Por Luana Borges

Sobre o debate incrível nessa sexta 8 de abril na UFSC: “FEMINISMOS E DIREITO AO CORPO” promovido pelo movimento Se a UFSC Fosse Nossa, com questões de gênero:

“…o machismo nas universidades tem suscitado a criação de inúmeras iniciativas feministas. Não era por menos: a estrutura universitária, além de encobrir as várias formas de opressão e assédio que as mulheres sofrem, inviabiliza em seus currículos as lutas e a produção acadêmica femininas.”

As convidadas ilustres:

  • Lola Aronovich, autora do blog Escreva Lola Escreva e professora universitária.
  • Lígia Moreira Sena, criadora da Cientista Que Virou Mãe, primeira plataforma produzida apenas por mulheres mães brasileiras.
  • Vitória de Macedo Buzzi, advogada, escritora do livro Pornografia de Vingança.
  • Angela Medeiros, militante negra e estudante de psicologia na UFSC.

fotos palestrantes

    Lola Aronovich             Lígia Sena             Vitória Buzzi           Angela Medeiros

A convidada Lígia iniciou a fala sobre violência obstétrica e os desafios da maioria das mulheres ao se tornar gestante/mãe no Brasil. As inúmeras opiniões impostas a essas mulheres como se fosse um “corpo de todo mundo”, que deve seguir os preceitos morais dos outros e abdicar da própria vida, muitas vezes ainda, sem apoio das instituições cm políticas em prol de gestantes e com a ausência do pai ou falta de igual responsabilidade  ao cuidar do filho(a), o que rende dupla e tripla jornada de trabalho as mulheres.

A violação do direito ao corpo das mães e suas escolhas também foram ditas em relação ao assédio moral que muitas sofrem nas universidades pelos professores(as) orientadores(as), algo que necessita denúncia e resistência/resposta. Por isso, a importância do empoderamento e consciência dessas mulheres, aliás, de todas mesmo que não sejam ou nunca venham a serem mães. É um direito como indivíduo social e humano, respeito à maternidade, símbolo de força e feminilidade, que também é cárcere para a vida de muitas mulheres. Algumas violências e violações são naturalizadas na cultura machista em que vivemos e as mulheres continuam tendo seus poderes oprimidos diante da maternidade nessas circunstâncias que se somam negativamente.

Outa questão abordada foram as práticas médicas violentas no tratamento das mães, principalmente no parto em que as mães têm suas decisões induzidas/limitadas. Foram citadas também, as cesáreas de vingança, quando a mãe demonstra maior conhecimento sobre sua condição e possibilidades e o médico disputa saberes com a paciente impondo a cesárea no último momento. Isso também por essa técnica ter se tornado um negócio vantajoso a área médica, algo que deslegitimou o ofício das parteiras antigamente, valor hoje resgatado pelas Doulas.

Outro exemplo disso citado pela convidada Angela e por uma participante surda da plateia as laqueaduras sem consentimento, uma prática de genocídio entre negras e surdas que foi combatida pela ONU. E, paradoxalmente, enquanto isso muitas mulheres, mesmo em situação de risco social e de miséria são impedidas pela lei brasileira de realizar a laqueadura até os 25 anos e se não houver consentimento do cônjuge.

Angela também falou do corpo das mulheres negras, visto historicamente, desde a escravidão, como um objeto passível de violação, parte da cultura do estupro em que vivemos ainda que, aliás, trata todo corpo feminino dessa maneira, como exemplo dessa tortura moral estão as propagandas e clipes musicais que apelam a hipersexualização dos corpo femininos e nas delegacias de polícia em que é recorrente a culpabilização da vítima em casos de estupro. Isso ilustra de alguma maneira, por que Angela afirmou que após seus dois primeiros filhos, teve uma filha e então começou a atentar mais sobre o feminismo, pois sentiu medo por imaginar o futuro desafiador de sua filha, simplesmente por ser mulher. Devemos criar nossos filhos e filhas para desconstruir o sexismo, ensinando os meninos e respeitar os corpos e escolhas das meninas (e de todos os gêneros) e não perpetuar o machismo que as ensina a se preservarem. Assim, como disse Lígia, criaremos uma nova forma de nascer no mundo, bem como uma nova geração igualitária entre os gêneros e melhor para todas as configurações de mulheres.

 A partir do estereótipo da Globeleza, citado por Angela, amplificamos a conotação pejorativa no imaginário social exportada ao resto do mundo, de que mulher negra seria mais quente para o sexo, assim como mais forte em casos de tortura de partos sem anestesia. Elas reforçaram com isso, a importância da sororidade entre os feminismos negro e branco, realidades femininas diversas que precisam se unir e se estendem como uma participante da plateia comentou sobre ao luta das mulheres árabes, das indígenas, das africanas e das latinas que pouco estudamos e buscamos entender.

Para além disso, Lola falou sobre o movimento incoerente de masculinismos e anti-feminismos que existem como falsa simetria para combater o feminismo, querendo destacar a defesa de pensamentos retrógrados e desiguais entre os gêneros. O feminismo como Lola disse, é um movimento social e político de 150 anos que não será derrubado por essas forças e pela bancada religiosa no governo brasileiro que busca enfraquecer/regredir os direitos feministas conquistados com a atual repulsa à ideologia de gênero, uma estratégia perfeita para eles, pois uniu a comunidade LBGT e todas as mulheres para serem ainda mais oprimidos(as) e fragilizados(as) como sujeitos sociais. Isso legitima a necessidade de nos unir com o feminismo e dizer não ao golpe. Mas, o feminismo é maior e cada vez cresce mais o entendimento do porquê precisamos do feminismo a fim de promover a igualdade de direitos entre os gêneros, em que homens e mulheres devem utar juntos, mesmo resguardando o protagonismo às mulheres, pois ninguém se beneficia do machismo, como disse Lola. Feminismo é resistência, como descreveu Vitória, por isso faz sentido para as mulheres que precisam ter empatia e se unir para serem mais fortes, mesmo não sendo militantes, se aproximando do movimento podem ter argumentos e explicações para muitos sentimentos comuns de medo, insegurança e indignação pela repressão de gênero que vivenciamos, assim tendo como e com quem lutar contra isso e mudar a nossa história e de nossos filhos(as).

A convidada Vitória falou sobre seu livro Pornografia de Vingança destacando os diversos casos que há pouco tempo eram motivo de grande audiência na mídia, o revende pornô, em que são divulgadas por homens fotos e vídeos íntimos de mulheres na internet, destruindo a reputação e a vida (literalmente) de muitas mulheres. Em sua pesquisa Vitória questionou por que apenas mulheres são alvos dessa violência, seria porque mulheres mandam mais nudes pela internet? Obviamente não, estudos comprovam que homens são os que mais se expõe na rede e a explicação para esses casos consecutivos de violência às mulheres está no diferente significado da exposição da vida sexual e da nudez para homens e mulheres. Culturalmente o machismo educa mulheres a se preservarem e homens a serem públicos em todos s sentidos, por isso não há humilhação de viralização de nudes masculinos como na pornografia de vingança.

Outra constatação é que isso ocorre em relações amorosas, onde há confiança no parceiro ao produzir fotos ou vídeos íntimos, os quais se tornam armas de vingança quando a mulher termina o relacionamento ou há traição ou a mulher fica com todos os bens materiais do homem. Pois, dentre as subjetividades desses casos sempre há uma relação de poder ressentida, em que o homem se vê perdendo o poder imaginado sobre a mulher, então se vinga, visto que os meninos/homens crescem com privilégios de poder de gênero, acreditando que são dominantes e muitas vezes não aceitam submissões ou rejeições de mulheres, o gênero que imaginam ter de servi-los.

Por fim, a paráfrase de uma anedota contada por Lola:

Um menino de 6 anos estava brincando de boneca, dando de papa e vestindo ela, em uma escola que trabalha com igualdade de gênero ao misturar os setores de brinquedos permitindo uma educação não sexista nesse sentido, em que meninos e meninas podem brincar de tudo. Então, o pai do menino chega para busca-lo e fica escandalizado com a cena e fala “o que é isso, virou gay agora, é?” O filho responde no auge de sua inteligência e inocente sabedoria: “Não, virei pai!”


Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *