Por Luana Borges

Sentimento profundo de tristeza e revolta pelo ataque armado a uma boate voltada ao público LGBT, que deixou 50 mortos e outras 53 pessoas feridas na madrugada deste domingo (12) em Orlando na Flórida (EUA). Essa tragédia é resultante, em grande parte, de um país com armamento de livre acesso a população civil em meio a uma cultura homofóbica, a qual se faz presente aqui também. O assassino que fez isso representa o ódio de muitos outros homens comuns por aí, forjados no machismo e na misoginia.

MISOGINIA é a aversão e repulsa a mulheres e a tudo o que é lido socialmente como feminino. Misoginia é a base da homofobia irmã do machismo, pois ambos partem de um pensamento que inferioriza quem é mulher ou sente-se ou se parece como uma. Ou seja, gays sofrem homofobia porque suas identidades e orientações sexuais incomodam a heteronormatividade imposta na lei do patriarcado. Gays são homens que não “cumpriram com o papel de machão” heterossexual que o machismo esperava, e afeminados ou não representam a quebra do padrão heteroafetivo/sexual, não obedecendo ao machismo que então também irá os subjugar como faz com toda condição feminina, opressão moral e física sofrida por mulheres de maneira semelhante seja nos EUA, no Brasil ou no Japão. Diante dessa cultura basilar de ódio e coisificação do ser feminino (visto como passível de violação e submissão) devemos afrontar, desobedecer, desconstruir pensamentos antigos de educações sexistas e machistas, repensar nossos (pré)conceitos diariamente, em círculos de amizades, de colegas e de familiares, pois esse ódio naturalizado entre as relações de gênero acaba chegando em todas as esferas sociais. Vivemos em sociedade o que implica em viver coletivamente, em uma visão sempre relacional, em relações de poderes, que se revelam violentas quando há poderes coercivos que são abusivos sobre o outro indivíduo. Por isso, é importante lembrar, não é preciso ser uma mulher, negra(o) , gay, lésbica ou transgênera(o) para lutar contra as violências discriminativas que essas categorias sociais sofrem. A união nesse sentido é de empatia em prol de uma luta conjunta para derrubar a misoginia instituída e naturalizada em nossas relações sociais, como a da homofobia que matou 50 pessoas no ataque de Orlando.

Misoginia é a condição/leitura de mulher como inferior em que percebemos claramente quando alguém é zoado(a) por se aproximar de estigmas ligados ao feminino ( que desconsidera todas configurações de ser mulher que existem), é chamado pejorativamente de “mulherzinha”, diminutivo que ofende em significado desproporcional ao adjetivo “homenzinho”. Misoginia é a explicação quando uma mulher é criticada por diversas razões com os xingamentos clichês como vaca, vadia, puta, cachorra(…) que julgam somente a condição de ser mulher. Para o misógino, ser mulher é estar em condição de descrédito e constante submissão, causas do feminicídio e da cultura do estupro que vivemos atualmente.

Nossa tradicional educação sexista concretiza a misoginia e o machismo, limitando o sexo feminino e  masculino a estereótipos de personalidades e capacidades binários. Entretanto, o binarismo está no sexo em que se nasce, não nas personalidades, nos comportamentos, tampouco nas potencialidades físicas e psíquicas humanas. Mentalidade desruptiva que devemos  espalhar na velha concepção de que homem é! (ou deve ser) másculo, viril, destemido, forte (naturalmente agressivo) e digno do espaço público, enquanto  as mulheres são frágeis, delicadas, maternas, passivas e feitas para o espaço privado. Todas essas são fortes construções culturais, estigmas associados as condições biológicas que cada um nasce através de comportamentos induzidos como o universo azul e rosa que conhecemos bem. E cultura muda, é dinâmica, portanto isso tudo pode e deve ser reinventado buscando a igualdade de >direitos< entre os gêneros, principalmente o respeito a diversidade como na comunidade LGBT. Estamos em um p r o c e s s o (necessário) de revisão de valores morais rançosos, precisamos despertar para isso.

Vivemos imersos em imposições sexistas que restringem apenas dois mundos possíveis para homens e mulheres. Precisamos transbordar isso, respirar além dessas amarras. Há muito tempo feministas vem quebrando tais rótulos sexistas que sustentam a cultura machista, mas é uma luta constante contra limitações que ainda são ensinadas na escola, na religião e na educação familiar, reforçadas por muitas pessoas que compactuam firmemente com o machismo, por pessoas que não questionam tais padrões e também por pessoas que sempre buscam desconstruir o machismo, mas se continuarmos assim engajados(as) em criarmos  gerações com pensamentos de igualdade e respeito ao próximo, estaremos num caminho político e social de não violência e não discriminação sobre condições diversas de gênero, etnia, classe,etc. Por isso, a importância de enxergar as diferenças e problematizá-las, pensar nas suas consequências cruéis em sociedade, perceber os próprios preconceitos e repensá-los, questionar o termo “ideologia de gênero” dito por um fundamentalismo religioso que exclui a diversidade que existe e resiste. E ainda, exercitar o autoconhecimento reconhecendo os moralismos enraizados em nós e respeitar o que é “estranho” a nossa realidade, somando as diferenças como riquezas culturais e humanas e não sentindo repulsa por elas. Respeitar a diversidade é promover a igualdade e a cidadania!

Foto: campanha da UFSM, Universidade Federal de Santa Maria no RS, para este Dia dos(das) Namorados(as). Um dia feliz as pessoas apaixonadas, mas um dia de reflexão a todos(as) com a tragédia de Orlando,  porque o amor é lindo apenas quando há respeito, quando não há relacionamento abusivo e nem há ódio ou estranhamento pela maneira que os outros amam. Consideramos justa e respeitável toda forma de amor, espalhar e defender essa ideia é a grandeza em vi(ver) em sociedade.


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