Por Luana Borges

No Dia das Crianças em 12 de outubro e na tradicional cultura sexista em que vivemos diversas meninas são presenteadas com bonecas para simular o cuidado com bebês e barbies grávidas, jogos de panelinhas, entre outros. Esses são os hábitos educacionais que devemos desconstruir para educarmos pessoas desde cedo, que meninos e meninas podem brincar com o que quiserem e ser o que quiserem. As referências da infância têm grande efeito na percepção de gênero que temos ao longo da vida, por isso é tão importante oferecer um universo (i)limitado de brincadeiras aos pequenos. Assim, com persistência e (re)avaliação de nossos conceitos ensinados pela cultura e tradição, conseguiremos construir um futuro com mais respeito e igualdade de direitos entre os gêneros. 

O progresso social nessa realidade do século XXI torna sempre atual o pensamento de Beauvoir (1971, p. 176) sobre o “fato de ter tomado consciência de si e de poder libertar-se também do casamento pelo trabalho, a mulher não mais aceita a sujeição com docilidade”. Atitude que rompe com o mito da feminilidade imposta às mulheres, explicitada por Friedan (1971, p. 71) quando alega que:

Na luta pelo direito de participar de tarefas importantes e tomar decisões na sociedade ao mesmo nível que seu companheiro, elas negavam a própria natureza feminina, que só encontra a sua realização através da passividade sexual, da aceitação do domínio masculino e da maternidade.

Esse pensamento vanguardista impulsionou uma nova história das mulheres, as quais se empoderaram a cerca de suas potencialidades e tomaram consciência do poder feminino como sujeito transformador da sociedade. Descoberta ideológica pessoal que, conforme Beauvoir (1971, p. 92) não dependia necessariamente da “presença de uma mulher-chefe, de uma rainha à frente de uma tribo não significa, em absoluto, que as mulheres sejam nesta soberanas”, apontando o fator identitário independente do indivíduo feminino como precursor do pensamento empoderado. A partir desse perfil as mulheres começavam a se reconhecer como detentora do comando familiar e de suas pretensões sociais. Assim, formam-se novos contratos sociais, direitos que o indivíduo cede ou aliena para instituir a soberania, que como aponta Foucault (2012, p. 146) é uma vantagem de poder em que “não é o consenso que faz surgir o corpo social, mas a materialidade do poder se exercendo sobre o corpo dos indivíduos”. Então, o poder consciente constitui agrupamentos de mulheres com pensamento libertário das relações de poder masculinas prevalecentes, que por isso melhor compreendem e, muitas vezes, aderem ao feminismo como representação de luta em um corpo social feminino.  

img kids e bebes

Nessas relações, o histórico machista gerador do poder tem efeitos de repressão sobre as mulheres, por forças proibitivas que inferiorizam o gênero. E, segundo Foucault, a versão positiva da produção de poder se dá como agente transformador, como a intervenção do poder feminino a fim de reivindicar igual representação histórica através do feminismo. Assim, organizando a motivação para desencadear e manter um novo poder de conhecimento feminino, o que ressalta Foucault (2012, p. 19) sobre:

A grande importância estratégica que as relações de poder disciplinares desempenham nas sociedades modernas depois do século XIX vem justamente do fato delas não serem negativas, mas positivas, quando tiramos desse termo qualquer juízo de valor moral ou político e pensamos unicamente na tecnologia empregada. É então que surge uma das teses fundamentais da genealogia: o poder é produtivo de individualidade. O indivíduo é uma produção do poder e do saber. (Machado, 2007, p. XVII)

Com esse progresso de poder conscientizado no imaginário feminino a percepção das mulheres busca reverter e equivaler o privilégio econômico detido pelos homens, bem como a importância social como indivíduos. Disso decorre que a mulher deixou de fazer escolhas voltada para o homem, e sim para ela mesma, desconstruindo algo que remonta a prerrogativas históricas de poder, segundo Beauvoir (1971, p. 97):

Desde a origem da humanidade, o privilégio biológico permitiu aos homens afirmarem-se sozinhos como sujeitos soberanos. Eles nunca abdicaram o privilégio; alienaram parcialmente sua existência na Natureza e na Mulher, mas reconquistaram-na a seguir. Condenada a desempenhar o papel do Outro, a mulher estava também condenada a possuir apenas uma força precária: escrava ou ídolo, nunca é ela que escolhe seu destino.

Desse modo, as mulheres lutam por seus papeis sociais em prol dos direitos de seu sexo e de uma educação superior e profissional, jornada em busca da identidade feminina que segue muitos acontecimentos às mulheres desde então. A realidade do entusiasmo que fizeram essas mulheres deixarem o lar sugeriu, conforme Friedan (1971, p. 71), “um ato de rebeldia, uma violenta negação da mulher como era então definida. Foi a necessidade de uma nova personalidade que conduziu as feministas a abrir trilhas inéditas para a mulher”.  Alguns desses caminhos de militância foram árduos e outros falhos, mas a autenticidade da busca se fazia necessária e justifica a crescente motivação feminista até os tempos atuais. Nessa trajetória a mulher partiu de sua essência arquitetada no sistema patriarcal, que como dirige Beauvoir (1971, p. 7), implica na ideia de que “todo ser humano do sexo feminino não é, portanto, necessariamente mulher; cumpre-lhe participar dessa realidade misteriosa e ameaçada que é a feminilidade”. Com isso, as mulheres se percebem desafiadas a (re)conhecerem o significado de sua maternidade e feminilidade como características de valoração cultural. Atributos esses que serviram de base para a desvalorização da figura feminina no âmbito de trabalho, que ao mesmo tempo forjava uma interdependência com as relações familiares masculinas no passado, e ainda acontece. 

Uma das mudanças que fortaleceu o ativismo público feminino também foi a nova concepção materna para o distanciamento da naturalização ao histórico das mulheres, a fim de reavaliar o senso coletivo social em que, segundo Banditer (2002, p. 15),

os defensores do amor materno “imutável quanto ao fundo” são evidentemente os que postulam a existência de uma natureza humana que só se modifica na “superfície”. A cultura não passa de um epifenômeno. Aos seus olhos, a maternidade e o amor que a acompanha estariam inscritos desde toda a eternidade na natureza feminina. Desse ponto de vista, uma mulher é feita para ser mãe, e mais, uma boa mãe. Toda exceção à norma será necessariamente analisada em termos de exceções patológicas. A mãe indiferente é um desafio lançado à natureza, a a-normal por excelência.

Para romper com esse imaginário sobre o papel de gênero feminino de realizar-se apenas como esposa e mãe, foi preciso desvincular a ideia cultural predominante que, segundo Friedan (1971 p. 17) era persuadida com “a voz da tradição e da sofisticação freudiana diziam que não podia desejar melhor destino do que viver a sua feminilidade”. Tal pensamento é contrariamente fortalecido pela defesa do indivíduo mulher a partir da qualidade humana de simbologia, portanto, que sobrepõe isso aos instintos animais e maternos pensados como inerentes à figura feminina em sociedade, pela visão patriarcal. Dessa maneira, Badinter (1985, p. 16) categoriza:

Esse ser de desejo é sempre particular e diferente de todos os outros. Que os biólogos me perdoem a audácia, mas sou dos que pensam que o inconsciente da mulher predomina amplamente sobre os seus processos hormonais. Aliás, sabemos que a amamentação no seio e os gritos do recém-nascido estão longe de provocar em todas as mães as mesmas atitudes.

Desse modo, em contraponto a um determinismo patriarcal, o amor materno é desconstituído como sentimento inerente à condição de mulher, como mais um poder de escolha. A partir disso, é entendido a maternidade que é parte da construção individual em sociedade e o amor que se adquire e não é instintivo do gênero.

Assim, o avanço feminista comprova a força da maternidade em diferentes instâncias de poder resolutivo de conflitos sociais, impondo-se diante dos costumes patriarcais limitantes que estimulavam as mulheres a se dedicar exclusivamente a manutenção do lar e da família, além de fazê-las repudiar e lamentar as mulheres que se libertavam desse círculo de dominação patriarcal, como intelectuais, artistas e líderes, no século XX. Também, a liberdade sexual como benefício frente ao moralismo da época contribuiu para o reconhecimento das mulheres no trabalho e nos meios sociais, como lembra Lipovetsky (2000, p. 229-230):

À medida, precisamente, que a liberdade sexual feminina deixou de ser um sinal de imoralidade, a atividade profissional feminina se beneficiou de julgamentos muito mais amenos. Reconhecimento social do trabalho feminino e liberalismo sexual têm cumplicidade. Se o “direito” ao trabalho das mulheres se impôs muito mais tarde que os direitos políticos, foi fundamentalmente em razão do medo tradicional inspirado pela liberdade feminina, sexual em particular, da recusa dos homens ao reconhecer a autonomia feminina nas esferas “sensíveis” da vida material e sexual, de sua vontade de controlar o corpo feminino e de perpetuar o princípio da subordinação do sexo frágil ao sexo forte.

E foi nesse período feminista, a partir da década de 70, em que as mulheres demonstraram um sexo igualmente forte expondo o campo sensível antes subjulgado pelo patriarcalismo, como diferenciador em movimentos sociais. Conquista da independência sexual, política e individual pleiteada por feministas para reconfigurar a noção da mulher verdadeiramente feminina, com opção de carreira e vida familiar, bem como aprofundamento educacional e inclusão de direitos políticos. Com isso, vivemos hoje um processo de feminilidade alforriada em que podemos optar pela maternidade ou não, dentre os diversos destinos possíveis ultrapassando barreiras sexistas cada vez mais no século XXI.

Fontes bibliográficas

BADINTER, Elisabeth. Um Amor conquistado: o mito do amor materno; tradução de Waltensir Dutra. — Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1971. 

FOUCAULT, Michel. A microfísica do poder. 25a. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2012.

FRIEDAN, Betty. A mística feminina. Petrópolis: Vozes, 1971.

 


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