Por Luana Borges

Foto acima: Mulheres tomam as ruas no RJ contra Eduardo Cunha

Contra o PL 5.069, projeto de lei de autoria de Cunha que restringe o atendimento a vítimas de violência sexual e dificulta o aborto legal, milhares de mulheres saíram em marcha para pedir o afastamento do presidente da Câmara dos Deputados; “

Quando uma mulher aborta ou doa seu filho é chamada de assassina e imoral, mas quando um homem abondona seu filho ninguém comenta e seguem as famílias de mães solteiras com o mundo de julgamentos machistas nas costas. Ou seja, a responsabilidade pela vida das crianças que nascem recai exclusivamente sobre a mãe, sua educação e conduta moral por toda vida também é associada à mãe, de maneira que vemos xingamento às mães quando alguém é mau caráter. Pois as mães são apenas uma parte componente do meio social que constrói as referências de uma criança, que ao se tornar adulto tem a educação influenciada pela tradição familiar, pela escola, pelos amigos, pela mídia e pelas próprias vivências e personalidade. Esse tipo de fardo materno é tão pesado que poda a liberdade das mulheres, eximi os homens de culpa pelo que acontece com a prole e também os invalida como seres capazes de amar e criar os próprios filhos com igual responsabilidade. E a preocupação em odiar mulheres – misoginia (ódio às mulheres) – é tanta que um homem quando estupra um bebê, uma criança ou uma mulher adulta, a violência é vista como “apenas sexo” e muitas vezes a lei atenua a pena desses, enquanto o aborto é punido como uma atitude imoral e criminosa, digna de vergonhosa. 

Quantas religiões ainda mandam nos corpos das mulheres no mundo? É uma questão forte nos protestos, a reivindicação por um Estado laico, livre de preceitos religiosos para orientar decisões públicas. Qual é a ética ao definir  leis de convivência, direitos e deveres do povo a partir de condutas e ideológicas particulares como as de uma religião?! Religião, que em essência serve para unir as pessoas e confortar anseios humanos. Algo tão pessoal não pode mensurar o que é justo para o coletivo que é tão diverso. A visão do particular para o todo nunca  foi a lógica mais coerente e assertiva, e não vai ser agora com a bancada evangélica em grande número no comando do legislativo brasileiro. Ou teremos de nos contentar com os ensinamentos da Bíblia  em que Deus manda, “As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor…. Como, porém, a Igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido” (Efésios 5:22,24).  (???) Esse Senhor está ultrapassado, minha fé está na Senhora razão e força feminista que luta para descriminalizar o aborto e dar voz e poder às mulheres, pois nem religião , nem Estado mandarão em nossas vidas.

Um governo que se guiar dentro de uma laicidade garante o respeito e a dignidade às diferentes religiões que existem, bem como aos ateus e à diversidade étnica de um país de imigrantes como o Brasil. Além disso, é uma pretensão muito machista das igrejas ainda acreditarem que têm poder sobre o corpo das mulheres e seus comportamentos. A imoralidade e o mito andam de mãos dadas, são convenções culturais criadas por atores sociais principalmente pela religião, que em muitas igrejas determinam regras morais em relação ao comportamento feminino. Quando alguém abre a mente a novas ideias e poderes a liberdade alcança altos voos, para longe de correntes limitantes e só continua nessa direção. A revolução feminista não vai cessar, tampouco a evolução social que traz consigo, a igreja evangélica não vai falar por todos cidadãos na Câmara dos Deputados, pois é um retrocesso machista e de intolerância religiosa o que Cunha, Bolsonaro e aliados querem implantar contra a liberdade que nos pertence por direito em sociedade.

A maternidade é considerada por algumas teorias uma conduta ética, no sentido de tornar homens e mulheres maternos, como seres que aprender a cuidar do outro, se preocupar com o espaço alheio e assim determinar um melhor convívio social. E a capacidade de gestar um filho cabe às mulheres, uma qualidade que muitas vezes tem significado moral distorcido, como se fosse uma obrigação de toda pessoa que nasce com sexo biológico feminino ter o “instinto” maternal, já sabendo cuidar e educar melhor um criança do que um homem. Ledo engano de uma consciência machista que permeia nossas relações de gênero. E, uma das mudanças que fortaleceu o ativismo público feminista também foi a nova concepção materna para o distanciamento da naturalização ao histórico das mulheres, a fim de reavaliar o senso comum social em que, segundo Banditer (2002, p. 15),

os defensores do amor materno “imutável quanto ao fundo” são evidentemente os que postulam a existência de uma natureza humana que só se modifica na “superfície”. A cultura não passa de um epifenômeno. Aos seus olhos, a maternidade e o amor que a acompanha estariam inscritos desde toda a eternidade na natureza feminina. Desse ponto de vista, uma mulher é feita para ser mãe, e mais, uma boa mãe. Toda exceção à norma será necessariamente analisada em termos de exceções patológicas. A mãe indiferente é um desafio lançado à natureza, a a-normal por excelência.

Não é só menstruando que a gente sangra

Para romper com esse imaginário sobre o papel de gênero feminino que se realiza como pessoa sendo apenas esposa e mãe, foi preciso desvincular a ideia cultural predominante que, segundo Friedan (1971 p. 17) era persuadida com “a voz da tradição e da sofisticação freudiana diziam que não podia desejar melhor destino do que viver a sua feminilidade”. Tal pensamento é contrariado pela defesa do indivíduo mulher dotado de subjetividades e simbologias, ou seja, a diversidade de qualidades humanas das mulheres não se restringe a ideia equivocada de instintos animais e maternos naturalizados pela sociedade patriarcal. Somando a isso, Badinter (1985, p. 16) categoriza:

Esse ser de desejo é sempre particular e diferente de todos os outros. Que os biólogos me perdoem a audácia, mas sou dos que pensam que o inconsciente da mulher predomina amplamente sobre os seus processos hormonais. Aliás, sabemos que a amamentação no seio e os gritos do recém-nascido estão longe de provocar em todas as mães as mesmas atitudes. 

Com isso, Badinter trata do amor conquistado entre mãe e filhos, o que desmistifica o instinto materno padronizado opressivo a todas mulheres. Nesse contexto, o aborto é uma realidade para diversas mulheres de diferentes classes sociais, credo e cores, muitas já assumiram abortos do passado e dizem não se arrepender, deixando a mensagem de apoio a livre escolha da mulher (fotos abaixo). E a questão não é saber se fulano concorda e se cliclana condena, e sim preservar um direito que as mulheres têm sobre as próprias vidas, o qual deve ser reconhecido pelo Estado, assegurando o fácil acesso a métodos anticoncepcionais e de profilaxia como a pílula do dia seguinte e também o amparo médico e legal para abortos. Isso em casos de estupro e quando de qualquer maneira uma mulher tem uma gravidez indesejada, possibilitando abortos decentes que não coloquem em risco a vida de mulheres, como as que morrem por abortos malfeitos por não terem condição financeira para ir a clínicas particulares.

famosos aborto

Fonte: terra.com

 

“Estou preocupado em ouvir as mulheres. Tenho visto muito mais homens se manifestarem. Infelizmente homem não engravida. Se engravidassem, teriam mudado de posição há muito tempo.”(José Gomes Temporão, Ministro da Saúde) – via

 


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