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      Por Nanda Fernandes

A maternidade ainda tem uma espécie de gene imutável, que atravessou milênios de existência humana. É um signo social que permanece enraizado profundamente no comportamento das pessoas, e isso sem se limitar a culturas ocidentais ou orientais. É uma espécie de dever feminino, talvez até de missão: mulheres só vêm ao mundo para parir homens que a governem ou mais mulheres que vão parir mais homens para submetê-las. Este sistema está tão entranhado na gente que mesmo o movimento feminista levou anos para questioná-lo, começando na segunda onda, nos anos 60 e 70, com o advento do anticoncepcional para fins de planejamento familiar, até o atual momento em que vivemos, onde muito se questiona o poder de escolha sobre o próprio corpo. 

Estes questionamentos abrangem diversas pautas, como a liberação sexual, poligamia, modificações corporais e direito de recusa materna. Mulheres sempre se utilizaram de artifícios para rejeitarem seu papel procriador, seja por aversão a este, seja para controle de natalidade ou mesmo da necessidade de priorizar os filhos que já tem. Seguramente, das recusas existentes, uma impera clandestinamente a vida de uma parte muito, mas muito significativa da população feminina: o Aborto. Para se ter ideia, existem pesquisas de 2005 que apontam que são feitos no Brasil cerca de 1 milhão de abortos por ano, e para cada 4 gestações, uma é interrompida. As mulheres se colocam em um risco absurdo, sendo entre 2000 e 2004 computados 697 casos REGISTRADOS de óbito por consequência de abortos clandestinos.

Agora vamos pensar, quem são estas mulheres que viraram estatísticas? Começamos com uma análise superficial: uma cartela de Cytotec, principal fármaco abortivo, custa em média R$250,00, sendo que às vezes são necessários mais de quatro comprimidos para conseguir provocar a hemorragia necessária para expelir o feto. Além disso, no Brasil o remédio é proibido por lei, o que dificulta imensamente sua aquisição, o que obriga algumas mulheres à irem ao Uruguai para comprá-lo. Além de todo esse procedimento uma curetagem deverá ser feita depois, o que demanda certo conhecimento do que se passa no corpo e de como aconteceu o processo do aborto. Diante destes fatos, quem você acha que aborta com “segurança”? As mulheres de menor poder aquisitivo acabam apelando para clínicas altamente suspeitas, ou a métodos caseiros, como chás, exercícios de alto risco para a integridade física delas, e em casos extremos, a perfuração do útero.

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Legalização do aborto não é mais pauta exclusivamente feminista. Muitos setores do meio científico têm clamado por isso, alertando que se trata não de um problema moral, mas sim de SAÚDE PÚBLICA. Não legalizar o aborto e formar redes de apoio que conduzam estas mulheres a uma opção segura, com acompanhamento psiquiátrico e psicológico, é negar que milhares delas morrem todos os dias por que a sociedade se recusa a abrir os olhos pra realidade e prefere enxergar esse conto de fadas moralmente aceito de que toda mulher nasceu pra ser mãe, seja de quantos filhos for, seja em que situação for. Pior, não legalizar o aborto é submeter essas mulheres,  primeiro à dor de um filho indesejado, depois à culpa de não poder tê-lo criado com condições dignas. Não legalizar o aborto é, certamente, submeter classes mais baixas à um genocídio.


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