Por Luana Borges

O feminismo é um movimento social e político, sinônimo de diversidade por ter representantes com narrativas individuais e muita história coletiva de ativismo. É inquieto e só cresce, se fortalece em suas conquistas em prol das mulheres. Cria identificação por vários motivos e também vertentes de lutas, posicionamentos diferentes como todo movimento social. É plural, por isso deve ser compreendido e ter seus mitos desconstruídos, o feminismo é, sobretudo, necessário para uma evolução social. Por isso, feministas são repetitivas, para conscientizar e fortalecer o movimento mundialmente entre homens e mulheres de todas as culturas, algo defendido pela ONU Mulheres, pois a igualdade de gênero está entre os objetivos globais de desenvolvimento humano.  Não há um livro de regras, feminismo é uma discussão, um processo de aprendizado em que cada um confere sentido ao seu. Afinal, a força do feminismo pode se tornar um cobertor quentinho ou uma pedra no sapato, pode ser muitas coisas, menos ignorado!

Feminismo pode ser um véu 

Na minha época da escola e da faculdade não lembro de terem me ensinado sobre feminismo, uma pena. Mas, acredito que cada vez mais o feminismo vem sendo pauta em salas de aula, o ENEM desse ano reflete um avanço nesse sentido, só tenho a curiosidade e esperança que também tenhamos professores(as) feministas, que saibam transmitir esse conhecimento sem limitar pela visão religiosa, política partidária, tradição familiar e do país, pois deve ser ampliado para uma percepção mundial de estruturas sociais. Esse deve ser um conhecimento entregue de mente aberta, (re)construindo a educação da cultura tradicional, para então, cada um criar o sentido à sua própria concepção de feminismo. Gostaria de ter descoberto o véu do feminismo mais cedo, porque às vezes, sinto que é um véu que tiramos dos olhos, uma cegueira social da qual nos libertamos, um despertar sem volta(!). É como conhecer o oceano inteiro e continuar acreditando que só existe mar até a linha no horizonte visto da areia. Porque se trata de conhecer e acreditar pela razão, através de fatos, teorias e realidades vivenciadas por mim e por outras mulheres, de que precisamos do feminismo.

E na verdade, despertar para o feminismo me trouxe nomes para o que já percebia e muitas vezes sentia na pele, opressões, discriminações, injustiças sociais e de gênero. O feminismo traz respostas para entender a raíz disso e como mudar tal realidade. É a isso que mais se propõe o feminismo, empoderar, tomar consciência do poder e direitos que têm as mulheres, visto que, você pode ter sido a vida inteira feminista, mesmo sem conhecer o feminismo. Por enfrentar os nãos que a vida lhe impõe e não se calar às opressões pela sua cor de pele, padrão corporal, gênero ou classe social. Essa é um postura feminista, se você pensa que todos devem empoderar essa voz em prol do respeito e direitos igualitáriosvocê pode se considerar feminista, com orgulho! 🙂 Simples, humano e coerente, por isso concordo que todos nós deveríamos ser feministas – como lembra Chimamanda Ngozi Adichie nesse vídeo maravilhoso. Ela se refere a definição do dicionário, “feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos“, e relata sua definição pessoal, “feminista é um homem ou uma mulher que diz: sim, existe um problema com o gênero como ele é visto hoje e devemos consertá-lo. Devemos fazer melhor”.

Feminismo pode ser uma forma de viver

“O feminismo é uma forma de viver individualmente  e de lutar coletivamente”. – Simone de Beauvoir

A filosofa Beauvoir sempre defendeu que a mulher, como gênero oprimido historicamente, deve buscar sua libertação por meio do trabalho, da independência financeira. Ela fortaleceu o feminismo de uma maneira decisiva no século XX com seu livro O Segundo Sexo (1949) expondo suas visões filosóficas existencialistas valorizando a mulher como indivíduo humano, bases importantes para entender a motivação do feminismo até hoje. Ela levantou o questionamento do que é ser mulher e assim quebrou a barreiras de gêneros, revelando poderes ilimitados às mulheres:

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino. (BEAUVOIR, 1967, 2ª edição, pp. 9-10) 

Feminismo se trata de liberdade e outra obra precursora que reivindicou isso foi a Mística Feminina de Betty Friedan (1971), autora que também soltou o verbo para a mulherada refletir sobre a educação, cultura social, política e economia em que viviam, fazendo-as se libertar das amarras impostas por essa estrutura patriarcal que naturalizavam a ideia “seja boa mãe e boa esposa, isso basta para ser mulher”. As possibilidades de vida foram ampliadas às mulheres, muitas perceberam que, definitivamente, podiam ser mais. Muitas foram para as ruas lutar em militância por direitos iguais, com isso inspirando muitas outras que, mesmo sem ir às ruas faziam suas revoluções individuais.

 

Feminismo pode ser uma nova educação

Na soma de tudo isso vemos atualmente o ENEM trazer o tema feminismo para ser refletido e estudado, a redação sobre violência contra as mulheres que ainda vigora e deve ser combatida. Um efeito de reverberação das lutas feministas na história, que faz valer a pena cada mulher que é motivadaa pelo feminismo e começa pequenas revoluções, em conversas com amigos, colegas, familiares e na internet sobre feminismo, corajosamente seguindo em frente mesmo diante reações de ódio e rejeição do assunto. Sim, porque ser mulher e feminista exige coragem, de enfrentar discordâncias de pessoas que, geralmente, não conhecem o feminismo, nunca estudaram sobre, por desinteresse, egoísmo ou por acreditar que o feminismo não faz diferença em sua vida. 

Ganhamos alcunhas pejorativas de “feminazis” por querer legalizar o aborto, por delegar à própria mulher o que deseja fazer com o próprio corpo. Somos chamadas de puta por  vestir a roupa que preferir, como se puta ou prostituta fosse xingamento de um ser humano inferior ou indigno de respeito. É a “incômoda” liberdade sexual que o feminismo trouxe à vida de muitas mulheres. Somos acusadas de problematizar tudo e de sempre procurar brigas, igual pensamento de histeria que destinava mulheres à fogueira na Idade Média e ao hospício nos últimos séculos.

O feminismo trouxe o direto à voz ativa para as mulheres que ainda não tinham descoberto isso, opiniões próprias e poder de escolha livre de medição patriarcal. Sim, infelizmente inclusive mulheres pensam assim, afinal o opressor não se torna tão forte sem cúmplices, ou seja, ser machista é uma postura enraizada na cultura de homens e mulheres, mas é totalmente mutável como toda cultura, dependendo apenas da boa vontade de se abrir a novas ideias, e assim, (des)construir conceitos obsoletos do machismo imposto por comportamentos sexistas, que aprendemos desde que nascemos. Feminismo é para quem gosta de transformação social, longe de conservadores, perto de uma educação mais coerente!

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  Feminismo pode ser um cobertor quentinho

O feminismo é plural, então há dúvidas e debates entre feministas, em uma sororidade que cada uma busca (ou deveria) entender as diferentes lutas nesse movimento social como das mulheres negras, das brancas, das heterossexuais e das homossexuais. Vivências completamente distintas desse movimento vanguardista, que como num cobertor quentinho abre um espaço aconchegante para conversar sobre traumas, intimidades e casos em comum, trocar conhecimento. Disso, saem fortalecidas prontas para o que exige o feminismo, pensamentos diferentes, quebrar paradigmas para construir uma nova história das mulheres. Para isso também é preciso autoconhecimento e resignificar a identidade de gênero como um objetivo político no feminismo, pois de acordo com Butler (1990, p. 21-22):

A identidade do sujeito feminista não deve ser o fundamento da política feminista, pois a formação do sujeito ocorre no interior de um campo de poder sistematicamente encoberto pela afirmação desse fundamento. Talvez, paradoxalmente, a ideia de ‘representação’ só venha realmente a fazer sentido para o feminismo quando o sujeito ‘mulheres’ não for presumido em parte alguma.

Identidade que quando questionada por questões culturais, de gênero, etnia ou classe social traz a consciência do poder que cada mulher tem por direito. E ao perceber isso as mulheres não aceitam mais ser desvalorizadas ou submissas a condições antes pensadas como naturais, exemplo disso é a denúncia cada vez maior de assédios morais e sexuais. É o cobertor quetinho do feminismo que acolhe e torna a mulher mais corajosa e empoderada para sair e lutar por seus direitos sempre que se sentir ameaçada e inferiorizada.

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O feminismo pode ser uma pedra no sapato

O feminismo pode ser uma pedra no sapato de muita gente, daqueles que torcem o nariz quando ouvem sobre feminismo, são indiferentes e preguiçosos para uma leitura ou uma conversar sobre feminismo. Alguns preferem continuar no sistema machista, pois lhes traz privilégios, é mais confortável viver na desigualdade opressiva de gênero, mesmo com feministas “incomodando nos ouvidos”. Muitos imaginam um feminismo atrelado a doutrinação demoníaca esquerdista que busca inverter todos papeis sociais e instalar o caos na Terra. E quer saber um “segredo”? O feminismo quer mudar todos os papeis sociais, sim, pois os tradicionais estão ransosos, cheirando à injustiça e machismo, demasiadamente manchados por desigualdades de gênero, étnicas e econômicas. Não inverter nada, e sim, equiparar. O feminismo é sim uma doutrinação política e ética de como praticar de fato os direitos humanos, criando um sociedade igualitária em muitos sentidos, aos moldes femininos, uma nova liderança de alguém que já foi duramente oprimido e finalmente chega ao poder e diz, “não façam errado de novo e vamos mudar juntos? 

Sabemos que muitos ainda pensam que o feminismo exagera, pois afinal “mulheres já podem votar e trabalhar fora, o que mais querem?!” Conquistas feministas não devem parar, porque ainda há garçom que só cumprimenta o homem do casal e oferece o cardápio para ele escolher, ainda há mulher que numa reunião de trabalho tem a capacidade profissional julgada pela roupa que veste, mulher solteira e sem filhos aos 50 anos ainda é dita como fracassada, enquanto homem na mesma situação é “bon vivan” que ainda está escolhendo a vida. Ainda há mulheres que dizem obrigada aos cônjuges por trocar a fralda do próprio filho. Ainda há uma ideia de que meninas amadurecem mais rapidamente que meninos, mas não pensam que nas mesmas idades enquanto eles jogam bola e videogame elas são obrigadas a ajudar nas tarefas domésticas. Ainda existe o azul e rosa como cores de gêneros e não de gente. Ainda há mulheres que se privam em relacionamentos abusivos, esquecendo do amor próprio. Ainda há mulheres estupradas dentro da própria casa por homens que pensam ter esse direito e outras que são violentadas na rua por estar com roupa curta ou por ser lésbica. Ainda existem homens e mulheres que dizem fazer coisas de “mulherzinha” como sinônimo de frágil e inferior, um retrato simples da ampla misoginia que vivemos.

 

Diante disso e muito mais que ainda enfrentamos, nós mulheres, é entendível que haja homens machistas achando que “tá bom”, que estamos querendo demais, mas “não tá bom”, mulheres estão se empoderando progressivamente, cumprindo a real intenção do feminismo, de que homens e mulheres olhem para si, repensem atitudes e preconceitos, percebam a cultura desigual em que vivem, para então mudar o rumo da história, respeitando-se igualmente como indivíduos, com empatia e plenos direitos em sociedade. Essa transformação social já acontece em alguns  países de primeiro mundo como Noruega e Nova Zelândia, com economia e políticas públicas que favorecem a equidade de gêneros, uma das metas de governo. Mas não precisamos esperar tanta evolução social no Brasil para pensar em igualdade de gêneros.

E, não confunda:

 


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