Por Luana Borges

Silvio, corretor de imóveis indo trabalhar na sua empresa em um sábado pela manhã, um homem mais velho, transmitia tranquilidade e seriedade. Rafaela e seu companheiro na direção e o filho deles no colo dela, ambos os dois indo para a UFSC em uma Kombi sem bancos atrás onde fui sentada com muito equilíbrio e puxando assunto com o casal simpático. Me disseram que o “pessoal da UFSC sempre dá carona”, confirmei isso nesse caso, estudantes talvez sejam mais empáticos e cooperativos?!

Marla, uma mulher mais velha, nativa da Ilha, a caminho de sua dança de flamenco no sábado de manhã, contou que em breve iria se apresentar com a  turma e estava ansiosa, precisaria treinar mais. Foi a única mulher sozinha que parou para oferecer carona, infelizmente ouvi que isso é comum, “mulheres não dão carona”. Acho triste, mas diante do que vivi compreendo a expressão generalista, talvez porque mulheres acostumaram-se a estar sempre se protegendo em uma sociedade machista opressiva e violenta.

Lucas, um garoto aparentemente bem jovem, Cozinheiro de um restaurante e casa de eventos, seu dedo estava com um curativo branco. Questionei sobre o que havia acontecido, então soube do corte com a faca enquanto trabalhava.

Bruno parou de moto para perguntar o que estava escrito em na minha placa (única vez que levantei uma placa), expliquei que significava TILAG, Terminal da Lagoa, então ele disse que me dava carona mas não tinha capacete, perguntou se havia fiscalização no trajeto e se eu me importava, eu disse que era tranquilo e fomos, era jogo rápido. Ele veio de Itajaí/SC para passear no sábado de manhã, estava conhecendo a Ilha.

Silvam, o meu vizinho da frente, enquanto aguardava no ponto de ônibus na frente da casa dele percebi ele estacionando e correndo de volta para casa como se tivesse esquecido algo importante, quando retornou ao carro o abordei e ganhei uma carona. Francês com sotaque ainda bem presente ele está há 8 anos no Brasil, trabalha com tecnologia, não pensa em mudar-se tão cedo, adora morar na Ilha, mas ainda deseja retornar  para sua terra natal em uma cidade no oeste francês.

Pedro, natural de SP, em um Peugeot com o vidro lateral dianteiro colado com com fitas adesivas, perguntou a mim até onde iria, estava disposto a me deixar no destino final. Mas, seu trabalho não era o mesmo caminho meu, fiquei no terminal de ônibus como de costume.

Áureo e Mafalda, casal de idosos simpático, naturais da Ilha. Eles perguntaram a mim o que fazia, disse que vim para fazer prova de mestrado na UFSC e que havia sido aprovada, estudaria relações de poder, gêneros e subjetividades na História. Então conversamos rapidamente em tom de concordância sobre como está difícil viver em sociedade, sobre tolerância e respeito que andam em falta.

Nathan, natural de SP, representante de uma ração de cachorro, está há 3 anos na Ilha e gostando bastante, trabalha fazendo visitas e reuniões. Inácio, com um chimarrão no pé do caroneiro, tive que perguntar se ele era gaúcho, falou que era uruguaio e tinha muitos amigos gaúchos, ele estava indo trabalhar.

Rodrigo com a filha Catarina atrás na cadeirinha, minha tia sentou-se na frente ao lado dele e eu me acomodei em meio a bagunça de brinquedos no banco traseiro ao lado da criança conversando sobre a tapioca que ela estava comendo e tentando decifrar seu dialeto infantil de aproximadamente 3 anos de idade. Loirinha de cabelo cacheado e boa de papo, o pai muito tranquilo e gentil.

Thiago, nasceu em Brasília e já morou em em muitas cidades do Brasil, é bio construtor, marceneiro e contou que trabalha pela preservação da Mata Atlântica. Havia uma prancha de surf entre os bancos do carro, então, contei que estava aprendendo a surfar e adorando, ele me parabenizou e também contou que nos próximos dias aquela prancha iria surfar no Rio de Janeiro e na Bahia. Agradeci a carona e desejei boa viagem, além de muito surf.

Erivaldo, um senhor simpático de cabelos totalmente grisalhos. Ao dizer meu nome ele comentou que conhece muitas Luanas, então concordei que realmente é um pouco comum, mesmo não conhecendo muitas outras. Disse que o nome dele era mais criativo, perguntei quem o escolheu, foi sua irmã mais velha, era para ser Antônio, porém sua mãe perdeu um filho antes dele com o mesmo nome e não quis repetir, triste ainda para escolher outro nome delegou a primogênita. Contei que meu nome era para ter sido Manoela, mas minha mãe enjoou nos últimos momentos antes do nascimento, então veio a ideia de Luana, ainda bem.

Foto acima: Aline Campbell em sua viagem pela Europa sem dinheiro, dependendo de caronas e da boa vontade dos outros. Um história inspiradora que rendeu o livro Portas Abertas. Recomendo!

Há 1 mês morando numa cidade nova, a Ilha de Florianópolis/SC, já peguei várias caronas com amigos e desconhecidos. Um lugar que reserva muitos encantos naturais, mas também o trânsito caótico de cidade grande, clima praiano misturado com urbano, que no verão superlota de forasteiros e “vira do avesso”. Muito já ouvi sobre a vida na Ilha e vou vivenciando muito dessas referências ou pelo menos percebendo o entorno, sentindo a famigerada “Ilha da Magia”. Moro num bairro tranquilo e quando me atraso recorro ao dedão estendido à rua, depois de muitas pessoas ignorarem, sempre alguém encosta para dar carona. Aliás, algumas vezes pararam na primeira tentativa e apenas uma vez após diversas tentativas peguei o bus que acabou aparecendo novamente.

Esses momentos me provocaram reflexões de que abrir a porta do próprio carro para um estranho(a) não é para qualquer um. Dar carona é um ato de bondade gratuita, daqueles favores que não se quer algo em troca. Pedir e oferecer carona deveria ser mais natural, mas diante da insegurança que assistimos e vivenciamos acreditamos em muitos motivos para não o fazer em certos lugares ou horários e até mesmo em razão da aparência do outro. Dizem que caroneiros são corajosos, talvez quem nunca pegou uma carona que seja medroso. O receio é compreensível, vale desconfiar com inteligência e em alguns casos recusar a carona, autoproteção. É bom manter esse sensor alerta atrelado à vontade de confiar na generosidade do próximo, de que o estranho a nós pode ser bom.

Encontrei pessoas que nunca vi na vida e tive conversas rápidas devido ao trajeto curto que sempre peço carona, mas que me interessavam por estarem abertas a essa troca, a quem eu desejava bom dia e muito obrigada sabendo que provavelmente nunca mais veria novamente. Sensação de leveza e sorte ao fim de cada “corrida amiga”, pois ainda existe gente disposta a boas ações. Fique esperto(a), porém acredite na generosidade humana, ela está a nossa volta ainda tão presente quanto todo o resto. As notícias do cotidiano, a mídia e muitos fatos próximos nos fazem pensar sempre no pior, na maldade e na má sorte. Poderíamos encarar isso como prevenção para nos alertar e proteger, o ruim é que associado a tais informações vem o medo imposto que nos impede de falar com estranhos mesmo quando adultos, de vi(ver) mais.

cooperação parece estar em alta e para isso é preciso confiar, muito grupos e aplicativos de caronas foram criados nos últimos tempos, pessoas desmistificando o perigo de ir de carona com estranhos, ainda economizando tempo e dinheiro. Longe da inocência, fé num universo que conspira para o bem, essa foi a reflexão a partir de tantas caronas que peguei nesse breve período. Vá de carona nessa reflexão! 😉 :*


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