo) mostrou na capa as mulheres que simbolizam essa campanha: a atriz Ashley Judd, primeira a denunciar Weinstein, a cantora Taylor Swift, a lavradora Isabel Pascual (pseudônimo), a lobista Adama Iwu e a ex-engenheira do Uber Susan Fowler. Elas são chamadas de “silence breakers”, as vozes que quebraram o silêncio e lançaram um movimento contra o assédio.

Símbolos da campanha: Ashley Judd (atriz), Taylor Swift (cantora), Isabel Pascual (lavradora), Adama Iwu (lobista) e Susan Fowler (ex-engenheira do Uber)

Imagem: capa da revista Time em out de 2017 – “a hashtag #MeToo já foi usada milhões de vezes em pelo menos 85 países”. O detalhe do braço no canto inferior à direita da capa representa as outras mulheres que ainda não denunciaram seus casos de assédio.

As mulheres de Hollywood à frente da iniciativa Time’s Up, lançada dia 1º de janeiro de 2018 junto a uma carta aberta em apoio às mulheres de todas as classes trabalhadoras, que abrange um fundo de defesa legal e vai propor nova lei de combate ao assédio no ambiente de trabalho. Idealizado por mulheres, conforme a carta o “Times’s Up aborda a desigualdade sistêmica e a injustiça no local de trabalho que impediram os grupos sub-representados de atingir seu potencial total”.

Apesar disso, algumas pessoas não entenderam o motivo do movimento Time’s Up usar preto por parecer fúnebre e “perseguir os homens”como criticaram Catherine Deneuve no jornal francês Le Monde e Danuza Leão em um infeliz artigo no jornal O Globo: “Espero que a moda de denúncia sexual não chegue ao Brasil”. Absolutamente o preto nesse caso simboliza o “funeral” do machismo e do assédio, mas a perseguição é contra os abusadores, não contra os homens e tomara que essa atitude de denunciar e fazer campanhas para expor e punir assediadores e estupradores continue, que vire “moda” mesmo como cita Alexandra Gurgel no vídeo abaixo:

As brasileiras também estão participando do movimento Time’s up demonstrando apoio nas redes sociais, como manifestaram-se Camila Pitanga (imagem abaixo), Alice Wegmann, Maria Calara Spinelli e Julia Konrad em posts na internet. A união das mulheres de diferentes países e culturas em prol de campanhas contra o assédio demonstra que vivemos um problema global de gênero, um dos muitos que oprimem as mulheres e necessitam resistência. Essa força coletiva das mulheres motiva para fazer acontecer um “novo dia no horizonte, “como citou Opra Winfrey no discurso do Globo de Ouro 2018, para que um dia mais nenhuma mulher passe por situações que as façam sentir coagidas, constrangidas e com a vida em risco devido a presença de assediadores no trabalho, na balada, na rua e em casa.

 

Nos últimos dias tenho acompanhado de perto o #TimesUp, coletivo de atrizes americanas criado para combater qualquer tipo de abuso de poder – seja ele caracterizado na forma de abuso de cunho sexual, racial, opressão e marginalização, falta de representação e qualquer tipo de desigualdade. . Hoje, aproveitando a cerimonia do Globo de Ouro, que acontece em Los Angeles, as atrizes cruzarão o tapete vermelho usando preto, para demonstrar apoio às vítimas de abuso. A campanha “On Sunday We Wear Black” (No Domingo Nós Vestimos Preto) pede para que qualquer pessoa, independente de quem seja e de onde esteja, vista preto em solidariedade a mulheres e homens que foram silenciados por discriminação, abuso ou assédio. . É com muita alegria e esperança que acompanho essa proliferação de coletivos de atrizes, com um olhar humano para a sociedade. Seja no Brasil, com o #MexeuComUmaMexeuComTodas, nos Estados Unidos, com o #TimesUp, ou na Malásia, com a criação do grupo Women in Cinema Collective (WCC).

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Em maio de 2017, houve um movimento semelhante que ganhou forças nas redes sociais brasileiras, a campanha #MexeuComUmaMexeuComTodas #ChegaDeAssédio a partir da denúncia de assédio da figurinista Su Tonani contra o José Mayer, ator da Rede Globo. Com isso,  diversas atrizes da Globo se uniram em apoio à colega com a campanha intuito de pressionar a emissora para o afastar o ator e se posicionar contra assédio no ambiente de trabalho.

Fotos: atrizes, jornalistas, diretoras e demais funcionárias da Rede Globo com a camiseta da campanha #MexeuComUmaMexeuComTodas #ChegaDeAssédio. Sobre esse episódio, a historiadora Margareth Rago falou ao website Época: “É positivo essa moça poder falar dessa maneira e causar tanta repercussão. Isso intimida os homens e os leva a tomar mais cuidado (…) Mulheres de outras gerações pegaram tratores, derrubaram as árvores e fizeram estradas que agora essas jovens estão pavimentando”. Com isso, a estudiosa aponta a grande mudança que houve em poucos anos, culminando na Primavera das Mulheres, pois representa um desfecho de 50 anos de feminismo em que mulheres criaram espaço para que a geração de agora consiga expressar suas reivindicações e formar uma rede de apoio.

As campanhas brasileiras vêm fazendo barulho na internet e nas ruas desde 2015 com a chamada Primavera das Mulheres, que representa a emergência do feminismo no Brasil, movimento potencializado pela união entre mulheres em defesa de seus direitos através das redes sociais. Exemplo disso é a campanha premiada em Cannes promovida pelo Coletivo AzMina em parceria com o clube de futebol Cruzeiro, em que os números nas camisetas dos jogadores divulgaram dados sobre assédio no Brasil como “3 em cada 10 mulheres já foram beijadas a força”. Também, as campanhas promovidas pelo Think Olga geraram grande visibilidade: #ChegadeFiuFiu de 2015 surgiu em combate ao assédio sexual em lugares públicos e criou um aplicativo de mapeamento sobre denúncias de tais casos em diversas regiões do Brasil; #MeuPrimeiroAssédio de outubro de 2015 foi outra campanha em combate ao assédio sexual através dos relatos de mulheres sobre casos em que foram assediadas, para estimular outras a denunciarem assédios que sofreram também e sentirem-se unidas, o que resultou no aumento real de 40% de queixas de violência contra a mulher no disque-denúncia à polícia; a campanha #MeuAmigoSecreto de novembro de 2015 envolveu a participação das internautas para fazer posts como discurso anônimo de amigo secreto de final de ano, apontando comportamentos machistas.

Além disso, la jornalista Babi Souza criou o movimento #VamosJuntas em 2015, que propagou a ideia de união entre mulheres para protegerem-se contra o assédio sexual, para que pensem em convidar alguma mulher próxima para seguirem juntas ao estarem em situação de risco no ambiente público. Ainda, a campanha #NãoMereçoSerEstuprada de 2014 criada por Nana Queiroz reuniu o apoio de celebridades, da Presidente Dilma Rousseff e de diversas pessoas na internet em protesto ao resultado revelado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) – no qual 65% das pessoas entrevistadas afirmavam que “mulheres com roupas curtas merecem ser estupradas” –, o instituto divulgou dias depois uma errata, pois na verdade eram apenas 26% das pessoas que concordavam com a afirmação, “contudo, os demais resultados se mantêm, como a concordância de 58,5% dos entrevistados com a ideia de que se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros“. Esse fato preparou de alguma forma o país para o tema quando, em 2016, o deputado Jair Bolsonaro declarou publicamente que a deputada Maria do Rosário “não merecia ser estuprada” e por isso foi condenado por danos morais na justiça, pois relativizou o estupro como uma questão de merecimento.

Essas campanhas, em suma, demonstram que as mulheres estão acordando e formando redes de apoio para tratar assuntos importantes e basilares para a qualidade de vida delas em sociedade, o respeito que elas têm por direito e, muitas vezes, é um direito violado. O direito à vida, sobretudo, com dignidade e liberdade, visto que ainda há muito mais regras e menos espaço para as mulheres do que para os homens, formando direitos bastante desiguais, pois a grande maioria dos assédios acontecem de homens para mulheres. As mulheres estão se unindo cada vez mais da internet para as ruas, pois sabem que a “cavalaria” não vai chegar, nenhum outro tempo foi tão delas, são elas por elas e quem mais quiser somar nessa luta, por equidade de gênero, por direitos e oportunidade iguais.

 


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