Por Luana Borges

O quanto você – mulher – é feminina?
O quanto um homem pode ser feminino?
O que é mesmo feminilidade?

Arte de Panmela Castro

Como substantivo feminino na gramática, feminilidade pode significar:
  1. qualidade ou caráter de mulher; atitude feminina; feminidade.
  2. o conjunto das mulheres
  3. Característica, particularidade ou estado particular da mulher; comportamento feminino; feminidade.
  4. Designação do sexo feminino.

    Em um sentido pejorativo no português ainda demonstra que a palavra feminilidade denota a maneira de agir com futilidade ou frivolidade. Já o antônimo – a masculinidade –  é dita como característica ou particularidade do que é masculino; qualidade da pessoa que apresenta um comportamento másculo; virilidade. E, o sinônimo de masculinidade seria a virilidade, segundo o dicionário.

    Ora, então feminilidade = futilidade e masculinidade = virilidade?

    Feminilidade submissa ao ritual/convenção cultural enraizada, ditada pela mídia, pela moda, pela família, fonte de um machismo inquestionável reproduzido por muitas mulheres e fortalecido pela comodidade de muitos homens serem masculinos.

    É, até mesmo no português impera uma cultura machista sobre a representação do feminino. Vemos essa ideia discriminativa também na homofobia, prima irmã do machismo, com o mesmo fundamento misógino, de repúdio/ódio e inferioridade a tudo que é feminino, ao que pode lembrar mulheres. Mas, eis a grande questão a ser refletida, o feminino está em muitas pessoas, homens e mulheres, e independentes da orientação sexual também. É extremamente limitante pensar que apenas mulheres vaidosas são femininas, assim é fácil exilar a feminilidade numa bolha de frivolidades, envolto por comportamentos em torno de estéticas corporais, moda e consumismo. Homens também têm vaidade desse tipo, nem por isso são rotulados de fúteis. Não seria mais justo pensar em pessoas fúteis/superficiais?! Acredito em energias ou pensamentos femininos e masculinos que compõem a personalidade das pessoas e isso acaba gerando estereótipos, mas não dizem muito sobre caráter e inteligência de alguém. Por isso, é urgente repensar a feminilidade como equivalência de fragilidade, submissão e futilidade, assim como reavaliar virilidade como sinônimo de masculinidade, agressividade, força e insensibilidade. Tampouco devemos segregar masculino e feminino como fatores sexuais que culturalmente designa o homem como testosterona de libido incontrolável e mulher como dona de hormônios mais controláveis, o que permite muita libertinagem naturalizadas para eles e punida para elas.

    Enfim, o mais importante nesse contexto ainda é lembrar que nem toda mulher é representante de feminilidade e nem todo homem transpira masculinidade. Nada é tão óbvio assim, talvez em razão disso exista tanto preconceito e violência de gêneros, pela não aceitação de que um homem pode ser mais delicado e cuidadoso que uma mulher, mesmo sendo heterossexual e que uma mulher pode ser mais masculinizada do que alguns homens, sendo pouco vaidosa, forte fisicamente e muitas vezes sem “espírito materno” algum, o estigma da feminilidade e da maternidade que andam de mãos dadas. Pois, natural é isso, a diversidade de cada um ser autêntico. Um reflexão necessária para que ninguém tenha receio de ser como realmente é, sem vergonha, nem medo de se mostrar.

     

    Fotos acima: Performance de Panmela Castro (des)constrói nela mesma tudo que acredita torná-la feminina aparentemente. Literalmente ela desfaz os rótulos ambulantes de feminilidade do próprio corpo em um mesmo momento (cabelo comprido, batom e vestido rosa dão espaço a cabeça raspada e  terno e camisa), transformando-se em um “imagético masculino”. Arte que traduz a realidade, em que é relevante ampliar as opções de pensares sobre as subjetividades implícitas nas configurações de ser alguém feminino ou masculino. Ainda, ela tatua no evento a maçã símbolo de sua exposição EVA de 2015, que deixa claro o empoderamento feminino e uma mensagem central de: homem ou mulher, o que importa é o que ainda julgamos a feminilidade e masculinidade pelas aparências e caixinhas prontas e apertadas, moldadas pelo machismo que oprime ambos os sexos em padrões comportamentais. 

    Meninos delicados, muitas vezes, são acusados de serem gays, assim como situações em que alguém demonstra fraqueza ou medo é alcunhado de gay ou mulherzinha, como se fosse um criminoso, inválido e desajustado no meio social. Pois, essa é a ideia misógina que inferioriza a representatividade do imaginário social de “ser mulher”, diretamente associada à feminilidade, o que na verdade é apenas uma parte na construção cultural e pessoal que é ser mulher. Muitos gays são versões femininas em corpos masculinos, os “gays afeminados”, assim como lésbicas podem ser a representação do masculino em corpos femininos, mas isso não é regra, há homossexuais que “não parecem ser”. Ou seja, quando encontramos homens homossexuais que têm uma masculinidade aparente predominante e mulheres com feminilidade aflorada que são lésbicas, perfis e personalidades que talvez sofram menos discriminação de gêneros, pois parecerem coerentes com o sexo biológico que carregam. Isso não precisa ser coerente, algo a ser (re)aprendido para haver uma sociedade mais igualitária e respeitosa em relações de poder entre os gêneros, mitigando o machismo que ainda é base de tal cenário. Portanto, essa complexidade identitária da masculinidade e feminilidade estão mais relacionadas aos comportamentos do que às preferências sexuais, algo que é muito mal interpretado e julgado negativamente, podando a liberdade de mulheres masculinizadas e homens afeminados.

    É importante que sejamos mais, que criemos proximidade do que sentimos ser de verdade, ao invés de seguir padrões tacitamente, os quais trazem sensação de coercivos ou estranhos de manter como um incômodo que questiona: não posso porque sou mulher? Não posso porque sou homem? Estereótipos equivocados de gêneros binários existem porque foram culturalmente criados e socialmente fortalecidos, mas em geral não é saudável, um sexismo naturalizado/ritualizado que devemos repensar desde a educação das crianças, para que sejam equalizados os poderes de quem é mais feminino ou masculino, independente do sexo biológico.

Foto acima: Performance de Ruby Rose em seu clipe causa um escândalo para muitos e uma extrema libertação de normatividades de gêneros sobre o que dizem ser a feminilidade. Ruby simboliza, no mínimo, que a feminilidade não se restringe a ter uma vagina ou cabelo comprido, usar salto alto, vestido e batom vermelho. (Des)constrói paradigmas do gênero feminino e cria uma universo de infinitas possibilidades estéticas e comportamentais para ser autêntica.


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