Por Luana Borges

“…a cultura em que somos educado(as) machista e misógina que forja o sexo masculino como superior para algumas pessoas, enquanto é nítido a fragilidade desse “império viril”, quando é questionado ou afrontado e tem consequências devastadoras.”

Foto: série Boys, do fotógrafo Tyler Udall, que retrata uma imagem mais complexa da infância masculina — não só de força bruta, poder e machismo, mas também de ternura e tranquilidade.

Um tempo atrás conversando com um homem que conheci rapidamente, um estudante de Direito, comentei sobre a vitória do movimento feminista com a lei do feminicídio e ele não fazia ideia do que era, algo preocupante devido à área que está cursando, mas, com minha fala introdutória sobre o assunto ele demonstrou interesse. De maneira geral, a desinformação sobre essa lei é comum, infelizmente, pois é a lei 13.104/15 outorgada em 2015 que incluiu no código penal mais uma modalidade de homicídio qualificado, o “feminicídio: quando crime for praticado contra a mulher por razões da condição de sexo feminino, em duas hipóteses: a) violência doméstica e familiar; b) menosprezo ou discriminação à condição de mulher.” A validação dessa lei envolve o reconhecimento de mulheres como minorias sociais que devem ser protegidas, enquanto ainda houver recorrentes casos de violência doméstica que ocorrem majoritariamente de homens para mulheres, assim como o “pornô de vingança” quando são vazados na internet materiais íntimos de uma pessoa. Existe um motivo forte para que a maioria dessas vítimas sejam mulheres, é a cultura em que somos educado(as) machista e misógina que forja o sexo masculino como superior para algumas pessoas, enquanto é nítido a fragilidade desse “império viril” quando é questionado ou afrontado e tem consequências devastadoras. Isso por conta do egocentrismo masculino ou falocentrismo no mundo que posiciona os homens em lugares de poder e grande autoestima, em que alguns se libertam dessa educação, já outros acreditam realmente que podem ter a posse irrevogável de coisas e pessoas.

Mas afinal, homem se define por si mesmo ou apenas por comparação com a mulher? É útil fazer a pergunta ao contrário também e ter uma dose de leituras e autoconhecimento contínuo para entender isso. E como promover uma educação social que desapegue da supervalorização da agressividade como parte da masculinidade? Isso associa da raiva ao desejo sexual, algo que dura a vida inteira em muitos homens. Com nova práticas e alguma paciência a masculinidade hegemônica e paradoxalmente com alicerces frágeis, pode ser refeita. Nisso, é possível perceber quem sente-se mais acoado e fragilizado quando estimulamos a sensibilidade, a suavidade e o respeito em uma educação, é o sexo masculino. E isso não quer dizer muita coisa, apenas que há um desequilíbrio de comportamento que limita muita gente e tem consequências em violências de gênero.

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O cara que não conhecia o feminicídio ainda me perguntou “mas então, porque as feministas querem uma lei que diferencie tanto as mulheres, se a luta é por igualdade?”. O ideal é que não precisasse existir leis como essa, respondi, assim como outras que soam tão redundantes, mas nossa vida em sociedade e as liberdades conflitantes produzem crimes horríveis, fatos que buscam ser mediados e punidos por leis, algo que se resolve de verdade e com relativa demora a partir de uma nova educação de convivência social, com mais respeito entre as diferenças, sem pressuposições e prejulgamentos discriminativos por causa da cor de pele de alguém, da aparente condição financeira e do sexo biológico ou aparente identidade de gênero.

Por isso também dizem que existe uma “cultura do estupro” e que homens são “estupradores em potencial”. Essa cultura do estupro não deve ser prejulgada como algo intencional que se cultua como tradição de um povo, é uma cultura porque é provocada por heranças familiares, políticas e midiáticas que “educam” um conjunto de pensamentos e práticas habituais que perpetuam estereótipos machistas como a objetificação e fragilização da imagem feminina. Somos todos(as) culpados(as) coletivamente por isso e, ao mesmo tempo, responsáveis pela mudança. E para uma mulher andar à noite na rua sozinha, por exemplo, ainda é ter medo em dobro quando avistamos um homem estranho, por isso dá sentido a expressão que refere homem como “estuprador em potencial”. Isso tem ainda mais razão segundo as estatísticas de violência de gênero que afeta em maior número mulheres e também o feminino de modo mais amplo quando vemos crimes de homofobia.

Nisso há um feminino que sugere fraqueza, inferioridade e dever de submissão para muitos homens e quando têm sua virilidade ameaçada, sua autoridade familiar ou profissional colocados à prova, parece que o mundo desaba sobre suas cabeças de “machões” em prol de uma “honra” estúpida e imaginada em uma educação machista que os ensina serem superiores às mulheres, não apenas na força física. Nascer com sexo masculino não faz de nenhum ser humano violento ou machista, tampouco faz do sexo feminino naturalmente frágil e menos capaz. Longe de generalizações, o que confirmamos em vivências sociais é que muitos homens são violentos quando desafiados e muitas mulheres são aparentemente mais frágeis, mas tudo isso sem relação biológica, unicamente por conta da educação que recebem, por proporcionar mais estímulos de sensibilidade às meninas e mais atividades de ação aos meninos. Não é regra, são apenas constatações de raízes da violência recorrente do nosso cotidiano, que atinge massivamente mulheres. Exemplo disso é que “uma mulher é estuprada no Brasil a cada 11 minutos, segundo estatística recolhida pela FBSP… apenas 30% a 35% dos casos são registrados” conforme Estadão em 2016. Podemos mudar isso empoderando mulheres a terem voz para denunciar e fazer de suas vontades prioridade, assim como podemos sensibilizar homens a serem mais cuidadosos e respeitosos com todo tipo de pessoa, principalmente com o sexo oposto diante do que já foi descrito.

No estudo de Vitória Buzzi é demonstrada essa relação que deixa evidente uma fragilidade masculina no seu livro Pornografia de Vingança e os casos de humilhação e suicídios por conta de vazamento de materiais íntimos de mulheres por seus companheiros. Esse estudo nos faz pensar o porquê tamanha humilhação não acontece da mesma forma quando uma mulher vaza “nudes” do seu companheiro?! Provavelmente porque a cultura machista sempre teve a sexualidade masculina como pública e por isso não iria “viralizar” tanto na rede, nem humilhar um homem como acontece quando uma mulher é vítima de pornografia não consensual na internet, visto que a sexualidade feminina sempre foi velada e privada historicamente. Esse “sempre foi assim” não significa que não deve mudar, pelo contrário.

A análise dos dados presentes no livro de Buzzi (2015, p. 40) mostra que homens produzem mais conteúdo próprio, consequência dessa vivência sexual masculina celebrada e até incentivada, e “mulheres são as que mais buscam ajuda online quando confrontadas com o vazamento de material íntimo na rede; e as que menos se sentem seguras em compartilhar gravações próprias na internet”. Com isso ela remete a explicação de Beauvoir (1970): “às mulheres foi dito que permaneçam intocadas como um ídolo. Devem estar dispostas a atender os desejos masculinos, mas nunca em benefício próprio. Qualquer movimento que faça no sentido libertar-se do outro, tornando-se ela então Sujeito, sofrerá severos contra-ataques masculinos”, ratificando a pornografia de vingança como instrumento de manutenção de um privilégio e um poder masculino.

Ainda, o livro traz diversos relatos de mulheres brasileiras vítimas da pornografia de vingança, que conforme Buzzi (2015, p. 69  e 70) “permitem dar visibilidade às consequências deste fenômeno na vida das vítimas – mulheres imersas em diferentes realidades, contextos sociais, relações afetivas (…) levam-se as pessoas a compreender que os problemas vividos individualmente constituem, em verdade, uma questão coletiva.”. Isso representa a forma como a sociedade encara a sexualidade feminina que converge “ao desprezo, as humilhações, ameaças, censuras, chantagens à subversão do ‘papel sexual designado como feminino’, agem como forças simbólicas – formas de poder que se exercem sobre os corpos sem qualquer coação física – e funcionam como chamados à ordem: a ordem física e a ordem social do mundo sexualmente hierarquizado“.

Reflexo dessa “ordem” são a maioria dos casos policiais em que percebemos o poder patriarcal ainda muito forte, quando um homem “perde tudo”, por exemplo, se perde o emprego, se a esposa o trai ou simplesmente se ela decide se divorciar, ele se mata e, muitas vezes, mata a família também. Em contraponto, como costumam dizer por aí, “mulher quando perde tudo” arruma um novo tipo de trabalho, “se vira”, pede ajuda, cria uma nova realidade e supera os fracassos. Infelizmente vemos na mídia a todo momento casos de violência doméstica que resultam em homicídios pelas mãos de homens, além da violência psicológica contra mulheres, motivo da lei do feminicídio existir.

Além do sexo masculino que já representando um lugar de poder na cultura machista, o seu ego e sua autoestima vão sendo alimentados com uma superioridade que, para alguns homens transborda para a prepotência e o autoritarismo. Junto a isso, a crescente ascensão das mulheres no mercado do trabalho e o empoderamento feminino vem há algumas décadas desafiando homens e mulheres a repensarem seus “papeis” sociais, o que tem sido motivo para desestabilizar quem “sempre esteve no poder” da cultura machista, o sexo masculino. Por isso, precisa-se uma reeducação de ambos os sexos, com respeito ao espaço de cada um(a) tem para conquistar seus direitos e realizar as próprias vontades sem prejudicar ninguém. Nessas relações de poder que acabamos estabelecendo é possível entender quando falam que os homens têm enfrentado dificuldades para lidar com as mudanças que empoderam mulheres, pois quando se “dá poder a alguém” que se acreditava incapaz por algum motivo, também se “tira poder de alguém” que achava que dominava de maneira vitalícia e natural outro alguém ou coisa.

Percebemos assim, a necessidade de educar pessoas que ter alguém como posse não é legal e que diga aos homens, principalmente aos heteros, que pode chorar, que pode ser delicado, que pode se entregar a paternidade, que pode ser afetuoso com os amigos e a família, que pode não ser o maior provedor do lar, que pode não querer ser o mais forte e libidinoso o tempo todo, que isso tudo pode e deve ser desconstruído conforme cada um sente que é, nada vai fazer eles menos homens e dignos de respeito. É um tipo de empoderamento que vem quando as mulheres se empoderam também sabendo que podem ser e fazer tudo que elas quiserem, pisando no machismo que as julgam frágeis demais para algum feito. Reorganizar a casa e empoderar mulheres, cada vez mais, parece ser um trabalho de autoconhecimento de todo mundo, em que é benéfico quando homens se descobrem sensivelmente fortes, igual a nós mulheres nos tornamos por forças culturais que nos unem na diversidade.

 


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