Por Luana Borges

O ano de 2017 teve mulheres incríveis em diversas áreas de atuação, as quais merecem destaque na retrospectiva desse ano e por isso cito algumas abaixo. Elas fortalecem a Primavera das Mulheres, um movimento considerado a emergência do feminismo contemporâneo no Brasil, que “floresce” em resistência desde 2015 nas mídias sociais da Internet e nas ruas. Este movimento de mulheres ainda está em curso e se fortalece em defesa dos direitos das mulheres, das minorias sociais e da diversidade, devido aos ataques de conservadores à medida em que as mulheres reivindicam autonomia e qualidade de vida quando expõem desigualdades de gênero, entre outras. Demarcando a importância disso, em 2017 foi lançado o documentário Primavera das Mulheres, produzido pela roteirista Antonia Pellegrino e pela e diretora Isabel Nascimento Silva. Nessa obra, mulheres como as atrizes Nathalia Dill e Sophie Charlotte, as filósofas Marcia Tiburi e Djamila Ribeiro, a transfeminista Amara Moira, a diretora Anna Muylaert e YouTubers da nova geração contam suas experiências e posicionamentos políticos como feministas sobre os temas assédio, estupro, direitos das mulheres à educação e aos espaços de poder, entre outros.

As idealizadoras Isabel Nascimento Silva (à esquerda) e Antônia Pellegrino (Foto: Divulgação, Fernando Frazão /Agência Brasil e Lucas Bori )

Isabel Nascimento Silva (à esquerda) e Antônia Pellegrino (Foto: Fernando Frazão /Agência Brasil e Lucas Bori ).

“Os números são gritantes: meio milhão de mulheres são estupradas por ano no Brasil, mas apenas 10% dos casos são notificados. Quando uma de nós revela sua história de violência, ela incentiva outras a fazer o mesmo”, diz Antônia, que continua: “o filme nasceu da nossa vontade de narrar os principais acontecimentos dessa história”- fonte.

Dessa forma, o documentário propõe-se, de forma didática, informar e conscientizar um público mais abrangente sobre os novos feminismos e as manifestações de mulheres organizadas nos últimos dois anos como um momento histórico no Brasil, com aforismos feministas na internet a partir de campanhas promovidas pelas hashtags, como #MachistasNãoPassarão, #RacistasNãoPassarão, #NãotiraOBatomVermelho, #ContraPel5069, #ForaCunha, #ContraPec181, #AgoraéQueSãoElas, #MeuAmigoSecreto, #MaisQue70, #ChegaDeFiuFiu, #MeuPrimeiroAssédio #ChegaDeAssédio, #VamosJuntas, entre outras. Essa intensa divulgação midiática e manifestação das mulheres na internet e nas ruas formam “uma nova geração de ativistas toma as ruas e as redes sociais – e cria o movimento político mais importante do Brasil na atualidade”, segundo a Revista Época. Abaixo, o destaque para algumas falas do documentário:

Fala de Djamila Ribeiro transcrita do vídeo acima: “O Estado deveria garantir que de fato a gente tivesse direito à cidade, porque quando a gente não tem onde deixar nossos filhos, quando não tem vagas suficientes na creches, isso significa que a mulher tem seu direito à cidade impedido, porque como ela vai sair para trabalhar, para estudar se ela não tem com quem deixar os filhos? Então, esse formato que a gente entende por família que significa essa expressão hierárquica sempre no casamento, a mulher sempre tendo que se submeter, a mulher sempre tendo que abrir mão, a mulher não tendo…Por isso que é muito fácil depois naturalizar esse lugar do cuidado ‘ah, mas a mulher está em casa cuidando dos filhos’ essa leitura simplista. Mas ela está por quê? Porque ela não teve escolha para não estar nesse lugar. É importante frisar que seria interessante que as mulheres tivessem, que as feministas não são contra as mulheres que querem ser mães, ficar em casa e cuidar dos filhos. Não é essa a questão”.

 

 


Além disso, a Revista Claudia destacou seis mulheres que discutiram questões importantes em 2017, das quais também reforço a importância e representatividade que promovem. Elas “têm sede de mudança”, citou a matéria da revista, enaltecendo a força feminina, a força da presença política e social dessas mulheres em nossa sociedade a partir da perspectiva de Djamila RibeiroTaís Araújo Maria Clara SpinelliLuiza Helena Trajano, Rachel Maia e Laís Bodanzky,  Essas batalhadoras defendem suas ideias e inspiram esperança como relatam:

“Só encontramos resistência quando estamos avançando, conquistando direitos e progresso (…) Muitas lutas importantes ganharam visibilidade. Tiramos questões de bolhas e colocamos no espaço público de debate”, afirma Djamila Ribeiro, que lançou em novembro de 2017 o livro O Que É Lugar de Fala?, o primeiro da coletânea Feminismos Plurais, organizada por ela em parceria com a Editora Letramento e o portal Justificando, trabalho que terá 14 autoras brasileiras discutindo questões como empoderamento, racismo estrutural e colorismo, para mostrar a diversidade do movimento feminista e derrubar mitos.

“Ainda não alcançamos um ponto de respeito às divergências porque precisamos passar do pensamento individualista para o coletivo”, afirma Laís Bodanzky, de 48 anos, sobre a desinformação que propaga ataques violentos na internet causados por discordância de opiniões. A cineasta conquistou seis prêmios Kikito no Festival de Cinema de Gramado pelo filme Como Nossos Pais, obra considerada feminista, que conta o embate entre mãe e filha e aponta as responsabilidades colocadas sobre as mulheres.

“Jamais podemos ficar só no discurso. O sonho é lindo, conscientizar é importante, porém nada supera a ação, a prática”, afirma Rachel, de 46 anos, CEO da joalheria Pandora no Brasil. Ela iniciou novas políticas dentro da empresa, discutindo junto aos seus colaboradores a importância de uma educação inclusiva em todos os níveis. Por isso, idealizou, junto ao Senac de São Paulo, um curso de capacitação com início em fevereiro de 2018, com duração de 160 horas no Centro Educacional Unificado (CEU), que oferecerá conhecimento em marketing e estratégias de negociação para cerca de 40 alunos em situação de vulnerabilidade para trabalhar no varejo.

“Se teve algo de bom em 2017 foi o despertar das pessoas. O brasileiro redescobriu seu lugar de cidadão e passou a fazer uso do novo papel (…) Tenho muito orgulho do Brasil e acredito que devemos trabalhar cada vez mais por ele. Só vou ficar satisfeita quando todos tiverem casaeducação e saúde”, cita Luiza Trajano, de 66 anos, presidente do conselho da rede varejista Magazine Luiza. Em 2017, mesmo em meio à crise econômica, foram abertas 60 lojas, que geraram quase mil empregos. Luiza também é fundadora da organização Mulheres do Brasil, que reúne 7 mil brasileiras e cria de projetos de lei e de políticas públicas de interesse feminino, incentivando o empreendedorismo e a educação para as mulheres e o combate à violência contra mulheres, além de defender cotas para elas no comando das empresas.

“A crise me estimulou a criar, me tirou do comodismo”, conta Taís Araújo, de 38 anos. Ela sentiu isso ainda mais ao entrar para o elenco do Saia Justa, do canal pago GNT, no primeiro semestre de 2017: “a gente discutia no programa as pautas que estavam em alta. Eram sempre temas que causavam alguma reflexão na população. Comecei a me questionar sobre o tipo de atriz que eu queria ser. E entendi que, da mesma maneira que meu trabalho me alimenta, também dá espaço e voz para me manifestar sobre o que acho importante e mais urgente”. Ela também trabalhou esse ano junto ao movimentoTodos pela Educação, que desde 2006 mobiliza o setor público e a sociedade na defesa da educação de qualidade para jovens e crianças.


ONU Mulheres Brasil nomeia Taís Araújo como defensora dos Direitos das Mulheres Negras/

Taís Araújo ainda foi eleita, em julho de 2017, defensora dos Direitos das Mulheres Negras da ONU Mulheres Brasil que na foto está junto à Nadine Gasman, representante da ONU Mulheres Brasil, em frente ao espaço Lélia Gonzalez, uma das pioneiras do movimento de mulheres negras.Foto: ONU Mulheres/Bruno Spada. Também compõem o grupo de Mulheres públicas pela igualdade de gênero no Brasil: Camila Pitanga, embaixadora da ONU Mulheres Brasil; Kenia Maria, defensora dos Direitos das Mulheres Negras; e Juliana Paes, defensora para a Prevenção e a Eliminação da Violência contra as Mulheres. – fonte: ONUmulheres.org

“Desde que recebi, em julho, o convite da ONU para atuar como defensora dos direitos das mulheres negras, estou tentando entender qual será o meu papel, o meu cargo. Aconteceu uma história que acabou me norteando. Estava gravando o Altas Horas e recebi uma carta da plateia que me emocionou. Sou muito inspirada e motivada pelas histórias de outras mulheres, então, quis saber quem tinha escrito aquela carta. Vi que era uma menina branca e me peguei muito constrangida, porque falo sempre sobre diversidade, mas tinha imaginado que seria uma negra. (…) Talvez esse seja o meu lugar, o de ter uma fala mais agregadora. Falo, sim, para meninas negras, mas também posso falar para as brancas. (…) A desigualdade é fruto de uma história e temos que saber agora o que fazer com ela. O problema do negro não é só do negro, é de toda a sociedade. Temos que entender que se melhorar para um, melhora para todos, já vimos que o individualismo não funcionou”. – fonte


Foto: elenco do Saia Justa em 2017, que recebeu a atriz Taís Araújo e a cantora Pitty para a conversa semanal com a jornalista Astrid Fontenelle e a atriz e autora Mônica Martelli. O programa completa 15 anos no ar e também merece o destaque em 2017 por suas apresentadoras que se consideram feministas, as quais abordam as desigualdades sociais que afetam as mulheres e inspiram exemplos de motivação, além delas mesmas, sempre com elenco e quadros renovados, com temas polêmicos e informativos.


Foto: programa Amor & Sexo da Rede Globo em 2017, sobre feminismo. Assista uma parte deste episódio aqui.

Esse foi outro programa que levou reflexões sobre o feminismo e as questões das mulheres para o público brasileiro mais amplo. O Amor & Sexo populariza, com isso, temas importantes e desconstrói um pouco o senso comum sobre feminismo como nessa edição, que foi apresentada por Fernanda Lima e sua equipe de maneira didática e com bom humor e convidadas importantes para discutir com propriedade o assunto, as quais se consideram feministas, como a mestra em filosofia política Djamila Ribeiro, psicanalista e escritora Regina Lins, a roteirista Antônia Pellegrino, as cantoras Karol Conká, Elza Soares e Gaby Amarantos, a ativista Thayz Athayde da Marcha das Vadias, entre outras.


Foto: registro do Portal Catarinas/Chris Mayer sobre a marcha das mulheres em Florianópolis/SC em agosto de 2017 promovida pelo 13º Congresso Mundos de Mulheres / Seminário Fazendo Gênero 11.

O 13º Congresso Mundos de Mulheres / Seminário Fazendo Gênero 11 que aconteceu de 30 de julho a 04 de agosto de 2017, em Florianópolis/SC, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e foi considerado o maior evento feminista do mundo. Recebemos com o maior orgulho no Brasil pela primeira vez na América Latina esse grandioso evento que reuniu pessoas e instituições acadêmicas e movimentos sociais, com mais de 8 mil inscritxs. Esse diálogo entre distintas realidades cria uma transversalidade que fortalece a diversidade política e cultural de gênero, de etnia, de classe, de credos e conhecimentos, na teoria e na prática em um intenso movimento, que a partir das mulheres e do feminismo defende os direitos de todas as minorias sociais (mulheres, negrxs, indígenas, pessoas LGBTTTQI, trabalhadorxs). Como disseram sobre essa edição do evento que ocorre de dois em dois anos, foi o evento com mais pessoas negras e LGBTs, então, estamos no caminho certo dessa conversa e ação coletiva.


Muitas mulheres estão fazendo a diferença para visibilizar as questões de gênero, as questões feministas, entre outras que afetam as minorias sociais. A maioria delas está cumprindo o papel social de representatividade, que promove empoderamento feminino e união política das mulheres. Há muitas críticas a cada trabalho, nada é perfeito, mas cada mulher citada aqui, além de diversas outras brasileiras, estão fazendo a sua parte e demonstram que a sociedade democrática de verdade e que pensa em crescimento vai ser construída apenas com respeito e escuta às mulheres. Dessa forma, podemos ter um pensamento coletivo que reivindica direitos iguais, cada uma atuando nos limites que alcançam para que isso realize-se, juntas.


Pensando nisso, torna-se impossível não citar mais três pessoas, duas mulheres e uma drag queen que arrasaram em 2017. Elas ganharam grande visibilidade nas mídias e conquistaram públicos diversos e apaixonados por elas. Elas tem em comum a discussão sobre corpo, um quesito que gera discriminações e violências devido às diferenças. Elas promovem através de seus trabalhos a autoaceitação, o amor e o respeito à diversidade e ao próprio corpo.

  

Alexandra Gurgel (fotos acima) do canal Alexandrismos relatou história de superação em seus vídeos no Youtube com muitas palavras positivas e motivadoras, sem minimizar as dores alheia e dando exemplos de como lidar com as dores que ela já passou e que as fãs enviam para ela pedindo ajuda. Ela coloca as cartas na mesa e mostra como devemos enxergar com mais naturalidade e mais respeito outros padrões corporais, diferentes do padrão de capa de revista que nos vendem, principalmente o corpo de pessoas gordas: ‘A gente não quer mais ser visto como doente’: a vida de quem é alvo de gordofobia em entrevista à BBC Brasil. Alexandra é aquela “autoajuda” que toda mulher deveria conhecer, é aquela amiga gorda que todo mundo deveria ter e respeitar. <3

Além desse engajamento emocional e social de Alexandra Gurgel, ela também fez a Maratona do Amor Próprioque conta com 30 vídeos, sendo o primeiro deles este acima. Nos vídeos Alexandra planejou estrategicamente caminhos para empoderar as pessoas a se amarem mais e a acreditar mais em sua vidas.


  

Fotos: Mirian Bottan e alguns posts de seu instagram.

Outra referência inspiradora de 2017 é o perfil da Mirian Bottan no instagram (@mbottan), para refletir e conversar sobre problemas de autoimagem e transtornos alimentares como bulimia nervosa e anorexia que acentuam a depressão principalmente nas mulheres. Ela nos ajuda a (re)pensar e (re)programar nossa mente frente ao espelho e a percepção de nós mesmas e das outras pessoas também, quebrando padrões culturais nocivos a nossa saúde mental como a ditadura da magreza, a fixação pelo corpo e os padrões estéticos em geral que geram medo e ansiedade ao medir o “sucesso” como se fosse receita de bolo igual para todo mundo. Mirian é como um choque para elevar a autoestima e a autoconfiança, nesses e noutros quesitos da vida, com muita sensibilidade e perspectiva que não subestima a dor e a vivência de ninguém.

Foto: Mirian Bottan e alguns posts de seu instagram.


A última homenageada aqui e não menos importante é Pabllo Vittar, desconsiderada como mulher por muitas pessoas, por ser uma drag queen e um homem gay por trás dessa diva pop da música brasileira. Apesar disso, Pabllo costuma dizer à mídia que vestido de Pabllo torna-se ELA e veste uma armadura, para combater qualquer preconceito e dessa forma ela arrasou em parcerias musicais com as cantoras Anitta e Preta Gil, entre outras, em shows por todo país, em programas de entrevistas e canais do youtube. Ela foi notícia em diversos meios de comunicação e ao conceder de uma entrevista ao programa Fantástico da Rede Globo ela relatou um pouco de sua história e afirmou que não tem rótulo definido, prefere a diversidade, a junção de cores, de trejeitos e sotaques, as vezes sente-se como menina, as vezes sente-se como menino. Assim, ela responde a indagação que surge quando muitas pessoas a conhecem devido a visão conservadora sobre o que é considerado “coisa de homem e coisa de mulher”, que ainda é um grande problema em nossa cultura e mantém o sexismo e o machismo.

Pabllo Vittar está nesta retrospectiva pois contribui para quebrar muitos desses paradigmas de gênero, de sexo, de performance estética, porque ela tem esse posicionamento político, como artista e como pessoa para transmitir a principal mensagem: que as famílias aceitem seus filhos(as) gays, lésbicas, transgêneros, travestis, drag queens,  que o mundo reconheça a diversidade que está por toda parte e que deve ser respeitada. Pabllo Vittar cultiva isso, o respeito e o amor junto ao seu público, combate a homofobia e a transfobia com o exemplo do seu trabalho. Esse é sempre o recado da Pabllo Vittar e a comunidade LGBTTTQI e todas as pessoas que defendem a igualdade de direitos e a valorização da diversidade, agradecem. Pablo Vittar foi uma referência incrível em 2017, que ela e todas essas mulheres continuem sendo em 2018.


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