Por Janaína Vargas

Uma peça do vestuário que está profundamente ligada à história social das mulheres e às inovações da moda, o sutiã. No ano de 2013 pesquisei sobre seu uso social desta peça do vestuário para meu trabalho final de graduação em História, e quero dividir um pouco deste conhecimento com vocês.

Mary Phelps Jacob e sua criação, o sutiã.

O primeiro sutiã a ser criado e patenteado foi feito pela americana Mary Phelps Jacob, no começo do século XX. Jacob improvisou dois lenços e uma fita cor de rosa para usar no lugar do espartilho, dando maior leveza e conforto ao seu traje que consistia em um vestido fino. Percebendo que poderia ser um negócio viável, Jacob lançou, em 1913 uma nova peça de roupa íntima, o sutiã. No ano seguinte a peça foi patenteada e comercializada com o nome de Brassiere Backless, uma peça leve e confortável, separando os seios e deixando os movimentos das mulheres mais livres – em comparação com o espartilho (SPINA, 2013).

Na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) as transformações mais radicais foram evidentes no vestuário feminino, muitas mulheres passaram a trabalhar em fábricas tendo que usar uniformes pela primeira vez, consolidando ainda mais o uso do sutiã. Sem falar que essas mulheres contratadas pelas fábricas, antes camareiras e domésticas em serviço das burguesas, fazem com que estas deixem de lado os vestidos e as roupas de baixo complicadas, passando a usar diferentes lingeries (BAUDOT, 2002). Em 1917 nos Estados Unidos ocorreu um pedido para que as mulheres deixassem de comprar espartilhos, com o objetivo de liberarem metais para a produção de armamentos. Este ato economizou cerca de 28.000 toneladas de metal, o suficiente para a construção de dois navios de guerra.

Mudanças continuaram a ocorrer no vestuário feminino. Na década de 1920, chamado de “anos loucos”, a figura andrógina e estilo conhecido como La garçonne, indicou como padrão de beleza ideal a diminuição das curvas do femininas, através do uso de um sutiã cai-cai, achatando os seios das mulheres. Muitas delas com seios maiores tentaram produtos como o popular Symington Side Lacer, que era atado em ambos os lados e puxado, nivelando os peitos. No período entre guerras (1918-1939), a maioria dos espartilheiros começaram a produzir corpinhos, peças que tinham cortes folgados deixando os seios sem forma, pois não se adaptavam perfeitamente aos seios.

Sutiã la garçonne

Symington Side Lacer

A dança foi uma forte aliada para a explosão de novas formas de vestimentas. Os dançarinos ficavam tão colados uns aos outros que só se viam suas costas, fazendo com que os vestidos ostentem grandes decotes na parte de trás. Vestidos recortados e braços a mostra levavam as mulheres a adotarem uma novidade estética, a depilação das axilas que até hoje é visto como um padrão de beleza exigido pelas mulheres. As pernas começaram a serem mais expostas, consequentemente, ampliando a depilação das pernas, bem como das sobrancelhas (FONTANEL, 1998).

A descontração dos “anos loucos” chegou ao fim com a crise econômica de 1929, também conhecida como a Grande Depressão. Esta crise levou à procura de novos materiais, como fibras sintéticas, que davam, ainda, às peças de roupa íntima maior elasticidade e resistência. Após a Segunda Guerra Mundial, o náilon começou a fazer parte da produção de roupas íntimas. Nos anos de 1930, uma das mulheres ideais para a época era Greta Garbo, famosa atriz sueca, pois possuía corpo magro, rosto de traços desenháveis, silhueta sem muitas curvas e voz grave.

Greta Garbo

Vai ser durante a década de 1930 que os fabricantes estudaram cortes variados de novos tipos de sutiãs, alguns com enchimento e estruturas de metal, com a preocupação de encaixar os seios, respeitando as diversidades de corpos femininos, podendo as mulheres escolherem o tamanho do sutiã para seus seios. Com a aproximação da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), as roupas apresentavam uma linha voltada exclusivamente à praticidade, como as saias, que vinham com uma abertura lateral, para facilitar o uso de bicicletas, transporte que as mulheres começaram a usar frequentemente no período. Muitos estilistas fecharam suas maisons ou se mudaram da França para outros países. A Segunda Guerra Mundial transformou a forma de se vestir e o comportamento de uma época. O cinema influenciou muito neste período, assim como a moda redigida pelos Estados Unidos. Fontanel (1998) descreveu a mulher ideal do período, que foi influenciada pelas telas de cinema e pelos estilistas americanos.

Em 1940, a mulher ideal é encarnada no cinema por Katherine Hepburn, jovem mulher emancipada de tipo esportivo, de calças, pulôver e calçados sem salto. A influência liberadora das roupas de confecção confortáveis e baratas vem dos Estados Unidos. A grande moda dos Pulôveres, dos suéteres que moldam o busto, nasceu do outro lado do atlântico. Com o sutiã, assiste-se à remodelagem completa da silhueta: os bustos empinam-se (FONTANEL, 1998. p. 114).

No período pós-guerra a marca Dior e seu “New Look”, passaram a valorizar as formas femininas. A moda era os “seios-globo”, bem erguidos. As estéticas vigentes eram das “pin-ups”, traduzidas nas formas de algumas atrizes, como Jane Russel, Sofia Loren, Gina Lollobrigida, Jane Mansfield, Marilyn Monroe, entre outras. Surgiram, neste período modelos de sutiãs, como o “very secret”, de náilon, feito com almofadas de ar muito finas, para aumentar os seios pequenos. Em 1955, foram criados novos modelos de renda preta e o sutiã peito-de-pombo, que aproximava os seios, deixando-os estufados (GARCIA, 2009).

Sutiã com formato “seios-globo”

Em 1960 foi um momento de explosão da juventude em aspectos culturais e sociais. A chamada geração beat, começaram a resistir aos preceitos da sociedade de consumo existente. O movimento que em 1950 vivia recluso em bares nos EUA, passou a se expandir pelas ruas nos anos 1960 e influenciaram o comportamento da juventude. Nesse contexto social, a transformação em relação à moda foi radical. A proposta de uma moda única chegou ao fim, passando as roupas a ter várias alternativas. A forma de se vestir passou a possuir cada vez mais ligação às atitudes individuais (MENDES, 2009).

Como um símbolo de emancipação feminina da década de 1960 surgiu à minissaia, criação de Mary Quant, tornando-se um emblema da moda “Swinging London” 17. As saias ficaram dez centímetros acima do joelho e os decotes bem pronunciados nas costas e na frente. No ano de 1964 surgiram os sutiãs que não serviam somente para moldar os seios, mas para sustentá-los e vestí-los com conforto. As calcinhas-biquíni também foram criadas neste período, demostrando que a roupa íntima não era mais usada como peça modeladora do corpo, mas como um artigo que misturava proteção íntima com capacidade de sedução. O sutiã em algumas ocasiões era peça dispensável do vestuário feminino (MOUTINHO, 2000).

Mary Quant, criadora das minissaias

Diante da revolução da juventude, nos anos 60, o alvo dos fabricantes eram as jovens consumidoras adolescentes. Foram lançados modelos mais simples e delicados de sutiãs. Esse novo conceito influenciou toda a linha de lingerie dessa época. Em 1960, ocorreu o aperfeiçoamento dos sutiãs, com a criação das alças elásticas reguláveis, deixando de lado os colchetes, que eram usados por dentro das roupas para prender os sutiãs (FONTANEL, 1998). Importante ressaltar também que com a revolução sexual dos anos de 1960 e 1970, as mulheres se permitiram também a não usar mais os sutiãs, considerando-os como símbolos de repressão. Reflexo disto foi o manifesto realizado no ano 1968, onde algumas feministas queimaram simbolicamente seus sutiãs e outros pertences, como sapatos de salto e maquiagens, em frente ao Senado, em Washington, nos EUA, durante o concurso de Miss.

Em 1968, a eleição de Miss América pôs lenha na fogueira: feministas jogam o sutiã nas latas de lixo e o queimam. Os marines, de vigília às portas do Senado de Washington, contemplam imperturbáveis a fogueira surrealista e as furiosas militantes do Women´s Lib urrando e cantando. Os seios se emancipam. (FONTANEL, 1998, p. 131,133).

Bra-Burning ou A Queima dos Sutiãs (1968) em Atlantic city, EUA.

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Os movimentos feministas influenciaram intensamente na liberação dos seios na década de 1970. Neste período, o uso da transparência surge com tudo, e na mesma época, os tecidos de poliamida reinventam as modelagens, eliminando as costuras no meio do bojo (GARCIA, 2009). E vai ser a partir dos anos 80 que as indústrias de lingeries viveram uma explosão em novas tecnologias com o surgimento da lycra, que pode ser confeccionada com materiais mais finos e delicados, combinada em pequenas proporções a qualquer fibra natural, permitiu o ajuste dos sutiãs (GARCIA, 2009).

O padrão de beleza, em que os seios das mulheres teriam que ter “volume”, volta nos anos 80. Os sutiãs de armação passaram a ser usados no lugar dos mais leves. Os criadores do período tiveram importante papel na expansão da venda de lingeries, pois acompanhavam as novas gerações de têxteis. No ano de 1984, as irmãs Loumia e Shana, inauguraram em Paris uma loja de artigos diversos. Mais tarde, as jovens começam a criar sutiãs, em uma nova loja com o nome de Princesse Tam Tam, apresentando uma série de peças íntimas quadriculadas, com estampas de cereja e framboesa, lacinhos entre os seios, enfeites no contorno do decote, bustiês de veludo ornamentados em passamanaria e pijamas de algodão ou flanela (FONTANEL, 1998).

Uma das últimas grandes mudanças no conceito do sutiã foi o “outwear”, moda de deixar a lingerie à mostra, na forma de bodys, bustiês, corpetes e sutiãs como roupas de sair. A cantora Madonna foi uma das primeiras a lançar essa moda, ainda no começo de sua carreira. É importante ressaltar que todas estas transformações dos sutiãs se deram também através das criações de novas tecnologias como: a da lycra, das microfibras, das rendas e algodões elásticos, cores e estampas. A peça chegou a um nível de sofisticação, qualidade e conforto muito grandes. Atualmente pode-se levantar, aumentar, aproximar ou separar os seios usando ou não o sutiã.

Madonna e seu corset de Jean Paul Gaultier na turnê Blond Ambition (1990)

Contudo, quero mostrar que os padrões de beleza exigidos pela sociedade, ditaram e ditam a forma como lidamos com os nossos seios. Em meio às metamorfoses dos seios, as mulheres passaram do uso do espartilho a se libertar através do uso do sutiã. Foi a partir de contestações de médicos, das próprias mulheres e das questões sociais da Grande Guerra que o espartilho saiu dos guardas-roupas femininos. Assim, os armários se abriram para a chegada dos sutiãs, que não deixou, desde sua criação, de ser aprimorado e modificado. Em 1968, as feministas o “queimaram”; depois os seios se emanciparam e, por fim, o sutiã passou a ser um dos principais trajes íntimos femininos. Esta peça representou e representa, por detrás de sua feição falsamente frívola, um símbolo do imaginário feminino, o qual traçou, juntamente com as mulheres, sua história de luta e emancipação no decorrer dos tempos.

FONTES:

BAUDOT, François. Moda do Século. São Paulo: Cosac Naify, 2002.

FONTANEL, Béatrice. Sutiãs e Espartilhos: uma história de sedução. Rio de Janeiro: GMT Editores Ltda, 1998.

GARCIA, Claudia. Anos 30, tempos de Crise. Almanaque Folha Uol – Especial Moda, 2009. Disponível em: http://almanaque.folha.uol.com.br/anos30.htm, acesso em 27 de outubro de 2013.

MOUTINHO, Maria Rita. A Moda no Século XX. Rio de Janeiro: Ed. Senac Nacional, 2000.

SPINA, Heloísa Jardim. 100 anos de Sutiã. Blog: La vie en rose, 06 de jul., 2013. Disponível em: http://www.lavieenroseh.com.br/2013/06/100-anos-de-sutia.html, acesso em 23 de outubro de 2013.

 


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