Por Luana Borges

Resumo A Força do Querer

Foto: TV Globo, Fox/ Montagem: MdeMulher/Reprodução

Há pouco tempo recebi uma corrente pelo Whatsapp, que reflete o pensamento de muitos brasileiros e brasileiras da “tradicional família brasileira”, da “ideologia de gênero” e do “Deus mandou”, o que merece atenção e alguma problematização. A novela A Força do Querer da Rede Globo está sendo uma afronta a essas pessoas, mas enxergando dessa forma perdem a oportunidade de abrir os próprios conceitos, porque afinal, a mente é igual paraquedas, só funciona aberto. Abaixo o texto da corrente:

“‘Eu não sou mulher, foi um engano, eu sou homem, nasci no corpo errado’…
Como entender esse texto? De quem foi o engano? Do pai? Da mãe ? Ou de Deus? Se nasceu no corpo errado o que foi que nasceu? Essas coisas tem sexo definido? Estou confuso, e o que fazemos com o DNA? A felicidade de um pai e uma mãe a espera do sexo do filho foi equivocada? De quem é a culpa deste engano? 

E essa novela? Que o tema principal além das mentiras, a apologia ao tráfico de drogas colocando os traficantes como impunes heróis da favela, a apologia a mudança de sexo e a criminalização das famílias que sofrem por terem um filho ou filha com essas convicções. Parabéns Rede Globo de Produções, neste momento milhares de crianças estão se olhando no espelho e duvidando do que são… Vocês conseguiram outra vez minar as famílias brasileiras!

Nesse texto há uma nítida necessidade de definir o gênero de uma pessoa desde que nasce e que isso seja permanente por toda a vida. Logo a vida tão inconstante. Logo gênero que é tão subjetivo, tão sentimento/identidade? Nenhuma padrão pode definir o que alguém é ou sente ser. Por isso, esse texto claramente desconhece conceitos de sexo e gênero como se fosse óbvio e natural existir apenas heterossexuais e cisgêneros. Também, percebe-se a preocupação e a confusão mental que isso causa nas pessoas tão acostumadas ao padrão heterossexual e cisgênero como norma em sociedade, negando a diversidade. Essas pessoas argumentam até mesmo com Deus tentando explicar as realidades que fogem ao seu cotidiano e seu conhecimento de mundo, tentando encontrar um culpado para explicar aquilo que é diferente de si. Pois, o mundo não gira entorno do umbigo de cada um de nós, a diversidade sempre existiu e a todo mundo cabe respeitar, transgeneridade (e outras diversidades sociais de gênero, de raça e de credo) não é questão de opinião, é questão de justiça social, de direitos humanos a serem resguardados. Conforme o texto da corrente certamente conservadores(as) se incomodaram com a novela, mas, é bom se acostumar, porque mesmo com reações homotransfóbicas, a resistência continuará, pois parafraseando a fala da cantora Pitty, “mulheres não voltarão para a cozinha, nem xs negrxs pra senzala, nem o gay ou trans para o armário”. A sociedade que preza pelos direitos humanos e pela visão democrática e sensível do mundo não tem interesse em permitir qualquer desses retrocessos, as minorias continuarão lutando e conquistando seus direitos e a arte vai continuar retratando a vida real, o que Gloria Perez está fazendo na novela A Força do Querer.

Montagem UOL

Foto: Tarso Brant, Luc, Trystan Reese e Thammy, os quatro personagens que inspiraram Gloria Perez na criação de Ivana. – fonte : tvfamosos

Gênero é questão de sentir, de se identificar. Não tem a ver com sexo biológico. Sempre existiu a diversidade de gênero, atualmente apenas falamos mais sobre isso. É muito importante que uma rede com influência e visibilidade do porte da Globo consiga tratar desse assunto em numa novela com imensa audiência popular.  Debates de gênero e sexualidade não chegam para a maioria das pessoas e essa torna-se uma forma de chegar. Glória Perez está sendo genial em abordar  didaticamente os temas transgêneros e travestis, e também outros tabus como vício em jogo, tráfico de drogas.

A diversidade em todos os sentidos sempre existiu, existe e resiste. Principalmente no século XXI, a velocidade das novas mídias e formas de comunicação contribuem para fortalecer essa resistência quando tais assuntos ganham visibilidade, dessa forma são resguardados direitos humanos que antes eram ignorados. Isso refere-se aos direitos das mulheres, das pessoas negras e indígenas e da comunidade LGBT³QI (lésbicas, gays, transgêneros, transexuais, travestis, queer, intersexuais), entre outras minorias.

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Ivana ou Ivan? O que muda é uma letra no nome e a visão alheia de discriminação violenta contra ela que agora define-se como ele e sempre foi/sentiu-se como Ivan.

Ninguém vai aprender a ser gay ou transgênero com a novela que tem personagem trans ou com a aula sobre gênero e sexualidade na escola. A pessoa exposta a tais assuntos apenas vai se informar e conhecer sobre a diversidade de gênero e de sexualidade que existe, o que contribui imensamente para combater a violência discriminativa contra o “diferente”. A pessoa que aprende sobre isso pode se descobrir gay ou trans se ela realmente for, pode libertar em si o que sempre foi, ninguém “vira” gay  ao aprender sobre, ninguém aprende a ser de outra identidade de gênero ou orientação sexual repentinamente por conhecer o assunto.

A exposição dos assuntos tabus em sociedade contribui para a conscientização de diferentes realidades que existem e devemos respeitar. Disso, vem a empatia e o respeito pela diversidade social e humana, que ajudam a aprender que não existem só pessoas heterossexuais, brancas, ricas e com homens no poder de tudo. Assim, quebramos preconceitos machistas, racistas, classistas e homofóbicos e lutamos por um mundo mais justo e que resguarde os direitos humanos de todos os indivíduos.

Ah, mas para que dividir tanto? As pessoas são todas iguais.” Muita gente argumenta a partir disso os discursos ideológicos que entram em conflito. Com isso, desconsidera-se cada termo que foi criado por um razão social muito forte como racismo, machismo, homo/lesbo/transfobia, que representam a violências que existem sobre muitas pessoas. E ainda, as mulheres, os negros, indígenas, gays, entre outros representam minorias sociais porque geralmente tem seus direitos invisibilizados. Esses formam “tribos” sociais, grupos de identidades que a partir de certas definições de grupo são reconhecidos e podem lutar por igualdade de direitos como fazem através de suas lutas igualmente nomeadas para serem fortalecidas como a causa LGBTQI, a causa feminista, a causa indígena, a causa anti-racista, etc. Há muitas opressões sofridas por certos grupos de pessoas, mas que todos mundo pode combater junto mesmo não vivendo a realidade dos protagonistas dessas lutas.

Além disso, a acusação da novela fazer apologia ao crime e ao tráfico de drogas pode estar focando demasiadamente na no glamour que a autora ofereceu ao enredo com personagens que “se dão bem” até certo ponto, mas a história ainda não acabou. e no caso de Bibi e Rubinho, estar com a polícia sempre atrás deles não é exatamente se dar bem. Isso mostra a influência do “trabalho” deles na vida do viciados e as consequências dos clientes correr risco de morte se não pagarem o que consomem de droga. O estilo da autora não se distancia de casos semelhantes à realidade, não ensina nada novo, essa e outras novelas não se tornaram escola, são apenas um espelho da sociedade. E o final feliz ou não muito feliz dessas ficções pode ter certas punições conforme o valor moral mais saudável perante as leis em sociedade, mas também pode mostrar o que muitas vezes acontece como a impunidade que nos causa frustração e irritação, de bandidos fugitivos da polícia e até do país que seguem vivos e aproveitando o dinheiro do crime como muitos políticos brasileiros, aliás, estão fazendo, alguns até mesmo sem fugir, esfregando na nossa cara a roubalheira. Enfim, a moral da história ainda não acabou e se torna providencial enxergarmos a obra de arte e ficção que é uma novela como um espelho cultural do que existe em nossa realidade, não uma forma de educar ou deseducar a população.

E em se tratando de cultura e transgeneridade brasileira, confira a maravilhoso documentário de leandra Leal, “Divinas Divas”, que resgata o brilho purpurinado das artistas trans. Imagem do documentário abaixo (assista o trailer).


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