Por Luana Borges

“Complexo de Édipo, o desejo incestuoso pela mãe, e uma rivalidade com o pai (…) o desejo fundamental que organiza a totalidade da vida psíquica e determina o sentido de nossas vidas.

O Complexo de Electra define-se como sendo uma atitude emocional que, segundo as doutrinas psicanalíticas, todas as meninas têm para com a sua mãe (…) implica uma identificação tão completa com a mãe que a filha deseja, inconscientemente, eliminá-la e possuir o pai. “

– Fonte: Psicoloucos

O Superego como fator moral dominante na consciência adulta gera reação contra o Complexo de Édito, o que Freud considerou a mais importante conquista social da mente humana. Numa visão holística social em um recorte de gêneros, Freud mesmo soando prepotente para alguns, louco obsessivo ou gênio para outros, mergulhou em teorias inóspitas, antes nunca refletidas. Uma das grandes associações dele com os problemas psicológicos humanos advém da infância, da educação e do convívio através da mãe e do pai, contemplando as fases sexuais orgânicas de bebês e crianças. E na vida adulta esses preceitos estudados por muitos profissionais ainda acabam numa rua sem saída, a sexualidade humana. Suas descobertas foram ditas de maneira enfática num fôlego inicial da psicanálise, ciência que desde então ajuda tanta gente a se conhecer, inclusive em questões de gênero.

Alguns dos legados teóricos de Freud sobre comportamento humano associado à explicação psicológica são: inconsciente, atos falhos / sintomáticos, motivação sexual (sobrevivência da espécie) e instinto de conservação (sobrevivência individual) e as fases do desenvolvimento sexual na infância que denotam personalidades na vida adulta. Ou seja, todas as suas afirmações rodeiam um tema – sexo. A força que norteia esses comportamentos estariam no inconsciente, o instinto sexual. Verdades parciais certamente, com interpretações aprofundadas e também refutadas ao longo do tempo até hoje por diversos estudiosos, mas ainda assim tais teorias sexuais e parentais servem como base primitiva para explicar  comportamentos e muitos conflitos entre gêneros.

Pinups, as eternas símbolos sexuais quando são reproduzidas por homens  se tornam sátiras, perdem o sentido imediato de objetificação que o sexo feminino traz pela cultura. Por que será?!

Temos sexos biológico, fazemos sexo e há um instinto sexual em nossas referências sociais. Mas o peso da sexualização é maior quando recai para o lado feminino, cultura imposta machista que concretiza a ideia de mulher ser mais sexy,  sensualmente mais atrativa. Então, percebemos a foto acima como estranha ou ridícula ao compararmos o masculino e o feminino sendo sexy com a mesma performance. E a propósito, mamilos são todos iguais, por que só homens não os escondem e protegem como se fosse algo imoral?!

Homens e mulheres estão misturados em dois sexos biológicos em diversas concepções reais de gêneros, o que é comumente limitado e estranhado, além de obviamente estereotipados como se fôssemos dois universos distintos e distantes. Mas, são próximos e interligados basta estudar um pouco da sexualidade humana nas práticas sociais que percebe-se a complexidade rica culturalmente mas que enfrenta, infelizmente, discriminações violentas sobre “coisas de meninos e coisas de meninas”, ignorância nociva de homofobias e visões distorcidas de padrões familiares. Nesse contexto muitas pessoas não se identificam com o sexo biológico que nascem, como é o caso de homossexuais e transsexuais, além disso, existe a noção pré-estabelecida de feminilidade e masculinidade com tom de obviedade, enquanto sexualidade é um oceano com biodiversidade fértil. Por isso cada vez mais se pensa em sexualidade fluida, reconhecendo, respeitando e naturalizando a orientação de pessoas hetero, homo, bi e panssexuais, essas útlimas definem a amplitude de possibilidades em atração sexual e afetiva por qualquer tipo de gênero. Acredito que isso simboliza uma visão macro, humanizadora das lacunas sexualizadas em que somos “encaixados” pela cultura, saímos dos bretes e vemos para além de sexos, pessoas.

E a simplificação desse contexto social, com a dualidade feminino e masculino ainda é imperativa, sobretudo em práticas rotineiras, de pensamentos e discursos em que, além de sexualizar muitas ações, também há sempre a submissão do feminino sob o peso do machismo. Essa simbologia da servidão feminina ocorre em todo tipo de relação humana, exemplo disso é a “sutileza” assustadora destacada abaixo:

“(…) em um relacionamento homoafetivo, o passivo será aquele que está em condição feminina. A ideia de possuir está associada ao masculino, assim como a ideia de poder e de tomar para si. Nas relações sociais em nossa machista sociedade, cabe ao homem possuir e a mulher jogar o jogo de se deixar ou não ser possuída. O ato sexual é visto, para os que estão em condições masculinas, como ‘conquista’ e dentre as pessoas em condições femininas como ‘possuída’; por isso as comuns e horríveis expressões: ‘dar’ e ‘pegar’.
Em uma sociedade onde o gozo masculino é, antes de tudo, gozo do gozo feminino, ou seja, do poder de fazer gozar, de mostrar-se viril, podemos afirmar que ela [a sociedade]está longe de ser igualitária. O ato de penetração, por exemplo, é símbolo de dominação, tanto que em casos de um homem ser forçado a receber penetração a dor maior se manifesta não de forma física, mas simbólica, pois ele foi ‘feito mulher’, perdeu sua posição de dominante e passou a ser dominado (pena comum aplicada por detentos à estupradores – ‘o fizeram mulherzinha’).” – Fonte: texto do Café Com Sociologia

Esse texto enfatiza a denúncia necessária de desigualdades que vivenciamos entre os dois sexos biológicos que existem, que por serem multiplicados em pessoas culturalmente e sexualmente complexas, devem ser respeitados como seres com iguais potencialidades e direitos sociais. Uma ideia otimista que alimento na filosofia existencialista. Porém, pensando além da emanência que Freud se referia com suas teorias sexualizadas, não somos tão óbvios, somos uma construção do meio social. Por isso, não se deve rotular libertinagem e brutalidade (masculinidade) como qualidades exclusivas e naturais de homens, tampouco fragilidade e passividade como naturezas da mulher (feminilidade). Isso é lembrado por Betty Friedan em seu livro revolucionário Mística Feminina (1971), que impulsionou diversas mulheres descobrir seus potenciais além das fronteiras do lar e da maternidade, impostas pela cultura da época, norteando muitas feministas, que devido à hipersexualização feminina que não é de hoje, eram contrariadas primeiro pelo sexo, 

“eram vítimas neuróticas da inveja do pênis, querendo ser iguais ao homem,(…) Na luta pelo direito de participar de tarefas importantes e tomar decisões na sociedade ao mesmo nível que seu companheiro, elas negavam a própria natureza feminina, que só encontra a sua realização através da passividade sexual, da aceitação do domínio masculino e da maternidade.”

Nessa vanguarda feminista, as mulheres tiveram que criar suas novas identidades, as autênticas, dissociadas de potenciais humanos atrelados ao sexo biológico. Para isso, tiveram que vencer o mito da “virilidade honrosa” que o patriarcado sustenta em séculos de opressão ao gênero feminino, realidade, que está sendo repensada por meio de atitudes que são contra a naturalização de libidos desenfreados de “machos alfas” sobre a dominação de mulheres-objeto. É uma luta que ainda segue na relações sociais entre gêneros, que sexualiza todas personalidades e méritos, principalmente das mulheres.

As super-heroínas da ficção, geralmente são sexualizadas e erotizadas por suas formas corporais e roupas, o que estaria ironizado na imagem acima, incomum em comparação aos padrões que chegam até nós com frequência. 

Esse olhar hipersexualizado sobre todas atividades humanas criam referências distorcidas sobre sexualidade e respeito, principalmente em relações amorosas, quando conhecemos alguém que nos atrai já iniciam jogos de poder e sexualizamos o olhar sobre o outro num primeiro instante. E isso precocemente afeta meninos e meninas de maneira opressiva, como se sexo fosse obrigação, e não um con(sentimento) entre duas pessoas com iguais vontades, vozes ativas e principalmente com limites individuais a serem preservados. Ferindo esse ideal de comportamento, existe uma cruel realidade de jovens com valores desequilibrados e vontades nada autênticas, conforme o trecho abaixo:

“(…) o tipo de menina que, apenas duas gerações atrás, estaria provavelmente fazendo balé e sonhando com o primeiro beijo, e não sendo coagida a fazer sexo violento por um moleque que aprendeu sobre intimidade física assistindo um vídeo de sexo em público no celular. O estrago, obviamente, não é apenas físico. (…) Cientistas do Jornal De Saúde Adolescente ficaram surpresos ao ver um aumento de 7% em apenas cinco anos no número de meninas, entre 11 e 13 anos, relatando problemas emocionais. Meninos se mantém estáveis enquanto meninas enfrentam “pressões inimagináveis”. Pesquisadores dizem  que as causas também incluem  o desejo de alcançar um padrão de beleza irreal, perpetrado pelas mídias sociais  e o aumento na sexualização de meninas mais jovens.
Pegue essa insegurança feminina, distorça e aumente na Sala De Espelhos da internet, acrescente o desejo de ser “sarada” e popular, misture tudo numa confusa cultura pornográfica e você terá uma receita infernal para meninas tristes e abusadas. (…) O resultado final  é o que Sue vê em seu trabalho no consultório. Meninas jovens – crianças, na verdade – que tentam  passar por normal numa sombria cultura pornificada.” – Fonte: Artigo no Festival Marginal

Essas estatísticas e relatos médicos refletem a visão pervertida do sexo e o atropelo na descoberta da sexualidade, que parece cultivar uma geração de hipersexualizados com feridas emocionais, que talvez tardiamente irão se conhecer o suficiente para então respeitar o espaço alheio também. Claro, antes disso já temos gerações veteranas que objetificam e geram estereótipos de gênero excessivamente sexualizados, como a representação da figura feminina sendo a serva de um sistema machista. Sim, ratificando Freud, o instinto sexual permeia nossas vidas em olhares, decisões e maneiras de se relacionar com os outros, como animais. A diferença racional nesse âmbito, junto aos fatores de vida em sociedade precede e relativiza todas teorias sexuais e possibilitam que sejam revistas posturas “pornificadas”, uma demanda que muitas vezes é atendida como em peças publicitárias, principalmente na moda, que além de sexo estimulam padrões de beleza restritos irreais:

prop apelo sexual

Entretanto, deve ser combatida a fim de libertar cada indivíduo, mulher ou homem, para se descobrir sem pressões sexualizadas e permitir o outro a se (des)cobrir de tantos padrões impostos, sem traumas que responsabilizam o sexo biológico e a representação social do mesmo, convenções de gênero que por definição nem tem sexo. Propagandas utilizam apelo sexual por algum motivo, forte e inerente ao ser humano, a atração pelo fator sexual, libido qu aflora na pele e no olhar, muitas vezes difícil de esconder. Cenas e figurinos são criados na ficção e na vida real em torno dessa referências sexualizadas, mas podemos modificar nossas percepções e falas sociais pois há maneiras mais produtivas e humanas de traduzir relações entre pessoas, sem estimular exageradamente instintos que já são orgânicos, a ponto de nortear todas vivências como sexistas e ainda direcionar determinados determinados gêneros como objetos inferiores em vez de alguém igual.


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