Por Luana Borges

O século XX e as calças democratizadas

Muita gente não percebe, mas moda não é só frivolidade, o que vestimos completa o estilo de vida que cria uma linguagem por nós, uma representação social que intencional ou não, diz algo à sociedade. Por isso, é sempre bom lembrar que hoje mulheres usam calças com aparente naturalidade, mas é uma peça companheira de emancipação política e social de longa data.

No contexto social algumas peças de roupas são sinônimo de revolução, por exemplo, como o macacão, que antes usado de maneira funcional apenas por operários homens. Essa se tornou uma peça do guarda-roupa feminino no início do século XX devido ao baixo contingente de homens que foram convocados para a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), elas tiveram de assumir o trabalho nas fábricas e isso impulsionou o empoderamento das mulheres da época, vestindo os macacões, símbolo do feminismo até hoje. Esse mesmo período histórico também colaborou para aposentar o espartilho e inaugurar o sutiã, outra prática que libertou mentes e movimentos corporais para viabilizar o trabalho, somando ao empoderamento feminino, vestuário que motivou novas atitudes femininas perante o espaço público e o patriarcalismo instituído.

O período de guerras indiretamente também popularizou o uso de calças entre mulheres, pois os maridos, pais, filhos e irmãos tinham de ir para a frente de batalha, então restou às mulheres o trabalho fora de casa. E as calças tornavam essa nova realidade cotidiana mais funcional, combinando com suas vidas também mais independentes de uma visão financeira, emocional e de direitos civis ao conquistarem a livre circulação no espaço público, assim como a prática de esportes. Autonomia que era novidade para tal gênero oprimido em séculos de machismo. Nova moda e nova consciência social entre as mulheres.

Coco Chanel protagonizou o clima de inovação na época e lançou peças que igualmente contribuiram para empoderar atitudes femininas e são tendências até hoje com interpretações criativas nas passarelas fashions. Calças, listras e camisas, antes somente usadas por homens, se tornaram hits de alta costura de suas coleções. A democrática camisa Breton de 1917, ou camisa listrada, Coco buscou inspiração para criá-la após visitar o litoral francês e ver o uniforme de marinheirosa original tinha exatas 21 listras, cada uma representava uma vitória de Napoleão Bonaparte. Então surgiu o look navy composto por camiseta listrada + calças compridas. Além disso, Chanel consagrou as famosas pérolas junto ao vestido preto de festa e o conjunto – tailleur de tweed de 1954, com jaqueta debruada e botões dourados. Inspirações do vestuário masculino assim como o jersey, botões e bordados de uniformes militares. Mas para vestir calças compridas a mulher precisou enfrentar batalhas sexistas. Historicamente símbolo de masculinidade em uma divisão cultural de roupas limitantes, mulheres usavam apenas vestidos e saias enquanto homens cultivavam sua virilidade simbólica vestindo suas exclusivas calças, o que é claramente percebido através da expressão popular “honre suas calças”, ou seja, seu poder de opressão e soberania por ter nascido homem, o patriarcado, lembrando “quem veste as calças em casa”.

Por isso, vitória feminina, hoje mulheres podem e devem usar todos estilos de roupas, desmistificando que “o poder veste somente calças”, mas o que falta de progresso não sexistas nesse âmbito social são os homens também vestirem saias e vestidos, sem receio de parecer frágeis ou femininos, como se fosse ofensa ou motivo de inferioridade ao sexo masculino. Pois, como  Jaden Smith comentou “não são roupas de menina, são apenas roupas”, lembrando de que nossas roupas e seus significados perante a sociedade são convenções culturais.

Jaden Smith e sua moda com saias e sobreposições

Roupas expressam algo sobre quem as veste, e principalmente conceitos que podem ser (re)criados como Jaden mostrou a todos, que escandalizados ou admirados com o estilo fashion do menino, acabaram repensando a moda em questões de gêneros. Não somos menos femininas por usar calças, tampouco homens são menos masculinos por usar saias, e se for qual o problema isso teria na real sexualidade de cada um? Pura aparência arbitrária, gritando por liberdade. 😉

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Calças pantalonas

A mentalidade libertária no fim das guerras provocou nas mulheres grande influência pelo cinema norte-americano, ávidas por novidades com inspiração nas celebridades como no filme Sabrina (1954), em que Audrey Hepburn atuou com charme e feminilidade em uma calça Capri justa. A musa hollywoodiana se consagrou como um ícone fashion que por sua espontaneidade e humildade propagava o estilo de vida divertido e sensual de tão despretensioso que transmitia. Outras referências fashions de calças foram Marilyn Monroe e Brigitte Bardot, entre outras celebridades que encorajavam ainda mais a dissociar a figura feminina da armação de saias e vestidos e experimentar novos estilos de roupa e de vida, moda como ato político que se libertou da ideia antiga onde calças eram motivos de marcar as “vergonhas” ou partes íntimas femininas, por isso também seriam proibidas. Vergonha era pensar assim. 

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Audrey Hepburn

 Revolução a passos lentos porém firmes

Parece que foi ontem, mas houve uma verdadeira batalha civil em poucas décadas quando mulheres decidiram usar calças também, seja por necessidade, pura vontade de se empoderar ou simplesmente de ampliar a moda feminina. No século XIX  diziam que mulheres “transvestidas como homens” poderiam ser repreendidas por policiais na rua caso não tivessem autorização (atestado médico aprovado pelo chefe de polícia ou prefeito), no fim da Revolução Francesa, segundo o jornal francês Le Figaro, a ordem foi publicada em novembro de 1800. Nesse período o uso da calça se popularizou com o grupo político Sans-Culottes, o que era considerado subversivo por algumas visões machistas e conservadoras. A tal autorização há muito tempo foi abolida por pedido dos comunistas, ainda bem. Em 1909 o estilista Paul Poiret apresentou em Paris as primeiras calças femininas, tipo sultão inspiradas no Ballet Russo, modelos julgados imorais pelo Vaticano.

Esse modelo precursor foi reapropriado por sufragistas norte americanas que representavam luta pelo direito do voto feminino, apontadas como protestantes, pois buscaram inspiração numa peça muçulmana. Isso torna deslocada a interpretação que existe hoje quando a mulher católica defende o uso somente de saias e é acusada de “protestante”. Então, poderia ser esse um tipo de protesto na contramão das conquistas feministas. A luta pelo voto foi uma dentre muitas reivindicações por igualdade de gênero no âmbito social, uma luta antiga, de mulheres que desde a Idade Média quando eram queimadas na fogueira por terem voz ativa no espaço público, ainda hoje são caladas de muitas formas o que em contraponto gera uma voz que fala mais alto ainda. Cenário que foi modificado consideravelmente no século XX a partir da alfabetização de grande parte das mulheres e do acesso das mesmas a universidades, o que fortaleceu suas lutas.

Modelos de Paul Poiret em 1909.

calças sufragistas

Elizabeth Smith Miller e Amelia Bloomer, sufragistas e feministas criadoras calça bloomer, que deveria ficar embaixo de uma saia/túnica cada vez mais encurtada e com versões de calças justas “ousadas” para a época.

Comemoração das primeiras parisienses a usar calças, Praça da Concórdia, 1933.

“Sucessor de calças, calças simbolizava a masculinidade e poder. Durante a Revolução Francesa expressa valores republicanos e tornou-se um elemento-chave da nova ordem política (…) nos antigos regimes a mulher foi privada de todos seus direitos, até mesmo de usar calças.” Ao longo da história, as calças, mais que uma peça de roupa prática e confortável, tem emergido como um símbolo do poder político e de liberdade. Prova disso é que “embora as mulheres terem conseguido trabalho civil e iguais, o homem nem sempre consentiu ou concordou em se vestir como ele.” – HISTORIA POLÍTICA DEL PANTALÓN, por Christine Bard (2012).

E as restrições fashions sexistas são notadas até hoje, em que vemos diferenças tênues entre estilos de calça feminina ou masculina, cortes muito semelhantes mas que mesmo assim são discriminadas. Assim a dicotomia limitante se estende a todos setores de consumo, como por exemplo sessão de brinquedos divididos em azul e rosa, para meninos e meninas, assim como tópicos de vestuários em que sites e lojas filtram por feminino e masculinos restringindo cores e tamanhos por gêneros. Não faz sentido algum, por isso o próximo passo importante a se conquistar ainda é uma moda sem gênero

Da moda ao empoderamento

Ainda no início do século XX, na França, por exemplo, as calças passaram a ser permitidas em passeios de bicicleta ou à cavalo. De moda passeio se tornou moda funcional de trabalho no período de Guerras, até ganhar interpretações diferentes no mundo fashion e a partir dos 1960 começou a ser produzida em massa nos Estados Unidos. A calça mais poderosa da década foi a do famoso smoking criado por Yves Saint Laurent em 1966. O look simbolizava o nova posição da mulher na sociedade, com tom de glamour e inspirando atitude empoderada, de modelagens mais refinadas as boca-de-sino hippies.

Smoking feminino criado por Yves Saint Laurent, 1966.

Na década de 80 o uso de calças se popularizou a nível mundial, a presença feminina ganhou força no mercado de trabalho e a calça se destacou ainda mais como elemento equalizador na representação social em meio a disputa com homens no espaço profissional. Nos anos 90 o minimalismo foi o ponto alto da moda, com calças de modelos simples e retos, refletindo uma peça coringa para mulheres de todos os estilos. As grandes maisons foram cedendo lugar às marcas de luxo, no final da década começa a moda do jeans premium da marca Diesel e top models como Cindy Crawford, Linda Evangelista e Naomi Campbell se tornam as novas referências fashions, em vez das atrizes no imaginário popular, mas mantém a mesma certeza de representatividade social por meio da moda, somos donas do estilo que mais convém, de saia ou calça lutamos por igual respeito e direitos civis com poder consciente nas mãos.

Estilo de calças anos 90

Salve as calças para todos!


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