Foto: vlogueira #bodypositive e modelo plus Isabella Trad.“Curvas são o novo preto” ilustra a camiseta dela e representa as novas referências que precisamos cada vez mais para empoderar muitas mulheres. 

Por Jessica Zanella

Precisamos falar sobre gordofobia

Precisamos falar sobre gordofobia, precisamos falar sobre gordofobia, precisamos falar sobre gordofobia, esse é o mantra que estou levantando sempre que posso nas conversas com minhas amigas. Provavelmente esse assunto para elas deve estar chato, deve, mas ainda precisamos falar sobre. Principalmente por que elas também, mas não só elas, reproduzem discursos gordofóbicos. Por isso digo, precisamos falar sobre gordofobia.

Falar sobre gordofobia é complicado, é pesado, é cansativo. Pois quando apontamos os discursos gordofóbicos somos acusadas/os de fazer apologia de obesidade ou de que não estamos cuidando o suficiente da nossa saúde. E daí quando chegamos a afrontar as amarras dos padrões estéticos, sai de baixo, os comentários ofensivos vem de todos os lados. Mas permanecemos em frente. E essa é a primeira vez que faço um texto sobre esse assunto me colocando na posição de mulher gorda, que sofre diariamente com os discursos gordofóbicos da sociedade. E como eles são cruéis, é muito fácil se odiar, é muito fácil querer mudar tudo no nosso corpo, porém, não me sinto mais culpada por isso, o problema não é o meu corpo, o problema não sou eu. O problema é a nossa sociedade que nos ensina diariamente a odiar nossos corpos, que nunca somos suficientes, que há sempre um corpo ideal para se ter, que há sempre uma dieta nova para seguir. E mais uma vez desumaniza o corpo das pessoas gordas. O processo para entender que o meu corpo é só um corpo, uma matéria, que somos muito mais que isso, é lento e doloroso, mas ele vale à pena, garanto. Eu ainda sofro com isso, e olha, já me vejo como uma mulher que venceu muitos preconceitos. Mas, falar sobre gordofobia é enfrentar diariamente vários monstros. É enfrentar e desconstruir discursos diariamente e eles vem de todos os lugares, da mãe que indica uma dieta, da tia que indica uma dieta, do estranho que também indica uma dieta e vem também das amigas, que mesmo não indicando dietas, reproduzem os mesmos discursos gordofóbicos da nossa tia, da nossa mãe e até mesmo daquele estranho.

Provavelmente você já ouviu ou já falou em tom de tristeza profunda “nossa como tô gorda”, e às vezes quem fala isso usa manequim 38 e isso dói, para quem é gorda então, nem se fala. Sabe o que eu penso quando ouço isso “se você tá gorda, imagina eu?” Mas, na verdade qual o problema da frase da nossa amiga que usa manequim 38, ela não pode se sentir mal com seu corpo? Não só pode, como vai se sentir mal, mas sabe o porquê disso acontecer? Porque tanto eu, quanto ela, quanto você, somos ensinadas desde sempre que o nosso corpo nunca está no “ponto certo”, sempre precisamos emagrecer mais uns kilinhos. Os corpos das revistas estão sempre nos mostrando isso, nos mostrando padrões de beleza que são extremamente bizarros. E os corpos “fora de padrão”, então, são considerados gordos. Mas, não é assim simples, entre o estar magro e o estar gordo, há uma infinidade de corpos, dos mais plurais e diversos, e esses corpos devem ser valorizados. Mas, o que quero dizer com tudo isso? Que entendo a amiga 38 falando que está gorda? Não, não entendo, mas é nesse momento, mesmo quando estou exausta que falo “miga, você não tá gorda, você engordou. Porque ser gorda é muito mais que engordar, eu imagino que você sofre, os padrões são foda mesmo, mas você não é gorda”. A partir disso, ela pode:

  1. a) ouvir e repensar o modo que enxergar tudo, ou ela pode:
  2. b) simplesmente não concordar e continuar com o mesmo discurso.

Se ela fizer a opção b, eu mudo de amiga, porque ninguém merece uma amizade tóxica. Mas se for a opção a (e graças as deusas a opção a tá sempre vencendo), continuo a explicar para ela os privilégios que a cercam. Que frases como “você é linda de rosto”, “admiro sua coragem em usar insira aqui uma roupa normal, mas que consideram transgressora”, “nossa te admiro muito, mas eu não me sinto bem quando estou mais gordinha/cheinha” são discursos gordofóbicos e sim, eles são cruéis e ferem muito, se duvidar, muito mais que as indicações de dietas da tia no almoço de família. Mas, que sim é possível desconstruir essas falas e esses pensamentos, se eu já tive esse tipo de discurso e mudei vocês também pode mudar. Mas, sempre é bom lembrar, precisamos falar de gordofobia, falar sobre isso é resistir para existir.


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