O clichê machista “lugar de mulher é na cozinha” perpetua a imagem histórica da mulher na cozinha doméstica, junto ao seu silêncio e postura de servidão. Ideia desconstruída nos tempos atuais, principalmente na gastronomia em que as Chefs, cada vez mais, conquistam reconhecimento profissional com trabalho árduo e quebra de paradigmas sexistas, pois quando a cozinha se torna uma carreira promissora “as panelas” rapidamente deixam de ser “coisa de mulher”.

Foto: Chef Paola Carosella, jurada do Masterchef Brasil e dona do restaurante Arturito

Por Gabrielle Assunção, Gastrônoma formada  pela UNISC

“Desde os primórdios da civilização é tarefa feminina cozinhar e a do homem caçar o alimento. Muita coisa mudou e o ato de cozinhar passou de necessidade, todos precisam se alimentar, para artigo de luxo, pessoas que pagam e muito para se alimentar bem. O crescente número de restaurante também trouxe consigo uma série de chefs, frente as suas cozinhas. E algo chama atenção, o número de mulheres é consideravelmente menor, geralmente ocupam o cargo de cozinheiras e auxiliares. Sem desmerecimento, quem trabalha dentro de uma cozinha sabe que toda a equipe é de vital importância, do Chef ao lavador de pratos.

Preparo até 100 pratos por dia, e eles não podem demorar mais do que vinte minutos para ficar prontos. É difícil, mas eu tiro de letra. O que me deixa louca da vida é ir às mesas, para saber o que os clientes acharam dos pratos, e engraçadinhos passarem cantadas, do tipo: ‘Não quer cozinhar só para mim, em Paris? ’”, conta Taís Bulgareli, de 26 anos, chef do restaurante Bodega Franca, em São Paulo. – Matéria em savart.com

Há quem diga que cozinhar é algo que está no DNA da mulher, as primeiras brincadeiras, fazer comidinha. Enquanto os homens brincam de carro, jogam futebol. Existe esse instinto de ainda criar mulheres para cozinharem de modo doméstico, mas a profissão tem se mostrado ingrata para acolher mulheres frente a cozinhas profissionais. Roberta Sudbrack, a melhor chef mulher da América Latina de 2015, eleita na premiação feita pela conceituada revista inglesa Restaurant, um grande feito para o Brasil, país riquíssimo em ingredientes, esses que em partes, transformam-se e chegam até os grandes restaurantes das capitais. Seu caminho trilhado é semelhante ao de alguns grandes chefs, que tiveram a oportunidade de morar no exterior e ter contato com uma gastronomia que aqui ainda dá seus primeiros passos.

Roberta Sudbrack

Embora os efervescentes programas como Masterchef tenham feito repercutir ainda mais a profissão de chef de cozinha, mostrados pela mídia com todo glamour, deixando embaixo do tapete a concorrência acirrada e o machismo da profissão. Basta voltarmos um pouco no tempo, na França onde surgiu a gastronomia como ato luxuoso de desfrutar os jantares intermináveis, os banquetes. Enquanto isso, para as empregadas restavam cozinhar o almoço, a comida das crianças e das mulheres, algo simples, básico para suprir a necessidade de comer. Outro exemplo interessante é o que ocorre no Japão, alegam que o sushi só pode ser feito por homens pois as mulheres tem a temperatura da mão muito elevada. Por isso em teoria só podem haver sushimens.

No segmento das bebidas também existe um visível preconceito com as mulheres, como exemplo de barmens e sommelier, profissões predominantemente masculinas, que podem ser executadas por mulheres igualmente mantém a discriminação sexista. Em contrapartida o ato de cozinhar doméstico é dominado por mulheres. Devemos lutar para que existam oportunidades e respeito frente às mulheres na cozinha, que haja postura e não salários abusivos. Lugar de mulher é onde ela quiser, no bar, na cozinha ou na fábrica de cerveja.”