Por Luana Borges

Dia 29 de agosto foi o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica no Brasil. Essa é mais uma data criada para destacar a luta de mulheres por seus direitos, principalmente a resistência que as mulheres lésbicas vivem contra a misoginia e lesbofobia. Lutas sobrepostas em reação ao machismo em que vivemos e que nos impõe uma hetero/cisnormatividade opressora.

Diante disso, reflito algumas questões/tensões que deveríamos tratar com mais frequência a fim de (re)conhecer os próprios preconceitos e valores morais para abrir conceitos e visões de mundo sobre diversidade e direitos humanos de igualdade. Exemplo disso é: o que temos a ver se alguém parece homem ou mulher ou nenhum dos dois? Como bem teorizam Beauvoir, Scott e Butler ser homem e ser mulher diz respeito a performatividade, a gente se “traveste” de homem ou de mulher e se comporta como nos educaram para ser nas “caixinhas” normativas de padrões sobre como ser homem e como ser mulher. É cultural, é uma construção de padrões convencionados. Nisso, utilizamos costumes estéticos e comportamentais para nos identificar como um ou outro, por vezes sem notar num fluxo cultural que de tanto ser repetido faz parecer tudo muito natural. Isso traz a ideia conservadora de questões de gênero correspondentes a apenas dois modelos de “ser”. Questione! Além disso, há quem politicamente prefira não ter definição identitária de gênero, não quer performatizar esse binarismo que se mostra tão excludente e opressor pelo machismo. E por que afinal, nos preocupamos tanto com a feminilidade ou masculinidade que uma pessoa transmite no modo de falar, de agir e de se vestir? Por causa disso, por que muitos pais e mães ensinam seus filhos meninos uma postura mais grosseira e prática e às meninas uma postura com mais delicadeza e sensibilidade? Isso também é construção, é educação, nada natural das noções que aprendemos sobre feminilidade e masculinidade. Ainda, por que muitas vezes nos incomodamos quando não é aparentemente coerente o sexo biológico e a performance social de alguém?

Lesbian multiethnic familyFoto: da matéria Maternidade – a saga de lésbicas que querem ter uma família.

Gênero é como a pessoa se sente, como ela se identifica, não tem a ver com o sexo biológico e nem com nossa opinião sobre os outros. Isso direciona alguém mais aos estereótipos/performatizações que criamos para mulheres ou para homens, independente do sexo que nasceu poderá ser cisgênero ou transgênero. E isso não tem nada ver com sexualidade, por quem a pessoa se atrai afetivamente e sexualmente.

E, o que temos a ver com a sexualidade alheia? Por que muitos se incomodam e se revoltam um casal de mulheres ou com um casal de homens? Seja a sexualidade do parente mais próximo, da amiga, do vizinho, da celebridade ou da pessoa estranha que passou na rua. Acredito que uma pessoa íntima tenha algum trauma ou dificuldade quanto a isso é importante apoiarmos e se interessar, do contrário, não temos nada a ver, não temos que aceitar ou não, cabe a nós unicamente respeitar. E esse respeito não significa “se não se agarrar na minha frente tudo bem, nada contra”. Caso surgir preconceitos desse tipo, geralmente homoafetivos, pensemos em seguida o mesmo posto em uma relação heteroafetiva. Dessa forma, provavelmente se perca o sentido do receio ou repugnância e então enxergamos a homofobia, a lesbofobia.

Também é providencial pensarmos junto a lesbofobia, a homofobia e a transfobia, problemas de violência de gênero que muitas pessoas gays, lésbicas, transgêneros, transsexuais e travestis desafiam a norma heterossexual e cisgênero com a qual nos educam como verdade absoluta de realidade única, na maioria das vezes. Torna-se importante repensar isso e prezar a liberdade de ser e de amar para si e para os outros e combater as violências que ferem essa diversidade.

Problematizando um pouco mais, o fato de entender e aceitar que duas mulheres vivem e se amam independentes de homens é um afronta ao machismo. Ela são elas mesmas sem amarras sociais. Um peso semelhante de questionamento cultural está em uma relação entre homens com amor e sexo e nenhuma mulher. De alguma forma isso ainda afeta muito algumas pessoas, mas a vida afetiva e amorosa dos outros não é da nossa conta. Aprendamos a conhecer realidades diferentes da nossa e a respeitar, além de parar de fetichizar relações homoafetivas!!

Entretanto, essas mulheres sentem-se oprimidas mas não se calam, utilizam suas vivências como ferramentas de luta que às fortalecem na busca por direitos, respeito e dignidade social. Nesse sentido, apesar dos retrocessos com o atual governo brasileiro, elitista e patriarcal, cada vez mais surgem mudanças sociopolíticas e culturais nas últimas décadas, sobretudo nos países ocidentais, com reflexão e aceitação de diferentes configurações familiares. Essa mentalidade que visibiliza a pluralidade humana e social supera a cultura machista e homofóbica e seu modelo tradicional de família nuclear heterossexual, a qual se mostra irreal e excludente diante da urgência de uma visão democrática que atende aos direitos humanos. A discriminação homoafetiva ainda é defendida por conservadores e fundamentalistas religiosos, em especial quem defende a “ideologia de gênero” como se gênero fosse ligado ao sexo binário biológico e à sexualidade de uma pessoa. Aliás, sexo não existem só dois, há pessoas intersexuais e assexuadas, para pensar como conceitos sobre os sexo biológicos também são construções ou invenções sociais. Judith Butler nos ajuda nisso.

Foto: ensaio fotográfico do casal de mães que engravidaram uma depois da outra.

“Até” a novela A Força do Querer está conseguindo tratar de transgeneridade para o povo e ainda existem pessoas que insistem que apenas existem homem e mulher em duas caixinhas exclusivas heterossexual e cisgênero. Pois, a realidade nos mostra que há transgêneros também, pessoas que nascem sendo encaixadas como mulher mas não sentem-se como mulher, pessoas que nascem sendo encaixadas como homem e não sentem-se como tal. E isso não tem associação nenhuma com atração sexual e afetiva que define alguém heterossexual, homossexual ou bissexual. então, temos a comunidade LGBTTTQI em luta por direitos há algum tempo, com muitas conquistas e proporcional a isso temos também, infelizmente, a reação homofóbica, lesbofóbica e transfóbica de algumas pessoas que discriminam/ negam ativamente a existência dessa diversidade e ainda são violentas contra seus direitos. Já outros pensam assim mas se mantêm calados. Por isso, é de extrema importância que pensemos na visibilidade lésbica e de toda diversidade de gênero e de sexualidade que existe e resiste, mesmo que não faça parte da sua realidade e do seu cotidiano.

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Foto: Pinterest sobre casamento lésbico

Uma dessas reconfigurações sociais em defesa da diversidade de gênero tem tratado da família conceitualmente como a revisão do significado do termo família para o dicionário Houaiss que deixou de atrelar isso com pai, mãe e filho, necessariamente. Assim, expandiu-se positivamente a noção de família, que de acordo com o dicionário é o “núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantém entre si relação solidária”. Nessa definição não refere-se a sexo ou a quantidade e tipos de parentalidade dos integrantes da família. Isso simboliza a necessária inclusão social e a democratização do amor e da família como institucionalização social. Isso é respeito pela diversidade.

Na prática esse conceito tem se aberto à homoparentalidade e à coparentalidade. A primeira forma-se com muito amor e duas mães ou dois pais que decidem ter filhx juntxs. A segunda opção duas pessoas unem-se com o objetivo comum e cooperativo de engravidar e ter filhx juntxs, geralmente sem laços afetivos ou sexuais, pois o que há entre essas pessoa é, principalmente, o comprometimento mútuo com a criança que será gerada. Nesse contexto, é importante que consigamos desconstruir a ideia de que um pai vai ser obviamente um homem que nasceu com sexo masculino, por exemplo, pode ser um trans homem e também existem muitas trans mulheres sendo mães mesmo sem gestar e parir. Nada é óbvio nas questões parentais quando pensamos na diversidade de gênero e de formas de amar ou na sexualidade das pessoas. Por isso, também é essencial descentrarmos a ideia de que uma criança precisa ser educada por pai e mãe, uma concepção machista e heteronormativa que é limitante à convivência familiar em todas as configurações porque estabelece papéis sexuais de cuidado e de tarefas no ambiente doméstico. Ou seja, ficamos fixados na ideia de que paternidade só pode ser exercida por homens e tem X habilidades e funções, enquanto a maternidade torna-se reservada apenas às mulheres que tem Y habilidades e funções. A única diferença que há (ou que deveria haver) entre sexo masculino e feminino ao cuidar, educar e amar um filho está na parte de gestar e parir um bebê, até mesmo amamentação pode ser ofertada por outras vias que não o peito da mulher.

Alguns trabalhos apresentados no 13º Congresso Mundos de Mulheres / Seminário Fazendo Gênero 11 me fizeram pensar além das questões de discriminação sofridas pelas mulheres lésbicas. Nessa perspectiva de gênero contada por elas permitiu uma reflexão empática sobre as questões interseccionais das mulheres negras e lésbicas que sofrem o machismo, o racismo e a lesbofobia. E, ao promover diálogos sobre realidades distintas despertaram importantes temas como os direitos sexuais e direitos reprodutivos das mulheres, especialmente à percepção de casais homoafetivos de mulheres com biografias individuais e histórias familiares, que têm diversos arranjos conjugais. Essas histórias contemplam gravidez realizada por meio de tecnologias reprodutivas, inseminação caseira ou relação sexual ocasional, com presença de pai biológico ou não. Enfim, discutiram e reverberaram questões que geralmente são invisibilizadas, como as tensões da homoparentalidade feminina junto às decisões reprodutivas em um sistema de saúde  que geralmente não oferece um atendimento digno e respeitoso para essas pessoas, da parte burocrática ao parto. Todos nós precisamos tornar essas realidades visíveis, mesmo não sendo as nossas, para que se tornem naturais no trato social e tenham condições de saúde, de leis e apoios emocionais e familiares que reconheça a diversidade de gênero e resguarde seus direitos.

 

Vai ter sapata sim, vai ter mona e mina em ativismo por seus direitos. Vamos juntxs nessa luta contra o preconceito de gênero e sexualidade!

“O amor entre mulheres nos dá outro tipo de consciência e nos move de uma outra maneira enquanto jovens. Queremos mostrar que mulheres lésbicas produzem em diferentes campos do saber”, afirma a participante do evento Amor entre mulheres: tem sapatão na UDESC com a cobertura do Portal Catarinas.


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