Por Luana Borges

Uma menina queria muito vestir-se de princesa para ir a uma festa à fantasia, mas ao ir às lojas com sua mãe encontrou apenas fantasia de bruxa para seu tamanho, que era maior do que sua idade previa nas confecções de vestuário. Ainda descontente a menina experimentou a roupa de bruxa, mas quando se deparou no espelho enxergou poder e beleza. Na festa estava sentindo-se poderosa e a partir disso começou a pesquisar sobre bruxaria e as mulheres consideradas bruxas na história, as quais muitas vezes por se expressar e tentar revolucionar suas realidades eram queimadas na fogueira. Essa menina se tornou uma mulher ciente do poder feminino, o que as bruxas simbolizam, sonhou em ter poderes mágicos, mas descobriu que tem outros igualmente transformadores, os de autoestima e coragem diante do mundo, ela descobriu que ser mulher exige isso. Ela cresceu e se tornou feminista!

A maioria das meninas crescem sendo estimuladas a acreditar que a referência mais poderosa e encantadora é ser princesa, reforçando a cultura machista que impõe ao sexo feminino o estereótipo de fragilidade, sensibilidade e futilidade estética. Lugar esse que é pensado como passivo e submisso ao sexo masculino dito como o sexo forte e corajoso. Educação que precisa ser questionada e modelos femininos de poder que devem ser ampliados.

Sorte da menina e da mulher que se empodera e percebe que poder ser o que quiser, para além das personagens e das referências sociais oferecidas na educação sexista delas. Mas, essa “sorte” de conseguir pensar criticamente e ser autêntica não vem sem esforço. Essa mudança educacional e cultural exige uma nova postura de mães e pais, educadores(as) e professores(as) a fim de repensar os modelos sexistas tradicionais de heróis e heroínas, príncipes e princesas oferecidos na educação de meninos e meninas, transmitidos por gerações.

Conheça as princesas boca suja na campanha FCKH8

Como  (re)educar? Como (des)princesar a educação sexista?

O sexismo separa pessoas como se “naturalmente” ou biologicamente fossem predispostas a certas atividades em razão de seu sexo, discrimina “coisas de homem” e “coisas de mulher”. Mas, tudo que aprendemos sobre isso é cultural, é construído e portanto passível de mudança. O machismo se baseia no sexismo e reforça nesse modelo social também a violência contra as mulheres e a cultura do estupro que banaliza e objetifica o corpo feminino. Então, combatendo o sexismo, também lutamos contra esses problemas, criando novas gerações: com homens que pensem nas mulheres como pessoas que têm iguais direitos de respeito e iguais capacidades humanas e sociais, sem distinções de comportamentos e personalidades devido ao sexo que se nasce; com mulheres empoderadas e que percebam em si igual poderes e potencialidades sem as fronteiras criadas pelo machismo. E, para isso acontecer precisamos (des)construir tal cultura sexista e necessariamente (re)construir novas referências, mais amplas e cooperativas entres sexos, desfazendo a ideia de feminino submisso e frágil ou de masculino dominante e forte. Faz bem para ambos os sexos que exista o desenvolvimento igual de habilidades complementares, racionais e emocionais, inteligência lógica e sensível, assim se tornam pessoas mais completas.

Precisamos de novos “contos de fada”, novas referências de ídolos e ídolas, não apenas de príncipes e princesas, mas também de bruxas protagonistas, monstros, heróis e heroínas. Referências ficcionais e também reais com adultos que reflitam sobre seus próprios preconceitos sexistas e mostrem um horizonte ampliado a suas crianças. Veja 7 contos de fada que discutem estereótipos. e o Currículo de Gênero e 6 planos de aula da ONU Mulheres  com teorias e métodos práticos para serem aplicadas com jovens em sala de aula.

Complexo de Cinderela 

As princesas dos contos de fadas na educação das meninas, segundo a psicologia, estabeleceram em nossa cultura um complexo com origem na infância, que pode afetar as relações pessoais e amorosas no futuro. Se você tem filhas leia aqui o artigo sobre essa tradição de longa data, e que mesmo sem querer muitas família conservam.

Tradicionalmente pais e mães chamam suas filhas de princesas, e isso não é ruim, elas realmente tem essa importância de “realeza” para quem as ama. O que pode ser nocivo é criá-las apenas com o estímulo de ser como as princesas dos contos de fadas que são passivas e aguardam o “príncipe azul” como sua maior conquista na vida, sem saber que também podem empunhar uma espada e desbravar o mundo por si e ser muito mais do que a Cinderela pode ser. O Complexo de Cinderela (ou síndrome) foi estudado pela pesquisadora Colette Dowling, que lançou o livro “Complexo de Cinderela: o medo que as mulheres têm da independência”. Ele trata do desejo inconsciente das mulheres de serem protegidas ou cuidadas a todo momento, desconsiderando suas próprias vontades e atividades, o que implica ainda em ser bela, recatada e do lar como a Cinderela. Isso ocorre devido à criação e opressão social ou religiosa de nossa tradição de educações sexistas, que divide o mundo em rosa e azul, em universos bilaterais isolados, nada saudável e que só reforçam o machismo. Meninas podem continuar femininas e delicadas se suas personalidades assim forem e, ao mesmo tempo, serem corajosas, fortes e independentes.

Educação familiar contra o sexismo

A tradicional educação familiar sexista oferece referências binárias, que se reflete o que está na publicidade infantil, nos brinquedos e nas campanhas sociais como o outubro rosa e novembro azul. Cores e universos de fácil assimilação para direcionar ao masculino e ao feminino, mas que não é saudável para a criação de ambos o sexos sendo que tal divisão envolve além de cores também habilidades e vivências limitadas por dois mundos que não conversam e se discriminam. E nessa base da cultura machista sempre há um sexo sobreposto ao outro, em que o feminino é o lado oprimido historicamente.

Por isso, empoderar as meninas e desmistificar o universo de princesas tradicionais é tão importante. Para isso, começamos flexibilizando as escolhas de cores, roupas, comportamentos e brincadeiras, então, estaremos desconstruindo a educação sexista para adultos e crianças, desfazendo os estigmas de masculinidade e feminilidade que criamos com a educação tradicional fortalecedora do machismo. Esse imaginário social enxerga o feminino como naturalmente frágil, delicado, sensível e amoroso, o que leva a ideia equivocada de ser passivo, submisso e inferior. Junto a isso também é pensado o “instinto materno”, a vaidade e a futilidade como atributos naturais de quem nasce com o sexo feminino e define o que é ser mulher, desconsiderando a diversidade de mulheres que existe e fortalecendo a imagem de mulher submissa ao homem e ao lar. Nesse contexto sexista também há imposições aos homens de uma masculinidade que seria natural de quem nasce com o sexo masculino como força, coragem, virilidade e honra, ideias de um “macho alfa” provedor e protetor da fêmea, que leva a hegemonia masculina patriarcal de um sexo que detém o poder e se torna violento caso essa predominância seja ameaçada. Em síntese, é isso que vivemos na cultura machista e por isso que se luta em prol da igualdade de direitos de gênero.

As concepções de feminino e masculino se misturam em comportamentos e personalidades, independentes do sexo biológico de uma pessoa. Quando dividimos habilidades e aptidões físicas ou intelectuais por sexo, estabelecemos a cultura sexista, reforçamos aquilo que já existe, o padrão o qual fomos educados(as). Por isso, é preciso que haja um esforço de toda pessoa que convive com crianças, para que tal cultura seja repensada, para que tenhamos gerações mais igualitárias entre os sexos e pessoas mais completas em suas potencialidades que possam escolher realmente o que querem ser e fazer, sem amarras sexistas.

Estereótipos e referências para educar sem sexismo

Afinal, meninos são naturalmente melhores em matemática e meninas em português? Meninas sabem cuidar melhor dos outros e meninos são mais bagunceiros? Absolutamente não, se notamos muitos estereótipos que correspondem a isso é porque há uma educação que direciona a essas potencialidades divididas por sexo. Exemplo disso é o fato dos meninos serem mais estimulados a brincar com carrinhos, lego de engenharia, vídeo game e outras brincadeiras que envolvam ação e aventura, o que explica ainda serem maioria nas profissões de engenharia e serem visto como o sexo que tem mais senso de direção, o que é mais racional ou menos emotivo. Não poderia ser diferente, a vida inteira meninos aprendem que tem que “engolir o choro”. Em relação oposta também notamos mais mulheres sendo professoras e enfermeiras, por que brincaram mais de boneca e outras atividades que exigem sensibilidade, o que estimula atividades de cuidar e ensinar. Portanto, as diferenças na vida adulta entre homens e mulheres têm muita relação com os estímulos que lhes são dados durante a infância e juventude. E, tudo isso é cultural, nada natural, tudo é construído de maneira limitante com perfis de homem e mulher como algo estático, como uma fórmula.

Meninos que brincam de boneca e meninas que brincam de carrinho, isso deveria ser natural. Incentivar ou simplesmente não proibir meninos e meninas a brincarem livremente. Dar bonecas para meninos brincarem talvez seja nosso maior tabu, o que é extremamente necessário de estimular para despertar a sensibilidade de cuidar, amar e proteger como um pai faria. Por essa falta de estímulo é que muitos homens se tornam pais que não sabem e não querem nem segurar seus filhos no colo, tampouco assumir todas outras responsabilidades junto às mães. Meninos que brincam com atividades sensíveis e meninas que brincam com jogos de ação se tornam mais autênticos e completos, se tornarão mais respeitosos e igualitários nas relações sociais de gênero ao longo da vida.

É provável que estejamos vivendo a primeira geração de meninas verdadeiramente empoderadas, que experienciam atividades de ação e poder, que têm ídolas heroínas e princesas diferentes da Cinderela, da Branca de Neve e da Barbie, mais parecidas com as princesas da imagem abaixo. Entretanto, ainda precisamos equilibrar bastante tais incentivos para que também os meninos tenham experiências diversas ao brincar e trabalhem em si a sensibilidade que o sexismo sempre evitou, para que aprendam que o valente não é ser violento.

Princesas da animação “A Hora da Aventura” do Cartoon Network, que demonstram a quebra do estereótipo sexista de princesa frágil, delicada e com estética semelhante. Nesse enredo o título de Princesa é resignificado, esse é o mais alto cargo da sociedade, todos e todas querem ser princesa. Há Princesas nomeadas por: Jujuba, de Fogo, Caroço, Doutora, Tartaruga, Gosminha, Musculos, Embrião, Café-da-Manhã, Cachorro-Quente, Carangueijo, Monstro, Biscoito, Trapo, Fantasma e Cadáver.

—A educação familiar é um dos pilares decisivos em nossas percepções enquanto indivíduos sociais, que se soma aos fatores de personalidade e entorno de vivências. Por isso, é importante que a família ensine às crianças sobre direitos igualitários de gênero, orientando comportamentos não sexistas, assim como visões que respeitem todas as diferenças sociais e humanas. Uma educação não sexista é não limitar as potencialidades de uma criança, expandir seu universo de referências, a família deve pensar nisso. Nesse sentido, as brincadeiras cooperativas (imagens abaixo) ajudam muito a despertar o senso de coletividade, de respeito as diferenças, de confiança no sexo oposto de ser igualmente capaz. 

É urgente o combate as escolas de princesas (imagem abaixo) que estão surgindo, buscando normatizar o sexismo em um fluxo contrário ao crescente movimento pelo empoderamento feminino, que busca a igualdade de gênero, que promove uma nova educação de pessoas que não se discriminem nem se oprimam em razão do sexo biológico. As escolas de princesas são um retrocesso, representam a manutenção do lugar social feminino como sendo passivo e submisso, regrado pelas regras patriarcais, sem autonomia sobre a própria vida. O argumento dessas escolas é de ensinar as meninas a serem “damas”, a  se “darem ao respeito”, serem filhas e estudantes obedientes e valorizarem os “bons e velhos costumes”, assim como etiquetas de comportamentos tradicionais. Ou seja, reforça rótulos e atitudes de Barbie, de Cinderela, de princesa obediente às imposições machistas, às tradições sociais. Enquanto o empoderamento feminino e a educação não sexista visa romper com tudo isso, pois cordialidade, gentileza e respeito com os outros e valorização de si é um ensinamento necessário aos meninos e às meninas, não precisa de etiqueta à mesa, nem saber “sentar como mocinha” ou não falar palavrão, nem de num mundo cor de rosa, nem de escola para ser princesa. Afinal, não queremos princesas, queremos bruxas, queremos meninas que pensem por si, sejam poderosas, tomem  o poder para si. Queremos meninas gentis e corajosas, assim como meninos gentis e corajoso!

Se for para se inspirar em princesas, que sejam essas:

Da esquerda para direita, as personagens da Princesa Merida do filme Valente de 2012, Elsa do filme Frozen de 2014 que junto a Anna sua irmã contam uma aventura de samor e superação entre elas e Hua Mulan, a guerreira do filme de animação da Disney de 1998 que salva o reino de seu pai indo a luta. O ideal seria que os super-heróis também se tornassem referências múltiplas de uma masculinidade corajosa que também exerce o cuidado sensível com os outros, como talvez o ogro Sherek, o que não se encontra muito no estímulo da educação para meninos.

Imagem acima: coleção Antiprincesas da escritora Nadia Fink, que exalta figuras femininas fortes da história como a artista mexicana Frida Kahlo, a folclorista chilena Violeta Parra e Juana Azurduy, militar das lutas pela independência da América espanhola. Literatura que inspira meninas e meninos a reconhecerem mulheres guerreiras e latinas, arte e cultura sobre o feminino que também pode ser forte e corajoso, uma obra antiprincesas tradicionais que remetem a fragilidade e  passividade.

Os cordéis biográficos de Jarid Arraes, que contam a história de diversas mulheres brasileiras em coleções que somam 50 títulos. Referências alternativas da mídia massiva que mostram mulheres fortes e questões sociais que desconstroem o sexismo. Leituras para crianças e adultos que destacam a cultura nacional através dessas mulheres talentosas que geralmente são marginalizadas pela história.

Por fim, uma anedota contada por Lola Aronovich, que retrata um pouco da masculinidade frágil, do medo de uma cultura machista e heteronormativa e da essência de uma educação não sexista simplificada pela criança:
Um menino de 6 anos estava brincando de boneca, dando de papa e vestindo ela, em uma escola que trabalha com igualdade de gênero ao misturar os setores de brinquedos permitindo uma educação não sexista nesse sentido, em que meninos e meninas podem brincar de tudo. Então, o pai do menino chega para buscá-lo e fica escandalizado com a cena e fala exaltado: “o que é isso, virou gay agora, é?”. O filho responde no auge de sua inteligência e inocente sabedoria: “Não, virei pai!”


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