Por Luana Borges

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De 30 de julho a 04 de agosto desse ano aconteceu em Florianópolis/SC na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) o maior evento feminista do mundo, o 13º Congresso Mundos de Mulheres (13º MM) junto ao Seminário Fazendo Gênero 11 da UFSC (FG11). Recebemos com o maior orgulho, nós brasileirxs pela primeira vez na América Latina esse evento tão importante que reuniu pessoas e instituições acadêmicas e movimentos sociais, com mais de 8 mil inscritxs. Esse diálogo entre mundos geralmente tão distantes cria uma transversalidade que fortalece a diversidade política e cultural de gênero, de etnia, de classe, de credos e conhecimentos, da teoria a prática em um intenso movimento que a partir das mulheres e do feminismo abraça a defesa dos direitos de todas as minorias sociais (mulheres, negrxs, indígenas, pessoas LGBTTTQI, trabalhadorxs). Direitos esses citados na conferência da ministra Eleonora Menicucci de Oliveira no evento, os quais foram conquistados com muita dificuldade a longo prazo e agora, com o atual governo golpista misógino, estão se perdendo em um um retrocesso violento, por isso precisamos resistir, o  13º MM / FG11 é um grande expressão dessa resistência necessária.

Vídeo: mesa de abertura do evento 13ºMM/ FG11 na UFSC dia 31 de julho, que contou com apresentações artísticas e políticas.

Fotos: show do Coletivo Odara, musicistas que emocionaram o público na noite de abertura do evento 13ºMM/ FG11, em 31 de julho na UFSC.

Fotos: mulheres indígenas se apresentando com os tradicionais chocalhos e cantos de empoderamento com o grito de ordem  “Demarcação já!”e o rap que versava em tom denúncia o fato delas já nascerem guerreiras em combate ao machismo e ao racismo e genocídio indígena no Brasil.

O evento foi incrível em todas suas formas de apresentações artísticas, literárias, teóricas, poéticas, ativistas, de muitas cores e bandeiras de luta, mas sobretudo foi político, assim como tudo que fizemos em nossas vidas também é político. Política não se faz apenas na lógica governamental e partidarista, vale lembrar a máxima feminista que até mesmo o que fazemos no privado é político e por isso, na maioria das vezes se torna um problema coletivo/público porque muitas outras pessoas vivenciam ou sofrem de maneira semelhante, a exemplo da violência doméstica que tantas mulheres enfrentam na mão de seus “companheiros”, que muitas vezes terminam elevando as estatísticas alarmantes de feminicídios. Essa é a premissa de humanxs em sociedade serem políticos, em relações que tudo afeta tudo, pois há um posicionamento político nos ideais e nas ações mesmo que não seja percebido ou refletido propositalmente. A razão disso é que não nos construímos sozinhxs, pois nossas identidades são acúmulos de aprendizados, de traumas, de interferências ou influências mais ou menos tendenciosas (da família, da escola, da mídia, da cultura nacional e regional) que moldam nossa personalidade, nossos preconceitos e ideologias, nossos estímulos de ação e reação. O evento se propôs com excelência mostrar que inclusive tudo isso que aprendemos a ser e fazer é importante repensar como tradições, pensamentos e hábitos que devem ser, muitas vezes, reaprendidos com mais senso de justiça social e igualdade de direitos entre as diferenças.

Vídeo: Marcha Internacional Mundos de Mulheres por Direitos 2017, em Florianópolis/SC, realizada em 02 de agosto promovida pelo 13º Congresso Mundos de Mulheres e Seminário Fazendo Gênero 11.

Fotos: Marcha Internacional “Mundos de Mulheres por Direitos”, que segundo a organização do 13º MM / FG 11, cerca de dez mil pessoas participaram com suas faixas, cartazes, batucadas e gritos de ordem como “Se cuida, se cuida, se cuida seu machista, a América Latina vai ser toda feminista!”, “Nem recatada, nem do lar, a mulherada tá na rua é pra lutar!”, “Nem uma a menos!”, “Feminismo é revolução, feminismo é revolução!”. Essas vozes plurais vinham de mulheres do campo e urbanas, mulheres homo/hetero/bissexuais, mulheres trans, mulheres de diferentes classes, credos, corpos e etnias, em defesa dos direitos das mulheres, o que somou a luta contra as todas formas de opressão e violência aos direitos humanos.

“Nós mulheres negras, de terreiro e axé, e as mulheres indígenas somos as primeiras a serem violentadas pelo Estado. Falam muito em violência individual, mas a real violência é a estrutural desse Estado racista, machista, preconceituoso que nunca nos quis. A proposta foi esta: estarmos à frente para mostrar para o Estado brasileiro que o mundo é feito de mulheres: indígenas, brancas, amarelas”, diz Sandra Li, ialorixá sobre a linha de frente na Marcha das Mulheres – Portal Catarinas.

Reação é que vimos na essência do 13º MM/FG11 e o que sentimos nos movimentos sociais como também na academia quando tratamos de gênero e de políticas públicas para mulheres e para todas as minorias já citadas. Essa reatividade ao conservadorismo político e fundamentalismo religioso é o que precisamos em busca de um mundo mais justo, princípio que o evento reflete a partir do poder da vulnerabilidade social e da coletividade quando reage por um bem comum a todxs. Com isso, o 13º MM travou diversos gritos de ordem como o repetido “Fora Temer!” e “Diretas já!” pelo basta a tanta submissão e sujeição a (des)governos autoritários e elitistas como estamos vivenciando hoje no Brasil e tantas outras partes do mundo.

Fotos: Mesa mulheres negras, resistência e interseccionalidade. Por meio da reflexão sobre a interseccionalidade emancipatória proposta por Nilma Lino, dos indicadores de feminicídio, dos quais as mulheres negras são as maiores vítimas, a importância de compreender que o racismo transversaliza as violências e seus impactos apontou Claúdia Cardoso. Janja Araújo, através da sua trajetória de dupla iniciação angolana, na capoeira e na religião de matriz africana, apontou a contribuição da luta antirracista na visibilização das mulheres negras e suas pesquisas no meio acadêmico e científico. Já Lúcia Xavier apontou a importância das mulheres negras questionarem as categorias que nos interseccionam para avançarmos. Desse modo, a mesa redonda congregou o maior contingente de pessoas negras no evento e desafiou: Que tal enegrecer o Fazendo Gênero? – fonte: página do evento no Facebook  

Acesse o site oficial e a página do evento no Facebook para saber mais sobre os debates que aconteceram.

Reagir para afrontar os poderosos e a tradicional cultura sufocante de privilégios que alimentam a hetero/cisnormatividade, o machismo, a homofobia, o racismo e a intolerância religiosa e sexual. Nessa luta ganhamos algum poder de competição social para recuperar os direitos que estão sendo ceifados e com sorte conseguimos acordar boa parte da massa amorfa e acrítica, anestesiada sobre esses temas devido à urgência de sobreviver na selva social de imposições. Refletir com empatia e consciência social sobre os problemas alheios provoca em muitas pessoas um preguiça mental, principalmente porque acreditam que o problema de realidades “distantes” realmente não afeta a todxs. Essas pessoas que não conseguem ou não querem acordar para a força poderosa da coletividade despertada, midiatizada e berrada por esse evento, estão perdendo de aprender quando negam ou ignoram a importância da luta em defesa das mulheres e de toda diversidade que carece de respeito e direitos iguais para todxs.

Nessa integração valoriza-se a perspectiva histórica de resgate  manutenção de um legado de país colonizado que é o Brasil, que aflora diversidade cultural, mas peca em ressarcir os povos originários e o povo negro tão sofrido pela escravidão. Isso nos lembra que o que fazemos hoje é fruto de espaços oportunizados no passado e motivação que vai trabnformar as próximas gerações também. Estamos sempre interligadxs nessa perspectiva histórica temporal aparentemente distante, exemplo disso são as cotas erroneamente vistas como esmolas e na verdade são reparação histórica visto que uma educação de base forte e igual a todxs ainda caminha a passos lentos.

Vídeo: do Facebook do evento 13º MM / FG11 sobre a Mesa Redonda Movimentos Sociais e Ativismos Seção II com a coordenação de Carmem Vera Ramos (UFSC), a debatedora Sheila Sabag e as palestrantes Cláudia Macedo (Coturno de Vênus/FMDF), Carmen Silvia Maria da Silva (AMB) e Tsitsina Xavante (APIB). A mesa pautou a articulação de Mulheres Brasileiras: feminismo como resistência e luta para a transformação social com a palestrante Elizabeth Ferreira Cruz. Também trataram sobre a Voz das Mulheres Indígenas: uma ação para fortalecimento das capacidades das mulheres indígenas, com a palestrante Tsitsina Xavante – assista mais vídeos.

Muitxs se eximem dessa responsabilidade histórica, acreditam que nada tem a ver com o sofrimento de gente “tão diferente, em tempos tão distantes” como negrxs e indígenas e caem na enganosa meritocracia e no discurso umbiguista e fascista que desconsidera os afetos coletivos em sociedade. Outrxs, nessa mesma negação preferem apaziguar as discriminações e violências machistas, racistas e classistas e caem no amplo e ingênuo humanismo de que todxs somos iguais perante a legislação e sob o julgo de Deus, enquanto sofremos desigualdades violentas na prática do cotidiano social. Diante de tudo isso, vejo que a empatia não é uma prática social, é uma consciência que deve ser educada, despertada, desenvolvida e trabalhada para ser mantida e se tornar, então, uma prática comum ou um hábito de enxergar as desigualdades em todos seus níveis de opressão a fim de combater como for possível. Enxergar isso incomoda, exige um pouco de esforço mental, enxergar além do próprio umbigo desacomoda privilégios que no geral são ruins, são sinônimo de minoria de pessoas com grandes vantagens. Mas, isso é gratificante pois recebemos um acolhimento recíproco de outrxs que também defendem essa luta contra as desigualdades sociais, o que foi o motor do 13º MM /  FG11.

Imagem: conferencistas do 13ºMM / FG 11. Veja mais no site oficial do evento.

Vídeo: Lilian Celiberti, a conferencista do 13ºMM/ FG11 dia 03 de agosto, em entrevista ao Portal Catarinas:

“a violência sexual é sempre uma arma de destruição, um ataque à vida das outras pessoas e, através do corpo das mulheres, à toda a vida política (…) Roubaram crianças, violaram mulheres e homens, desapareceram com pessoas. Como povo, não podemos esquecer (…) Famílias são as que constroem vínculos igualitários. Não aceitamos famílias autoritárias em que há violência.”

“O que acontece hoje no Brasil é a expressão de formas fundamentalistas de impor a lógica do mercado, contraposta à lógica dos direitos, de regular as relações sociais desprotegendo as maiorias de subalternas e subalternos (…) a esperança é a vitalidade dos movimentos sociais. Estamos vivendo um momento difícil na América Latina e, podemos dizer, no mundo, cercado de muitas incertezas. Temos que ser capazes de transformar essas incertezas e nos transformarmos em outras perspectivas. Somos ecodependentes e interdependentes, nos necessitamos mutuamente e precisamos criar outras relações de consumo e de vida cotidiana em nossas sociedades para fazê-las sustentáveis. Por isso, creio numa consígnia importante do feminismo que é preciso avançar na sustentabilidade.”

Veja a cobertura completa do evento pelo Portal Catarinas

Quem foi ao evento 13º MM / FG11 lavou a alma, se fortaleceu em um espaço repleto de empoderamento e amor à diversidade, mesmo nesse momento de crise política brasileira, os Mundos de Mulheres elevou a autoestima e a esperança de todxs que acompanharam e participaram do evento. Nesse ímpeto de transformação e acolhimento da diversidade o feminismo vem para unir as mulheres e todas pessoas envolvidas no evento, para mostrar como reconhecer e reafirmar as diferenças se torna uma atitude política que fortalece o poder de ação de tais minorias sociais, produzindo um consenso sobre a injustiça e as violências a serem combatidas para conquistarmos um mundo mais igualitário e com mais respeito aos direitos humanos. Por isso, é feminismo que queremos aos direitos humanos nessa realidade possível de mundos de mulheres com lutas tão diferentes, que se unem em resistência a problemas comuns que afetam a dignidade humana, cultural, política e identitária em diferentes contextos sociais. Por isso, os Mundos de Mulheres estão apenas começando!

A imagem pode conter: textoImagem: homenagem do cartunista Alexandre Beck ao evento 13º MM / FG11, com seu famoso personagem Armandinho.

Fotos: apresentações artísticas e culturais do 13ºMM / FG11 que completaram a intensidade proposta pelo evento. Por meio de emoção e contestação a arte expressou a diversidade política de muitas questões sociais, principalmente a de gênero. A arte nesse evento foi, sobretudo, provocativa e encantadora fazendo o público refletir sobre violências, tradições, direitos e poderes a partir de intervenções, performances, apresentações teatrais e musicais que contaram com a presença do grupo de percussão Cores de Aidê, de Nós Passarinhas com o show Nuestros Cuerpos, a peça Desadormecida de A Lontra Faz Teatro, os shows de rap Trama feminina e Batalha das Mina, acústico com Dandara Manoela, performance Preta-à-Porter do Coletivo Nega, roda de Capoeira Angola com a mestra Elma Silva Weba, peça Pedaços de Carne de Patsy Cecato, teatro Via Crucis do Corpo,  Madalenas na Luta – Teatro das Oprimidas-SC, entre outras referências. Confira os detalhes de todas as Atividades artísticas e culturais no site.
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Imagem: show oficial do evento foi de Linn da Quebrada. Veja fotos desse show no facebook.

Fotos: apresentação musical do grupo La Clínica no encerramento do evento 13ºMM/ FG11. Um pouco do que foi cantado/recitado por elas: “apagam muros, apagam nomes vendendo esquecimento e castrando escolas (…) e eu ainda tenho que ouvir que sou extremista uma justiça que só não é cega (…) a mídia pode esconder mas somos muitos e não vamos esquecer vamos subir muro e descer morro (…) e ser negra aos muitos olhos já significa insuficiência que caráter de inteligencia mas nós não tomba PORQUE NÓS SOMOS A RESISTÊNCIA!”.

Fotos: o evento 13º MM/ FG11 teve Conferências, Mesas-redondas, Fóruns de Debate, Simpósios Temáticos, Pôsteres, Minicursos e Oficinas; Reuniões, Lançamento de livros, revistas, DVDs; Tenda Mundos de Mulheres, Tenda da Saúde, II Exposição Arte e Gênero, Atividades artísticas e culturais, Mostra audiovisual e Mostra Fotográfica. Acesse o site oficial, a página do evento no Facebook e o perfil no Instagram para saber mais sobre esses debates e apresentações incríveis que aconteceram e ecoaram nos Mundos de Mulheres.

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No encerramento do evento em 04 de julho houve a cerimônia simbólica de passagem do evento Mundo de Mulheres pela academia e movimentos sociais brasileiros para a comitiva de Moçambique, país que sediará a próxima edição, em 2020. Foto: Portal Catarinas/Dieine Gomez


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