Por Luana Borges

A campanha de Dia dos Pais da marca Dove celebra os verdadeiros heróis com o slogan “os homens mais fortes são aqueles que cuidam”. Os homens e pais que além da vaidade de cuidar de si cultivam o cuidado com as pessoas que os cercam.

dove men

Temos visto muitos exemplos midiáticos celebrando um novo tipo de herói, uma nova educação familiar para nossa sociedade, fomentando uma nova (e melhor) versão de homem e pai: o homem comum, cuja força vem da capacidade de cuidar como trouxe a Dove. Atitudes que podem ser cotidianas, mas com efeito positivo na vida de outras pessoas, como uma revolução no autoconhecimento desses homens e na relação com as mulheres também, por uma educação não mais sexista. Há algum tempo conheci a campanha da ONU Brasil de 2016 pela igualdade de gênero O Valente Não é Violento, uma ação que percebi totalmente válida por chamar os homens para o debate sobre violência contra a mulher e destacar justamente a desconstrução da figura masculina como “naturalmente e necessariamente violenta”. Trazendo assim, a sensibilidade que deve ser despertada nos homens valentes, em vez da violência, praticar integralmente o respeito que deve existir entre os sexos, que por isso precisa incomodar a consciência de ambos, não apenas denunciar e punir, mas também educar uma nova conduta social que dilua o sexismo, fonte do machismo secular estabelecido. Conforme algumas críticas femininas, talvez ainda não seja a maneira ideal propagar ideias contra o sexismo e a violência às mulheres, mas é importante considerar e valorizar as questões de gênero que levantam tais iniciativas em níveis nacionais e internacionais em um ambiente tão influenciador de uma cultura como a mídia. Algo semelhante também é realizado com o polêmico #HeForShe e com a linda homenagem do Boticário ao dia dos pais 2016 que aposta na diversidade das relações, apesar de mostrar exemplos de brincadeiras sexistas tradicionalmente conhecidas como “de menina”.

o valente não é violento

A nova campanha Dove Men+Care se inspirou nas histórias de homens que são verdadeiros heróis do dia-a-dia, além de mostrar a reação feliz de diversos homens ao receberem a notícia que serão pais, outras versões da propagada para TV têm imagens de situações reais em que mais do que a força física, os homens demonstram cuidado em pequenas ações que representam grandes gestos, desde unir os amigos para desatolar um carro da lama, até tatuar na cabeça a imagem de um implante coclear, em apoio à filha que passou a escutar graças ao aparelho. A capacidade de se importar e cuidar dos outros é a definição de força masculina nos dias de hoje, reflexo de uma educação não sexista que se amplia em ideais vistos produtivamente na mídia como nas campanhas já citadas e ainda, como a homenagem da GNT ao Dia dos Pais desse ano. Esta mostra a propaganda Pai é pai!, que provoca a reflexão do quanto ainda temos que evoluir no compartilhamento de tarefas domésticas entre os sexos para que a frase “pai é pai” tenha o mesmo peso que “mãe é mãe”, ou seja, debater e praticar a mudança da maior participação dos pais no cotidiano dos(as) filhos(as). Pais que brinquem mais com seus filhos e filhas de boneca/de cuidar, além de jogar futebol e vídeo game, pois essas são referências que refletem habilidades práticas e emocionais na vida adulta das novas gerações.

 Assista Pai é pai!

O Dia dos Pais desse ano traz a ideia da masculinidade sensível, um homem que para ser completo deve desenvolver a sensibilidade, qualidade que é culturalmente reclusa no estereótipo comportamental feminino, mas que não é exclusiva e tampouco nata, apenas fruto de uma educação sexista e limitante a ambos os sexos. Tais iniciativas midiáticas promovem um olhar sensível ao cuidado com as outras pessoas, de maneira igualmente responsável e engajada como uma mãe geralmente faz, aquela mulher que é valorizada como única na vida de seus(suas) filhos(as), afinal “mãe é mãe”. E o bordão não é para menos, a maternidade e a feminilidade são estigmas das mulheres há muito tempo, tidas como pessoas que cuidam muito de si, mas principalmente da prole, com a maior destreza, com aquele talento que “só nasce com ela”. A educação não sexista é justamente transpor tais padrões naturalizados ao que é culturalmente imposto a homens e mulheres e proporcionar diversas potencialidades a todos(as). Na realidade em que vivemos em maioria, a mulher se torna o centro da tarefa de cuidar da família e por essa disparidade a sobrecarregada, pois afinal há o resto de sua vida também que, muitas vezes, é abdicado para manter o cuidado 100% com seus(suas) filhos(as). Então, e se o homem tiver um maior desenvolvimento de sensibilidade e pensamento emocional e a mulher de força e racionalidade?! Temos então, um processo de autoconhecimento em busca de equilíbrio, de uma convivência familiar e social mais saudável. É isso que a educação não sexista busca ao rever padrões na infância e adolescência e também como podemos ver nas campanhas citadas, na mudança de comportamentos na vida adulta, enxergando a maternidade e a paternidade com iguais importâncias e funções, que devem caminhar se desenvolvendo juntas no aprendizado e cuidado com a família. Dessa forma, novas gerações vêm por aí, de igualdade de gênero, com mais respeito e confiança entre os sexos, com novas referências do que é ser herói e heroína, que buscam escalar pai e mãe com equivalência na habilidade com o lar e com a família, com o cuidar!

Há algum tempo a Dove tem se posicionado por um publicidade que incentiva mulheres a valorizarem e amarem suas belezas naturais, uma quebra nos padrões estéticos opressivos como a ditadura da magreza da mídia e da moda. E, agora as palmas vão para a campanha de dia dos pais 2016 que traz o slogan “Os homens mais fortes são aqueles que cuidam!”, desconstruindo o estereótipo de masculinidade viril e forte que não é “feita para cuidar”, que “não é/ não pode ser sensível” o suficiente para isso. Esse pensamento sexista está em nossa educação machista que atribui às mães tais capacidades de cuidar dos filhos e ser emocional, algo tido como “natural” e melhor executado por mulheres em razão do “instinto maternal” que todas teriam. Então, a Dove vem para somar na luta contra esse sexismo cultural, a fim de provocar novas reflexões e educações que desenvolvam capacidades diversas em homens e mulheres, assim criando também a consciência de funções compartilhadas com iguais responsabilidades na família.

Ao mesmo que a campanha ainda recorra a ideia de homem e força destacando o estigma sexista de que “homem de verdade” deve ser forte, também desmistifica a ideia de uma masculinidade que não pode exaltar sua vaidade e sensibilidade, incentiva os homens a cuidar mais de si e mostram que os super heróis na realidade são os homens que cuidam de si e dos outros a sua volta, pais que cuidam absolutamente de seus filhos, remetendo a uma maior aceitação e respeito pelos demais. Sensibilidade que é negada na visão sexista de um homem másculo, que discrimina o feminino como algo positivo e complementador em sua vida. Combater tais comportamentos excludentes é importante também para desconstruir a origem misogina do machismo e da homofobia. A gerente de marketing de Dove Men+Care, Aline Okada, explica que “o filme representa de maneira genuína como o cuidado torna o homem mais forte. Heróis reais como os mostrados na campanha estão por toda parte e merecem ser celebrados”.

Com essas observações gostaria de reforçar a importância do compromisso de todos e todas por uma nova educação, novas gerações de famílias e relacionamentos sociais de gênero. Uma nova cultura que se livre da Educação para o Machismo citada por Marcia Tiburi:

“Ensina-se a um menino que ele tem o “direito” de olhar para o corpo de uma garota sem respeito, enquanto se ensina às meninas a terem vergonha de seu corpo e a se sentirem culpadas, mas também a aceitarem o preconceito sem questionar, coisa que elas não estão mais querendo. Ensina-se a elas que estariam sempre “provocando” o seu próprio algoz. Provocando o seu ofensor. Cinismo maior, impossível. E elas já perceberam isso. É a este cinismo estrutural na cultura, levado a cabo pela instituição escolar que devemos chamar de Educação para o machismo.” 

Desconstruímos com isso, a naturalização de que mulheres são frágeis e instintivamente maternais e homens violentos e libidinosos como animais que procriam e largam seus filhotes com a mãe. Criamos uma nova educação para proporcionar iguais potencialidades para pais e mães, esposas e maridos, em um núcleo familiar que não se ouça mais dos homens “mas eu ajudo em casa”, como em grande parte dos lares brasileiros. Ninguém merece um prêmio por fazer sua obrigação, nem precisa ter título supervalorizado de paizão enquanto não faz a metade do que faz a mãezona sempre presente. Sobre isso encontrei um texto instigante escrito por um homem (autor desconhecido) se dirigindo ao seu amigo que achava demais lavar a louça sem ao menos ganhar um elogio ou agradecimento da própria mulher, se intitula PORQUE HOMENS NÃO DEVERIAM “AJUDAR” EM CASA:

“Eu não ajudo a minha mulher a limpar a casa porque eu também vivo aqui e é necessário que eu também limpe. Eu não ajudo a minha mulher a cozinhar porque eu também quero comer e é necessário que eu também cozinhe. Eu não ajudo a minha mulher a lavar os pratos depois da refeição porque eu também usei esses pratos. Eu não ajudo a minha mulher com os filhos porque eles também são meus filhos e a minha função é ser pai. Eu não ajudo a minha mulher a estender ou a dobrar a roupa, porque também é roupa minha e dos meus filhos. Eu não sou uma ajuda em casa, sou parte da casa. Talvez você se tenha habituado a que tudo isto seja feito sem que você tenha de mexer um dedo? Então elogia-a como você queria ser elogiado, da mesma forma, com a mesma intensidade. Dá uma mão, se comporte como um verdadeiro companheiro, não como um hóspede que só vem comer, dormir, tomar banho… Sinta-se em casa. Na sua casa.”

Ou seja, ajudar é péssimo, compartilhar sim é excelente!


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