Por Luana Borges

Hegemonia masculina na política e na heteronormatividade social, aliada à religião intolerante que busca governar a vida de todos(as). Precisamos estar atentos(as) e questionar esses homens de “bem”, “bons pais e bons maridos” da “tradicional” família brasileira.

 

O Senado brasileiro tem presença majoritária de homens, assim como na maioria da participação política no país, representatividade desigual entre parlamentares com apenas 9% de deputadas e 13% de senadoras. Essa representação democrática está abaixo dos padrões internacionais em que a média é de 22% de mulheres em cargos políticos. O Brasil está atrás inclusive do Oriente Médio e da meta mundial que busca o estímulo de maior participação de mulher na política. Mas, a realidade atual do Congresso Nacional está mudando (devagar) devido à conscientização e motivação de muitas mulheres em concorrer a cargos políticos e conquistar direitos legislativos em prol das mulheres. Ver a primeira mulher a assumir a presidência da república por Dilma Rousseff, também fortaleceu a motivação popular feminina em buscar poderes em toda e qualquer área de trabalho que almejem. Salvo mais um governo de corrupções sobrepostas, segue a inspiração de lideranças políticas precursoras no mundo, por mulheres e negrxs. Mas, essa ascensão de poderes que desestabiliza a hegemonia branca, heterossexual e masculina nos altos cargos da carreira política ainda sofrem imensa resistência pelo conservadorismo, que clama pelos valores da “família tradicional brasileira” em suas formas questionáveis de governar.

Nessa defesa conservadora estão os bons pais e bons maridos do Congresso Nacional brasileiro, por exemplo. Homens de “bem” que prezam pelo valor da família tradicional composta apenas por homem, mulher e seus filhos, ambos ainda, com Jesus no coração abençoando seus lares. Então, somam-se algumas relações de poderes como a masculina, a religiosa e a heteronormativa, uma tríade realmente poderosa há séculos, em que na atualidade encontramos perfis como Eduardo Cunha, Jair Bolsonaro, Silas Malafaia e Marco Feliciano. Figuras públicas que, infelizmente, não requerem apresentações de tão conhecidas como cidadãos que perpetram a sociedade sob a égide do machismo, do patriarcalismo, na qual sempre reservou ao homem ocupar o espaço público e a mulher, o privado e de preferência fora da política – lugar social que governa e decide grande parte do destino da nação.

Esse contexto social em que vivemos estabelece relações de poder díspares, em que a força equalizadora de poderes sustenta-se no argumento de que não existe, conforme Foucault (2012, p. 10) “algo unitário e global chamado poder, mas unicamente formas díspares, heterogêneas, em constante transformação. O poder não é um objeto natural, uma coisa; é uma prática social e, como tal, constituída historicamente”. Então, sendo o poder algo que é intransponível e pertencente a todo indivíduo, cabe reconhecê-lo e literalmente empoderar-se, no caso das mulheres diante da cultura machista é a maneira mais genuína de lutar contra todo tipo de sexismo que reforça o machismo, entre outras discriminações opressoras. Quem toma o poder para si ascende novas possibilidades de poderes sociais, o que também impulsiona outras pessoas do mesmo grupo minoritário de gênero, classe ou etnia a se espelharem e motivarem para tal mudança individual que afeta diretamente o coletivo, formando novo imaginário social, transformando a cultura e as relações de poderes. Um empoderamento ressonante, esse é o objetivo maior do feminismo, por exemplo, que é um movimento criado em torno da força feminina e desejo de uma sociedade mais igualitária entre a diversidade de gênero, ampliando a noção de gênero para todas as configurações de homem e mulher da imanência humana.

Há muitas mulheres que nunca ouviram falar de feminismo e se tornaram empoderadas na história, rompendo padrões autoritários do patriarcalismo, insubmissas e revolucionárias para a categoria de gênero pertencente. O feminismo serviu como fonte de poder social que organiza esse espírito questionador a fim de reunir a diversidade de lutas femininas reivindicando pontos em comum e reconhecendo com empatia necessidades distintas. Assim, o feminismo anda de mãos dadas com o empoderamento e forma um grande escudo de resistência ao que há de culturalmente pré-estabelecido, imposto como natural pelos poderes masculinos hegemônicos, para enfim exercer o poder que é direito de cada pessoa, refazendo a ideia limitante de “papeis de gênero”.  O pesadelo de Cunha e sua turma.

Isso implica desconstruir a autoridade de uma ciência falogocêntrica, de uma midiatização sexista que exalta a masculinidade opressora de macho alfa ou “homem de verdade”, de religiões que ao invés de religar as pessoas acaba, muitas vezes, excluindo quem não compartilha da mesma crença. Nessa discriminação machista religiosa há um forte moralismo instituído a cerca de conceitos sobre bem e mal, certo e errado, nada abrangente à diversidade cultural humana, mas isso se torna uma conduta normativa entre homens no poder políticos brasileiro atualmente, em que encontramos os homens de família de “bem”, “bons pais e maridos” que adoram seu Deus como se fosse o único e verdadeiro, acolhendo apenas quem compactua dos mesmos valores que os seus, subjetividade excludente e intolerante que exerce poder de influência massivo na sociedade, infelizmente.

Imagem: campanha da marca Old Spice com o ator Malvino Salvador resgata o conceito de “homem Homem” com “selo de qualidade” Cabra-Macho.

Visto isso, a cidadania que deveria ser garantida através do livre exercício da fé, com respeito a dignidade de toda e qualquer diversidade, fica ao critério truculento desses homens de “bem”. Esse tipo de religião que impõe deveres sociais e políticos a todos os cidadãos e cidadãs indiscriminadamente é fruto de uma percepção danosa a categoria ampla de gênero. Isso é melhor explicado em uma citação de Maria das Dores Campos Machado e um coletivo de autorxs que comentam sobre a homossexualidade na visão de igrejas cristãs do Rio de Janeiro, o que recai a misoginia igualmente exercida pelo toda configuração de feminino encontrado teoricamente em mulheres e homens homossexuais e identidades transgêneras. Tais percepções dessas igrejas seguiram alguns eixos:

“opção/tendência, patologia física, distúrbios mentais, problemas familiares, possessão e pecado e, de modo geral, ‘os líderes religiosos dialogam com os discursos das áreas médicas e da Psicologia no processo de recomposição de suas crenças e valores’, havendo uma “articulação da perspectiva naturalista com a visão essencialista e dual de gênero em todas as configurações confessionais’ ainda que existam ‘reações diferenciadas dos atores religiosos às transformações em curso na sociedade, com novos discursos sobre as subjetividades dos sujeitos sociais.’ Para xs autorxs, ‘os grupos com maior dificuldade em aceitar a diversidade sexual são justamente aqueles que mantêm uma visão tradicional da inserção de homens e mulheres na sociedade e no âmbito religioso” (M. MACHADO; F. PICCOLO; L. P. ZUCCO; J. P. S. NETO, 2011, p. 101-103).

Essa suposta condenação bíblica à homossexualidade ocorre pelo pensamento machista do papel social e sexual reservado aos homens como ativo e público e às mulheres como passivo e privado, especialmente no caso da prática do “papel sexual passivo”, apropriado ou determinado apenas para as mulheres.

As observações destxs autorxs demonstraram o que Eduardo Maranhão Fo. (2014, 2015abc) nomeou de teologia cishet/psi/spi com fundo punitivo e discriminatório de diferentes formas, inclusive após a morte, quando o destino supostamente é o inferno.  Essas concepções teológicas e também sexuais/generificadas/políticas, conforme Maranhão se caracterizam por discursos que naturalizam a cis/hetero normatividade e se valem de concepções psiquiatrizantes / patologizantes e espiritualizantes, o que o autor também chama de pecadologização referindo-se a “um tipo de discurso que visa normalizar/normatizar, descrever/prescrever dados comportamentos humanos como sendo pecados, desrespeitosos ou afrontosos a Deus. Tal classificação/rotulação se dá, muitas vezes, de modo análogo ao processo de patologização , daí a inspiração deste termo para pensar naquele.” (MARANHÃO, Eduardo M. de A. Fo, 2015)

Diante desse caráter religioso que impõe uma dicotomia moral, em que pessoas LGBT são relacionadas à manifestações demoníacas concerne intolerância religiosa e também de gênero. Esse é o contexto legitimado pelos “bons pais e bons maridos” do Congresso Nacional, que tornaram pejorativo o termo ideologia de gênero, a fim de excluir toda conduta moral e comportamental que estiver fora de seus padrões sociais heteronormativos. Um ideal fortalecedor da “tradicional família brasileira”, aquela que é totalmente binária e machista, historicamente opressiva às mulheres, que atualmente se mostra ainda, reforçada por altos cargos da política e por preceitos religiosos intolerantes. Oremos(!)

O conceito de masculinidade hegemônica visto aqui como estrutura basilar do patriarcalismo, tem sido abordado em vários campos acadêmicos e atraído um grande criticismo. A masculinidade hegemônica passou a ser entendida como a dominação dos homens sobre as mulheres, mas que talvez uma minoria de homens a adote, apesar de ser normativa para vida de ambos os sexos e a diversidade de gênero. Ela dita, segundo Conell e Messerschmidt (2013, p. 245) a “forma mais honrada em ser um homem, ela exige que todos os outros homens se posicionem em relação a ela e legitima ideologicamente a subordinação global das mulheres aos homens. O conceito de masculinidade hegemônica é mais abstrato do que descritivo”. Assim, o conceito de masculinidade é criticado por ter sido alocado na heteronormatividade de gênero que essencializa a diferença macho-fêmea e ignora a multiplicidade das construções sociais, as quais comprovam a identidade nada fixa da masculinidade, encontrada muitas vezes em corpos femininos e masculinos, formando diferentes traços de personalidades dos indivíduos humanos.  Masculinidades são práticas e não identidades, são jogos de poder dinâmicos e mutáveis.

A hegemonia masculina, portanto, é um conjunto de práticas sociais entre relações de gênero, reproduzidas por homens e mulheres, o que acaba legitimando o patriarcado, o que garante a contínua subordinação das mulheres pelos homens, é o machismo passado adiante por gerações. Por isso, faz-se necessária uma compreensão relacional de gêneros, com análise em todos os níveis e tempos das relações mulher-homem, mulher-mulher, homem-homem, constituindo os campos de forças sociais. Ainda, é preciso resignificar esse contexto de dominação masculina, pois conforme Conell e Messerschmidt (2013) o termo hegemonia aqui não designa a masculinidade da maioria dos homens, e sim aquela soberana na sociedade e que precisa diferenciar a noção de dominação que não usa necessariamente a força bruta, mas uma hegemonia que depende efetivamente do consenso e participação dos grupos subalternos. É o poder que os subordinados dão aos autoritários, e podem reverter a realidade opressora por meio do poder reconhecido em si, como o empoderamento feminino faz ao afrontar e desconstruir o machismo patriarcal.

E, acredito que não exista homem de verdade e mulher de verdade, até porque a noção de verdade é uma conclusão em aberto, geralmente relativa e parcial. Mas, há pessoas verdadeiras quando buscam viver de maneira autêntica e exigem respeito por si e por todas as diferenças. A intersubjetividade que envolve reconhecer no outro ser humano a própria semelhança é um exercício de alteridade não muito fácil, mas importante de praticar em sociedade.


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