Por Luana Borges

A  Argentina fez uma greve nacional nesta quarta-feira, 19 de outubro devido a organização Ni Una Menos que convocou todas as mulheres do país a paralisarem suas atividades entre 13h e 14h contra a violência de gênero, especificamente em razão do estupro e assassinato de Lúcia Perez, de 16 anos, que foi drogada, violada e empalada na cidade de Mar del Plata, na Argentina. “O crime chocou o mundo e está a reativar a luta contra o homicídio de mulheres”. Somos todas Lucia Perez, todas e todos contra o feminicídio e a cultura mundial do estupro! A luta das mulheres muda o mundo e merece o apoio de todas as pessoas por nenhuma a menos na Argentina, no Brasil, na América Latina ou no mundo.

“Desde o crime, pelo menos outras três mulheres foram assassinadas na Argentina.(…) O Supremo Tribunal de Justiça da Argentina registou 235 homicídios de mulheres em 2015, em média um a cada 36 horas. Nos últimos tempos, multiplicam-se as manifestações contra o feminicídio pelas principais cidades do país, sob o lema “Ni una menos“. – fonte: observador

No Brasil não é diferente, ainda vivemos intensamente a cultura do estupro, que muitos não a compreendem mas a vivem diariamente, pois está na intenção de estuprar, mas também nos “elogios” e fiu-fius na rua, no puxão de cabelo e de braço na balada, em todo tipo de assédio moral e físico que homens fazem contra mulheres dentro e fora de casa, pensando o corpo feminino como passível de violação e submissão. E toda pessoa que culpabiliza a vítima de estupro compactua e reforça toda essa cultura negativa. Uma histórica secular de violência de gênero que ocorre majoritariamente do homem para a mulher, por isso a importância da lei do Feminicídio. A cultura do estupro vai muito além do estupro em si, do sexo sem consentimento da mulher, é o desrespeito à vida e às decisões das mulheres. Ainda, essa violência de gênero estende-se a todas as configuração de feminino e diversidade de ser mulher, em níveis diferentes, mas que as atingem apenas por serem ou remeterem ao sexo feminino como é o caso de gays, lésbicas e transsexuais, pessoas que subvertem a normatização machista heterossexual e também se aproximam do que é considerado feminino e por isso sabemos tantas notícias de estupros corretivos e outras violências de transfobia e homofobia.

Estupradores não são monstros

A filosofa alemã Hannah Arendt refletiu sobre a natureza do mal no julgamento de um mal-feitor do nazismo, Adolf Eichmann, burocrata e criminoso preocupado apenas em cumprir ordens. Esse episódio trouxe a melhor dimensão do Holocausto, ela esperava ver um monstro assassino, mas encontrou (somente ela) a banalidade do mal. Um homem comum com pensamento técnico e descompromissado com ética e sensibilidade humana. Banalidade que facilitou sua vida e seu cargo de cumprir ordens. A análise do julgamento por Hannah nos anos 60 foi publicada pelo jornal New Yorker e escandalizou muita gente, em especial a comunidade judaica, que a viram como traidora absolvendo o réu, desculpando a monstruosidade. (fonte: a atualidade brutal de hannah arendt / filme Hannah Arendt – trailer)

O texto de Hannah não foi entendido na época, pois denunciava um mal pior, a desumanização do objeto de violência gerada por um sistema social de atividades monstruosas a partir de homens banais. Para justificar atitudes irracionais, por vezes inventam-se argumentos racionalizados, então foi melhor inventar um monstro como réu, um ser imaginado que não tortura seus semelhantes (pessoa que também pensa, ama e sofre), pois isso choca os valores herdados ou aprendidos do ser humano socializado. 

O fato derradeiro é que há homens violentos, jagunços e coronéis carrascos, torturadores da ditadura militar, pessoas que claramente consideram a tortura como coisa banal em muitos relatos históricos. Monstros? Assim como estupradores, esses homens não praticaram coisas monstruosas. Na realidade mais cruel, os estupradores não são monstros, são homens reais e suas práticas são resultantes da cultura do estupro, da violência banalizada contra mulheres. O monstruoso mesmo é a naturalidade com que a violência é praticada e “aceita” ou esquecida por toda sociedade. 

Essa violência tem raiz histórica profunda e uma cultura que naturaliza o abuso verbal, físico, sexual ou emocional contra as mulheres. Para Nikelen Witter o termo ”cultura do estupro” ganhou notoriedade nos últimos meses nas mídias sociais, “não faltou quem o explicasse, mas também quem não o compreendesse”. Ela ainda cita que “Cultura do Estupro é um conceito cunhado nos anos 1970 pelo feminismo norte-americano (do inglês Rape Culture). Basicamente, apontava a tendência massiva da sociedade em culpar a vítima e tornar ‘natural’ a violência masculina”. – Fonte: O que é a cultura do estupro no Diário de Santa Maria – 

A nossa realidade monstruosa

Devemos conscientizar que homem não nasce violento, tampouco mulher nasce sensível e passiva, são todas construções culturais da nossa educação machista, estereótipos sexistas que refletem as estatísticas como na pesquisa do Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em agosto de 2016 que acendeu o problema mostrando que mais de um terço da população brasileira (33%) considera que a vítima é culpada pelo estupro (…) 42% dos homens e 32% das mulheres entrevistados concordam com a afirmação: “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas” – fonte: agenciabrasil

Outra pesquisa divulgada pela organização internacional de combate à pobreza ActionAid em maio de 2016 mostra que 86% das mulheres brasileiras ouvidas sofreram assédio em público em suas cidades e isso é um problema global, já que na Tailândia também 86% das mulheres entrevistadas, 79% na Índia, e 75% na Inglaterra já vivenciaram o mesmo problema (…) Em relação às formas de assédio sofridas em público pelas brasileiras, o assobio é o mais comum (77%), seguido por olhares insistentes (74%), comentários de cunho sexual (57%) e xingamentos (39%). Metade das brasileiras entrevistadas disseram que já foram seguida nas ruas, 44% tiveram seus corpos tocados, 37% disseram que homens se exibiram para elas e 8% foram estupradas em espaços públicos.  – fonte: ActionAid

Esses dados revelam o silenciamento da violência sexual que está em nosso cotidiano, em pensamentos e comportamentos sexistas, em um cultura midiática que alimenta essa construção cultural machista que hiperssexualizada a figura feminina e torna seu corpo lugar comum/público passível de posse e violação de outros – assista o vídeo 2 minutos para entender – Cultura do Estupro. Tal objetificação do corpo da mulher a coloca em constante insegurança no ambiente público, mas também no privado como notamos na importância da lei do feminicídio que defende mulheres em seus próprios lares dos cônjuges que as violentam caso não cumpram a ordem masculina machista de coerção moral e física. Esse comportamento de violência contra as mulheres acontece das maneiras mais “sutis” as mais intensas quando, por exemplo, há casos de abuso sexual de meninas pelos próprios homens da família. Uma realidade social que pode verdadeiramente ser modificada a partir da (re)educação de todos(as), sobretudo contra o sexismo, para que as meninas não sejam educadas à submissão e ao comportamento impositivo de serem recatadas e passivas. E ainda, principalmente educar os meninos a respeitarem o corpo alheio, principalmente o feminino, entre outras referências e brincadeiras que desenvolvam habilidades sensíveis e motoras iguais entre os sexos e promovam o respeito e cooperação entre todo tipo de diferença. 

Cultura do estupro, ela existe! Vamos mudar isso e educar diferente nossas crianças, nos reeducar também em pensamentos e comportamentos, além de conversar sobre isso  abertamente com amigos e parentes > 2 minutos para entender – Cultura do Estupro.


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