Por Luana Borges

Música pop também pode ser ato político contra o racismo 

Formation é o novo videoclipe da cantora Beyoncé, dirigido por ela conta a história de luta dos negros nos Estados Unidos e também foi motivo de orgulho e representatividade a todos os negros. Formation foi lançado durante o Super Bowl 2016 e causou polêmica pelo ousado tom de protesto, o que escandalizou conservadores racistas americanos e defensores da polícia, que criaram até campanha de boicote à diva com a hashtag ‪#‎BoycottBeyonce, imagina. Esses não enxergam o racismo como motivo das mortes de negros pobres nos Estados Unidos. O fãs de Beyoncé aprovaram o afronta e comemoraram o anúncio da turnê “The Formation World Tour”, em que Beyoncé viajará a América do Norte e Europa a partir do dia 27 de abril.

Ela arrasou novamente e finalmente se posicionou diante de questões sociais tão presentes, fez de sua música um ato político, uma resposta aos ataques racistas sofridos pela cantora e por todos os negros. Desde a época da escravidão, até as violências policiais contra negros atualmente foram temas do clipe gravado em Nova Orleans no sul do dos Estados Unidos. O lugar nos lembra como os sulistas são racistas, última região a abolir a escravidão dos negros americanos, apresenta diversos casos de violência policial a pessoas negras, grupos extremistas como o Ku Klux Klan, segregação racial e incontáveis mortes do povo negro.

beyonce super bowl

O videoclipe Formation

A primeira frase da canção é “O que aconteceu depois de Nova Orleans?” , lembrando a voz de Messya Mya, famoso vlogger negro e LGBT de Nova Orleans que foi morto em 2010 enquanto saía do chá de bebê da namorada, em circunstâncias desconhecidas até hoje. O estilo de filmagem amadora de alguns momentos também lembra mais marco de violência nos EUA quando um taxista negro foi torturado por policiais brancos em 1991 em Los Angeles e teve todo o ato registrado por um cinegrafista amador. Num estacionamento Beyoncé e suas dançarinas interpretam a coreografia do refrão: “Eu destruo (gíria “slay”, que também pode significar “eu mato”). Okay, meninas, agora vamos entrar em formação. Eu destruo”. Os cenários do clipe remontam ao século XIX ela canta “Meu pai é Alabama, mamãe Louisiana. Você mistura o Negro com o Creole e faz uma Texas ‘bamma’ (gíria sulista para ‘cafona’)”.

Imagem acima: a “Rainha” aparece de preto (referência às práticas de bruxaria ou vodu no sul americano) mostrando o dedo do meio e dizendo “quando ele transa bem comigo, eu levo ele para o Red Lobster”,  ou então deixa ele dar uma volta no seu “helicóptero”, ou ainda permite que a música dele toque no rádio. E diz que você e ela “podem ser um Bill Gates negro em formação”. 

Imagem acima: Policiais levantam as mãos para um menino, “rendem-se” e em seguida surge um muro pichado com a frase “Parem de atirar em nós!”, um grito de todos os negros contra a violência policial e uma referência ao movimento Black Lives Matter  (a vida dos negros importa), criada na internet em 2013 por ativistas negros após a morte do jovem Travyon Martin, baleado por um vigilante na Flórida.

Na cena de uma missa batista frequentada por muitos negros mostra um jornal estampando o ativista Martin Luther King na capa e o título “A Verdade” em destaque. No clipe há somente atores negros, exceto os policiais, notamos negros em casas grandes e fazendas de Louisiana com vestimentas poderosas do período colonial, inclusive um grupo de mulheres negras vestidas como madames brancas. A ironia é que nesse período dos EUA os negros eram humilhados, violentados, escravizados e jamais poderiam utilizar a mesma roupa que os senhores brancos.  

Durante todo o clipe, Beyoncé aparece sobre uma viatura policial de Nova Orleans que está em um lago, cena gravada na cidade, o que remete ao furacão Katrina que destruiu Nova Orleans e uma parte do sul dos EUA, em 2005, associado à referência de violência policial que a população negra local sofre. Ao final do vídeo, Beyoncé afunda na água junto à viatura policial e talvez a imagem mais emblemática do clipe, pois simboliza a aproximação da realidade negra, pois no Brasil e no mundo é possível perceber “corpos negros” afundados pelo racismo.

Blue Ivy e seu cabelo black power, símbolo do orgulho e empoderamento negro na infância.

Então, surge a filha de Beyoncé, Blue Ivy, com seu cabelo black poderosa, enquanto a mãe canta: “Eu gosto do cabelo do meu bebê, com cabelo de bebê e afros.” Em 2015 a filha de Beyoncé e Jay-Z, Blue Ivy recebeu críticas pelo seu cabelo black power, um homem chegou a criar uma petição absurda para Beyoncé pentear o cabelo de sua filha. Na época, a cantora respondeu que não mudaria o cabelo de sua filha, com orgulho de seus traços negros reforçados também no single Formation.

A cena no corredor da casa na fazenda com roupas de época Beyoncé canta a valorização da estética negra: “Gosto do meu nariz negro com narinas de Jackson 5″, referindo-se ao grupo Jackson 5 com Michael Jackson quando jovem. E, as dançarinas negras com roupas iguais e cabelos black power a acompanham durante todo o clipe, insurgentes e incrivelmente glamourosas

Beyoncé e suas dançarinas durante o Super Bowl fazendo o símbolo de igualdade racial com o punho fechado para o alto.

Dançarinas de Beyoncé nos remetem com seus figurinos com roupa de couro e boinas a representantes do Partido dos Panteras Negras  que esse ano comemora seu 50º aniversário de fundação.

Empatia e história do racismo

Não sou negra, nunca vou ser, mas assim como outras questões sociais tenho empatia e gosto de entender a realidade que é estranha a mim e, muitas vezes distante também. Algo que me fez muito sentido nesse contexto, foi a leitura sobre a obra Sobrados e Mocambos (SM) de Gilberto Freyre lançado em 1936, com tema central o declínio do regime escravocrata brasileiro. O autor traz a ideia da “superação” do racismo dos negros por conquista individual e não por luta coletiva dos mesmos, seria essa uma grande peculiaridade brasileira.

Então, em SM Freyre percebeu que a saída do negro da condição subalterna se daria via conquista individual (a história do negro de alma branca) ao contrário dos Estados Unidos em que numa condição de apartheid tiveram que se unir em movimentos pró-direitos civis como o liderado por Martin Luther King. Talvez por exaltar essa possibilidade de crescimento dos estratos intermediários, muitos culpam Freyre de haver criado o mito da democracia racial (uma igualdade das raças), embora Freyre nunca tenha mencionado esta frase.

Porém, faltou Freyre ponderar que o princípio da igualdade política e jurídica não é meramente inscrito a uma esfera específica da sociedade e que igualdade, infelizmente, não é um mero ‘direito’ que pode ser compensado por valores e práticas de assimilação e integração. Igualdade é o valor básico da modernidade ocidental, sinônimo de dignidade e reconhecimento individual em primeira instância. A possibilidade de premiar o desempenho individual e traçar hierarquias alternativas e independentes da igualdade político-jurídica, existe, mas em discussões atuais relativizam-se muitos aspectos históricos e culturais, ignora-se a permanência do racismo ao seguir a lógica liberal de meritocracia individualgrande erro de Gilberto Freyre e seus seguidores.

Apesar da análise social original, Freyre não percebe o ocultamento do racismo no Brasil que se deu com proximidade ao contrário da norte-americana que ocorreu com base no distanciamento, o que causou esta invisibilidade ao racismo. Por exemplo, no Brasil a superação individual do racismo se estende a difícil aceitação das cotas nas Universidades Federais, entre outros casos, mesmo tendo direito não se inscrevem enquanto cotistas étnico-raciais, buscando o sucesso acadêmico individualmente (“tornar-se mais um branco”), e não coletivamente.

Nos Estados Unidos a superação coletiva do racismo na história, assim como na África do Sul também, além de os negros se unirem e conseguirem lutar mais pelos seus direitos, as cotas raciais não tem o mesmo repúdio. Há diferença entre o estigma brasileiro e o orgulho estadunidense gerado talvez devido as diferenças de escravidão entre os países.  Ter vergonha da própria condição é um atraso para o grupo de pertencimento social em que estamos, seja por gênero, cor de pele, religião ou classe social. O povo negro brasileiro foi conduzido por uma cultura que, muitas vezes, tenta se afastar dessa origem e “embranquecer” para ser aceito na sociedade moderna. Isso faz compreender perfeitamente o motivo de Sueli Carneiro, fundadora do Geledes, afirmar que precisamos “enegrecer” o feminismo, um exemplo de disparidade racial também percebida nesse movimento que acaba enfrentando diferentes lutas, vivências plurais em uma corrente unificada de mulheres que precisa de empatia e sororidade para manter-se fortalecida.

Gilberto Freyre foi ajustando em suas obras as complexas relações entre a cultura brasileira e a europeia e destacou o par tutela-dependência. Isso inclui antagonismos do patriarcado tropical – entre português, índio e negro, senhor e escravo, pai e filho, homem e mulher, tradição e modernidade, nacional-estrangeiro.  Lógica de dominação cultural no modelo analítico freyreano que ainda persiste em muitos prismas atuais no mundo, relações de poder que devem ser equalizadas, democratizadas e conversadas ou protestadas, como fez Beyoncé em Formation. Lutas históricas que se fortalecem, para incomodar o conservadorismo que acredita não haver mais “tanto” racismo, nem machismo, mas sobretudo para despertar o valor de uma raça, de uma gênero e a resistência que cada um deve ter em nome dos direitos civis, da própria liberdade e dignidade.


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