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Foto: 8M Brasil sobre o 8 de março em 2017 – “Nós somos as mulheres em Greve” 57 países do mundo reunidos em um #8M histórico.

Os dias 8 de março e o despertar feminista

No 8 de março de 2017 as mulheres se organizaram e mobilizaram manifestações no mundo todo com a #grevedasmulheres e em mais um Dia Internacional das Mulheres elas quiseram principalmente direitos, não flores e parabéns. Essas reivindicações são antigas e ao mesmo tempo atuais, pois precisam estar em constante vigilâncias para tornar invioláveis os direitos humanos básicos de respeito e dignidade social das mulheres. E são muitos os motivos para que não tenhamos nada a celebrar no dia 8 de março, aliás, o único parabéns que nós mulheres precisamos é pela força e união feminina ao lutar por direitos todos os dias. As violências de gênero acontecem a todo momento contra as mulheres, o que faz necessária a lei Maria da Penha e do Feminicídio. Também há violências desmedidas contra homossexuais, lésbicas e transsexuais, assim como violências como o racismo, todas essas pautas são denunciadas por mulheres no 8 de março como símbolo de resistência do que enfrentamos em todos os dias do ano. Esses e outros problemas que atrasam os direitos das mulheres em sociedade são comentados por Marcia Tiburi na entrevista ao Portal Catarinas: “no geral, vemos que a violência contra as mulheres continua a crescer, enquanto seu lugar no parlamento continua a diminuir. Para mim, a maior questão a ser enfrentada pelas mulheres é justamente a sua irrepresentabilidade na política. Fosse diferente, fosse mais significativa até, e teríamos outra sociedade”, problematiza a filósofa e professora Marcia Tiburi.

Sim, falta representatividade de mulheres no governo, mas também em outros cargos de poder e em manifestações públicas como do 8 de março. Em Florianópolis/SC participei da marcha de mulheres e foi contagiante, foi intensa a vontade delas de estarem lá, de gritarem palavras de ordem como “NEM UMA A MENOS”, “NEM RECATADA NEM DO LAR A MULHERADA TA NA RUA É PRA LUTAR” 🎵. Foram 15 horas de manifestações entre mulheres reunidas ao longo do dia, mas na marcha eu poderia ter visto muito mais mulheres representando a causa, pois foram em torno de mil pessoas segundo a polícia e mil e quinhentas segundo a organização do 8M. Observei muitas mães e suas crianças, alguns homens as acompanhando, muitas universitárias e professoras, a maioria branca, senti falta de mais negras, de mais mulheres trabalhadoras, estudantes, donas de casa, empresárias, esportistas, de 20 ou 60 anos, mulheres transsexuais, lésbicas, heterossexuais, de todos os credos e identidades, porque essa luta interessa a todas.

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Foto: Xinhua. Santiago do Chile.

Mas o despertar para a importância da luta coletivas da mulheres está em ascensão, em ebulição. “As mulheres são causa para elas mesmas. Essa é a grande revolução que nosso momento exige”, disse Marcia Tiburi na entrevista ao Portal Catarinas. E para avançar nessa revolução para todas, Catarinas a questiona sobre como ampliar a discussão sobre a importância do feminismo: “O feminismo é uma luta contra a ignorância. Machismo é, sobretudo, uma ignorância útil. É nesse sentido que falamos em privilégios. Os privilegiados pertencem àqueles que levam vantagens com um sistema de injustiças. Para ampliar a discussão precisamos de mais sabedoria, de mais lucidez, de menos ignorantes úteis produzindo misoginia e violência física e simbólica. A educação e a cultura teriam um grande papel nisso. Creio que um grande despertar feminista está sendo produzido. E é bom não falar alto demais enquanto não tivermos firmado as bases da transformação que está sendo operada pelas feministas em todos os contextos”, responde Marcia Tiburi.

Foto: custodianews.com

A sentença de ser mulher e a revolução da palavra feminismo e sua motivação

A sentença de ser mulher parece envolver todas nós em busca desses direitos que o feminismo propaga e reivindica. Essa revolução precisa vir de nós, no cotidiano e nas intervenções públicas, mas precisa da conscientização de como somos “sentenciadas” por nascer com o sexo feminino e se tornar mulher, como citou sabiamente Nikelen Witter: “meu ponto de vista de historiadora me permite afirmar de forma bastante plausível: não, as mulheres não são vítimas, nem o foram sempre em seus diversos contextos históricos. Ainda assim, reafirmo, é uma sentença ser mulher. A sentença está no fato de que algumas coisas acontecem às mulheres apenas porque elas são mulheres. Em alguns lugares do mundo bebês são abortados, abandonados e até mesmo mortos por serem meninas. Meninas têm seus clitóris extirpados para o controle de sua sexualidade. Meninas são vendidas por serem meninas. Raptadas para se tornarem escravas sexuais por serem meninas. Proibidas de estudar por serem meninas. As que insistem podem ser perseguidas e levarem tiros na cabeça como a Prêmio Nobel Malala Yussef. Meninas e mulheres são estupradas em todos os cantos do mundo. E, pasmem, não são tratadas como vítimas, mas como culpadas. Suas roupas são culpadas. (…) São culpadas por serem perseguidas. São culpadas por cada comportamento, pelos malfeitos dos outros, por estarem na posição de vítima. Em suma, são culpadas por serem mulheres“. – matéria de Nikelen Witter para o jornal Diário de Santa Maria

Por essas razões reforçadas diversas vezes na luta feminista é que deveríamos ser todos e todas feministas, em busca de um mundo mais justo, uma sociedade com igualdade de gênero, não aquela igualdade utópica humanista e inocente, mas a igualdade que proporciona oportunidades e direitos as minorias sociais, equalizando a vida em sociedade. Mas para isso, ainda “perdemos tempo” explicando e retratando a palavra feminismo, enquanto poderíamos estar concretizando projetos, eventos e leis em prol dos direitos das mulheres. Isso porque o feminismo é uma palavra que traz uma “bagagem negativa”e isso é explicado pela escritora Chimamanda Ngozi Adichie na entrevista à BBC Brasil:

Chimamanda

A ideia de mulheres serem iguais aos homens foi algo em que eu sempre acreditei, então sou feminista desde os 4 anos de idade. Mas nunca realmente parava para pensar sobre a palavra em si. Isso até um amigo me chamar de feminista em tom de insulto. Aí que eu fui atrás, procurei o significado, fui ler sobre o conceito, aprender sobre. E pensei: é exatamente isso que eu sou, é isso que me descreve.

Existe uma ideia dominante que associa essa palavra com o extremo. Aquela ideia de que toda feminista odeia homens, que elas são cheias de raiva, desagradáveis…essa negatividade extrema ficou muito conectada com aquela palavra. Mas acho que nós precisamos da palavra. Se nós queremos resolver um problema, temos que saber lhe dar um nome. É uma palavra que tem sido demonizada. Talvez esteja na hora de pegá-la de volta e fazer dela o que realmente é: ligada a direitos humanos, justiça, igualdade para homens e mulheres – o que inclui mulheres de todos os lugares do mundo.

Acho que a nossa cultura ainda não gosta disso, tanto homens quanto mulheres…nós simplesmente ainda não gostamos de mulheres se manifestando. Eu mesma tive experiências com essa hostilidade. Mas por outro lado, eu também tive experiência com pessoas que disseram que, lendo as coisas que eu escrevo, passaram a pensar em algo que não tinham pensado antes. Ouvi isso de alguns homens. Claro, ainda não é o suficiente, ainda há muito mais hostilidade do que elogios, mas acho que é importante continuar falando, se manifestando”.

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Imagens @ Divulgação/Reuters/Pinterest

Precisamos dessa revolução da palavra feminismo, da educação feminista, por gerações mais feministas, que pensem nos problemas de gênero e resolvam isso com uma educação igualitária, sem machismo. Todo dia um passo adiante e vamos conquistando essa revolução ao reeducar as pessoas ao nosso redor e a nós mesmas.

 Por Luana Borges


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