Por Luana Borges

Gênero FluidoGênero Fluído ou Queer são novos conceitos que ajudam a entender as identidades de gênero e orientações sexuais para além do binarismo homem-mulher. Estudos de gênero são essenciais a diversas áreas de conhecimento, inclusive ao feminismo que luta por igualdade de gênero. Mas afinal, nem todo mundo entende ao que se refere gênero, certo?!

Nos últimos tempos muitas pessoas começaram a ouvir falar mais sobre feminismo, enquanto muitas ainda nunca ouviram falar e outras tantas já estão há muito tempo multiplicando esse conhecimento na luta feminista, um movimento que se renova através de novas mulheres feministas e homens pró-feministas e da união de todos(as). E, não significa que mulheres que não se declaram feministas ou não conhecem o feminismo não conquistam autonomia sobre a própria vida em um pensamento (e atitude) empoderado, como há justificativas desse tipo para deslegitimar a luta feminista. E, essa luta é pela igualdade de direitos entre a diversidade de gênero em um movimento social e político, portanto diverso, o que acaba criando vertentes (liberal, interseccional, radical, partidária) que, muitas vezes, não conversam e produzem imagens pejorativas do feminismo. Somente tempo, estudos e conversas conseguirão transmitir com maior clareza e coerência os feminismoS e suas lutas, a da mulher em diferentes configurações de gênero, estéticas, étnicas, religiosas e classe econômica, em diferentes realidades e culturas.

Então, igualdade entre direito de gênero envolve todas essas e outras configurações de mulheres, e numa visão relacional, consequentemente todas as configurações de homens que existem. Lembrando que gênero não é sinônimo de sexo, é justamente o conceito que rompe o binarismo. Daí a importância de entender gênero! Isso contraria a ideia religiosa fundamentalista da tradicional família brasileira composta por homem e mulher como se fosse as únicas possibilidades de gênero perante “Deus” e os olhos de seus filhos(as) que falam por ele de maneira conveniente e moralista, com discriminação totalmente questionável. Ideia reflexo de um conservadorismo que por meio da religião e da educação sexista em que vivemos nos traz a mente os termos “mulheres” e “homens” como algo já pré-definido. Pois, basta estudar do que se trata gênero ou apenas ter empatia pela diversidade social e humana para perceber que o sexo biológico de uma pessoa não é logicamente relacionado ao sua personalidade mais feminina ou mais masculina, tampouco condiciona suas orientação sexual. Nada é óbvio em questões de gênero e sexualidade, o que exige um pensamento empático, aberto à compreensão de realidades distintas da nossa, se incomodar com os conceitos tradicionais impostos como naturais, ao invés de se acomodar como muita gente conservadora e intolerante. Não aceitar tacitamente a “ordem” cultural que, muitas vezes, reproduzimos.

Ora, os estudos de gênero propõem exatamente essa reflexão complexa e necessária, que absolutamente deve ter espaço nos estudos feministas, políticos, sociológicos, psicológicos, biológicos, históricos, entre outros. Essa importância é grifada pela historiadora Joana Maria Pedro (2011, p. 270):

“Já sabemos quanto o feminismo, o movimento de mulheres e o de gays e lésbicas têm contribuído para que as reflexões sobre gênero sejam implementadas de forma interdisciplinar. O campo historiográfico, entretanto, tem sido um dos mais resistentes. A acusação de ser uma “história militante”, portanto, não “científica”, continua a assombrar, mesmo quando há muito já se abandonou a certeza da neutralidade. É ainda interessante refletir como, da mesma forma, outras categorias como ‘classe’, ‘raça/etnia’, ‘geração’ também são tributárias de movimentos sociais e, obviamente, ligadas a contextos específicos; no entanto, não parecem sofrer a mesma ‘desconfiança’ e desqualificação. Considero, com Reinhart Koselleck, que as categorias de análise têm história e, inspirada em Roger Chartier, que elas são apropriadas por historiadoras e historiadores e instrumentalizadas pelos movimentos sociais”.

Joana Maria Pedro trata das relações de gênero como categoria transversal de análise que enriquece a escrita da história, se tornando uma perspectiva essencial no entendimento da história da humanidade, que ganhou peso e clareza ao acessarmos a história das mulheres nas últimas décadas, que ao longo dos séculos (pouco) foi contada majoritariamente por homens. Isso é reforçado quando Joana Mara Pedro (2011, p. 277) cita a função dos estudos de gênero que vem “incluindo as categorias ‘mulher’, ‘mulheres’, ‘feminismo’, ‘feminilidades’, ‘masculinidades’ e ‘relações de gênero’, têm buscado se colocar no centro do debate historiográfico, tentando fazer com que essas categorias se tornem comuns para quem pesquisa nesse campo. Ao mesmo tempo, como quaisquer outras, essas mesmas categorias vivem as instabilidades dos sentidos que lhes são atribuídos, resultado de lutas dentro do próprio campo. Encontra-se, ainda, portanto, nas margens do saber historiográfico. E, talvez por isso mesmo, busca novas maneiras de pensar essas margens, deslocando o centro, inventando novos percursos”. Novos caminhos para construir uma história mais legítima e representativa a todos(as), para cutucar aqueles(as) acadêmicos(as) que consideram estudos de gênero perfumaria e para tornar acessível tal conhecimento a pessoas comuns de todas esferas sociais.

Por isso, quando o feminismo diz que luta por igualdade de gênero é tão difícil compreender a luta, pois a maioria das pessoas não sabe ao que se refere gênero. Gênero como categoria ampla de identidades e sexualidades humanas em que, segundo a filosofa Judith Butler, a linguagem cria a performatividade que se aproxima ao sexo, ao gênero e ao corpo. E, sobreposto a isso há construção arbitrária de sentidos sociais, o que gera a confusão no entendimento dessa performance de gênero. Mas, Butler (2002, p.108). não nega a matéria dos corpos ou sua origem biológica e enfatiza o discurso linguístico como expressão social de “fatos” tidos como verdade convencionadas, sobretudo quanto ao gênero em que segundo ela: “Deve haver a possibilidade de admitir e afirmar uma série de ‘materialidades’ que correspondem ao corpo, a série de significações que assinalam as esferas da biologia, da anatomia, da fisiologia (…) nenhuma delas pode ser negada. Porém o caráter inegável destas ‘materialidades’ de modo algum implica o quê significa afirmá-la, em realidade, que matrizes interpretativas condicionam, permitem e limitam essa afirmação necessária”.

Com isso, Butler reconhece o construtivisto sobre essa materialidade interpretada convenientemente e destaca as normas sociais repetidas por gerações como motivo da consolidação do que é sexo, o que recai em determinismo, sendo “bem” aproveitado pelo fundamentalismo religioso para definir conceitos de homem e mulher e fomentar a ideologia de gênero, algo totalmente diferente de identidade de gênero que é a real inclusão de ensino nas escolas sobre respeito entre os gêneros. Segundo Butler (2002, p. 18) essa concepção performativa da materialidade deve ser entendida “não como um ‘ato’ singular e deliberado, senão antes como a prática reiterativa e referencial mediante a qual o discurso produz os efeitos que nomeia”. Por isso, os nomes que temos para definir homem e mulher não dizem muito sobre o que realmente são, são estereótipos culturais, mas felizmente a cultura é dinâmica e evoluímos ao questionar o caráter hegemônico de tais materialidades discursivas em sociedade. E Butler faz exatamente isso, questiona o que é ser homem e o que é ser mulher, explicando que gênero não pode ser afirmado a partir do corpo e do sexo, sem antes ponderar a construção artificial sobre isso em sociedade. Ou seja, o sexo não é uma ficção linguística que podemos abolir, pois mesmo sendo simbolicamente construído ainda é um fator de referência em nossa inteligibilidade e regulação cultural, mas deve ser avaliado por todos seus aspectos legítimos.

A epistemologia do corpo tem total atenção nesse entendimento, pois através da fala o corpo torna-se inteligível e regulável, passível de legitimação e normatização. Por essa razão há diversos protestos e manifestações que usam o corpo como ato político. Os atos de fala impõe limites arbitrários aos contornos corporais e seus comportamentos possíveis. Assim, para a filósofa, o gênero é aprisionado ao sexo do corpo e referido por repetição de fala, gestos e símbolos na cultura, o que fortalece as percepções binárias dos corpos masculinos e femininos como vivenciamos atualmente. Precisamos rever essas noções de gênero como atos intencionais e performativos como pensa Butler, que devemos desnaturalizar para resolver problemas de gênero que causam tantos conflitos a cerca do outro e seu “estranho” universo sexual e identitário. Novamente é necessário o exercício de empatia para entendermos que o estranho ou diferente a nós é legítimo e deve ser respeitado e ter igualmente os direitos resguardados.

Como mudar esses pré-conceitos tão rígidos em nossa educação? Tendo uma postura contestadora e subversiva aos velhos conceitos, a performatividade é um exemplo disso, como fazem as pessoas não-binárias que contrariam uma das normas de gênero que impõe  a existência  de pessoas  exclusivamente mulheres ou homens. Mesmo que elas sintam-se assim, não contestem os padrões apenas porque querem, contrapor o binarismo é sempre uma maneira de abranger democraticamente todos os gêneros como através da roupa ou da linguagem, quando recriamos a estrutura binária compulsória de gêneros entre “ele e ela” e nada mais. Desse modo, extinguindo simbolicamente as “roupas de homem e roupas de mulher”, também podemos incentivar as crianças que não existem “roupas ou brinquedos de menina e de meninos” mostrando um universo de potencialidades a ser explorado. E, essa educação não sexista não “torna uma pessoa gay”, medo de muitos pais e mães, enquanto a real preocupação deveria ser “e se for gay?”, não vai depender da vontade da família e vai precisar de respeito e compreensão. Além disso, o sexo definido pela linguagem, por exemplo no português que é extremamente binário, passamos a usar PresidentA, xs convidadxs, a todxs, amigx a fim de incluir todos os gêneros, não pressupondo que a pessoa é “ele ou ela” e sente-se representado(a) por certo gênero linguístico.

Da mesma forma, pessoas trans subvertem essa ordem compulsória entre sexo, gênero e desejo, que segundo Butler gera uma falsa noção de estabilidade ligada a matriz heterossexual e ‘cis’normativa. Nesse contexto, cis (do latim “ao lado de” ou “no mesmo lado de”) é a concordância entre a identidade de gênero e o sexo biológico do indivíduo e seu comportamento considerado “socialmente aceito” para o papel convencionado a esse sexo. E, trans (do latim “além de” ou “através”) significa quando não há na pessoa a identidade de gênero relacionada a forma genital e hormonal que nasceu.

Fonte da imagem: Transexualidade no forum-ag.com

Por meio dessas reflexões sobre gênero questionamos não apenas as identidades “homem” e “mulher”, como o próprio sentido do verbo “ser”. Afinal, pré-definir que alguém “é” isso ou aquilo conforme os modelos tradicionais não tem representatividade alguma, por isso é tão importante deixarmos os sujeitos expressarem quem são e romper o status quo normatizante do único correto/moral jeito de ser, selecionando deliberadamente quem anormal e quem é normal.  Precisamos dessa emancipação em um cenário social democrático com visão holística do sujeito mulher no feminismo, bem como do gênero na compreensão humana num processo dialético, que crie conversa e empatia entre tdxs.

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