Por Luana Borges

Das animações infantis, ao cinema adulto, às propagandas midiáticas, todas são referências de espelho para uma sociedade que já vem historicamente doente em relações distorcidas de gênero. Ou seja, é uma demanda social atendida que apenas fortalece a mentalidade machista e de culto a etnias e belezas discriminativas, que enraizadas em nossa cultura, vemos representadas nessas produções artísticas e comerciais, como por exemplo, as princesas Disney, tipicamente magras, de cabelos lisos e desesperadas por um príncipe encantado, para então serem felizes. Ora, que mundo lúdico cruel oferecido às crianças, meninas que sonham em ser princesas delicadas e fúteis  e meninos que se inspiram em super-heróis fortões corajosos que nunca choram.

Mas, nos últimos tempos vimos boas criações que ampliam a representatividade feminina, com personagens que de alguma forma quebram paradigmas e abraçam a diversidade da vida real. Um mundo ficção que reflete o pensamento social que se vive e costuma dividir princesas X super-heroínas, o que deve ser desconstruído gradativamente, a fim de empoderar meninas e mulheres para que lembrem e sempre reforcem aos outros que todas podem ser o que desejar, guerreiras e princesas contemporâneas ou tudo ao mesmo tempo. Exemplos disso são as personagens criadas nos últimos anos como as protagonistas Tiana da animação A Princesa e o Sapo e a jovem Tip de Cada Um na Sua Casa, que sendo negras romperam tabus étnicos nas produções Disney, incluindo padrões reais de representação feminina. As protagonistas Elsa e Anna de Frozen também trouxeram novo fôlego criativo às narrativas, sim (!) uma história norteada pela vida das irmãs princesas, sem homens no enredo principal. E ainda, conhecemos a Merida do filme Valente (assista o trailer) e a Mulan (assista o trailer) que quebram paradigmas importantes:

A jovem Merida (imagem acima), princesa do filme Valente se rebelou contra a tradição familiar de ter de se adequar as regras para substituir a rainha sua mãe e assumir a liderança do reino no futuro. Para isso também, como de costume, ela deveria se casar com um príncipe de família renomada para então selar a tradição e reinar. Porém, Merida sonhava um futuro bem diferente para sua vida e ergueu a voz diante dessa imposição, recorreu a medidas que não deram muito certo, mas lutou para consertar tudo e manter seu ímpeto aventureiro de andar a cavalo e atirar de arco e flecha, transformando o pensamento de seus pais e rompendo a tradição em prol de sua liberdade. Uma princesa que absolutamente não precisa de príncipe, nem de espartilhos ou cabelos penteados em torno de uma coroa luxuosa para ser feliz ou sentir-se amada e respeitada.

A princesa Mulan (imagem acima) também surpreendeu a todos nas telas do cinema, como uma personagem revolucionária, corajosa guerreira que encarou o campo de batalhas no lugar de seu velho e pai que estava doente, quando o imperador da China decretou que toda família teria que mandar um homem para o exército imperial ela roubou sua armadura e espada, disfarçou-se de homem e se apresentou no lugar do pai, conquistando a ajuda de todos para ajudá-la a cumprir sua perigosa missão, honrando o nome da família e fazendo justiça. Uma princesa que encontra a bravura dentro de si, fragmentando muitas barreiras que sua cultura estabelece e provando que é capaz de muito mais.

Com lançamento previsto para 2016 a animação Moana traz uma protagonista inovadora para os padrões Disney, ela vem da Oceania e traz uma história de vida emocionante. Moana é uma espirituosa adolescente polinésia que se aventura pelo Oceano Pacífico atrás do sonho de sua falecida avó, que a contava sobre uma ilha mágica. Nesse percurso ela encontra o semideus Maui que a acompanha na jornada, junto ao seu porco de estimação Pua e o galo Hei Hei. Uma menina corajosa e desbravadora, que vai em busca dos seus objetivos seja onde for, atitude que certamente irá inspirar muitas telespectadoras, além de empoderar diferentes estereótipos de beleza com seu cabelão ondulado, cor de pele e traços de uma cultura nova para os olhos ocidentais.

E no meio dessa construção de sentidos em sociedade a publicidade, assim como o cinema e as telenovelas, deve também repensar seus métodos de persuasão para atrair público alvo por gênero, representando a figura feminina com respeito e empoderamento que lhes cabe, ou seja, mudando os padrões que vemos há décadas subjugando mulheres em divulgações nas mídias. Muitas propagandas ao formarem uma representação feminina atendem demandas sociais nada saudáveis, com imagens construídas por uma cultura machista, destaco o trecho do artigo A representação da mulher na mídia e em produtos:

“Vemos isso o tempo todo, tomamos como verdade absoluta, e nem ligamos muito para a representação da mulher nos comerciais. Fúteis, vazias, competitivas com outras mulheres, rainhas do lar, vaidosas em nível tóxico. “É só propaganda”, diriam alguns. Alguns muitos. Outros vários diriam que quem vê problema nessa má representação da mulher é “falta do que fazer”. “Vai lavar uma louça”(…) Na verdade, o sistema é esse, feroz, que se retroalimenta dos pensamentos da sociedade.”

Pensamentos esses que não devem ficar no bate e volta entre público e produção cultural, deve sublimar, passar por metamorfose e melhorar sob a ótica da coletividade e do respeito, abraçando a diversidade humana para que todos se vejam representados, seja na mídia, no governo ou mesmo na educação familiar, vivemos de espelhos, exemplos de nosso meio, que podem ser mais justos e produtivos. E para entender a importância dessa mudança, por exemplo, notemos os enredos fictícios como filmes, games, seriados e livros, com legado de protagonismo feminino sendo (quase) sempre baseados num universo masculino ou com grande influência desse tipo de narrativa, escondendo ou dando menos importância ao papel da figura feminina. Sobre esse contexto cultural que influencia fortemente a representação feminina percebida em sociedade por crianças e adultos, Deyse Dantas cita:

“Em um filme como Star Wars (o primeiro de 1977) temos apenas UMA personagem feminina? Um filme sobre O UNIVERSO INTEIRO, e apenas uma mulher relevante. Tipo… hã? (…) algumas referências são facilmente reconhecidas, até mesmo para aqueles que nunca assistiram: Darth Vader, Luke, Princesa Leia, Han Solo, Mestre Yoda, R2D2, Chewbacca, etc. Uma mulher, em meio a todos esse homens, (…) Não é à toa que Princesa Leia é fantasia de tanto cara: é como se ela fosse a única mulher do universo.(…). Um mar de homens de personalidades variadas, histórias próprias e basicamente uma vida independente dentro da obra, sendo ele um personagem principal ou secundário. E aí temos umas duas ou três mulheres, sempre com a mesma descrição, a mesma personalidade e o mesmo objetivo: interagir com os homens!”

Precisamos exigir mais que as mulheres

Representações exclusivas que são recorrentes e nocivas para a equivalência de gênero sobre liberdades em relação a maneira de ser e habilidades como ser humano. Outro segmento que mulheres sofrem bulliyng derivado do machismo e muitas vezes acabam desistindo de participar por discriminação de gênero é o mundo dos games, que conforme  a produtora de games Thais Weiller explica no artigo Por que a Representação é Tão Importante: “Se o nosso público é 50% feminino, mas nosso desenvolvimento é composto de menos de 20% de mulheres, a única forma de mais mulheres quererem entrar no mercado é se elas se sentirem como parte dele. Se menos de 15% dois jogos têm personagens femininas, como elas vão se sentir parte?” 

Imagem: no jogo Mass Effect, Shepard pode ser tanto um homem como uma mulher.

O sentir-se parte de algo que você gosta, enxergar uma represetanção do seu universo de referências estéticas e culturais naquilo que gostaria de participar, nas artes ou nas marcas em geral é o ponto essencial para despertar no público feminino o interesse por novos estereótipos e oportunidades ilimitadas, de maneira que amplie o horizonte de possibilidades das mulheres para que nunca mais cause a sensação de não poder fazer algo ou estar em determinado lugar por ser mulher. Criar identificação com bom senso, coerência diante da diversidade de personalidades e mulheres que existem, uma mentalidade em progresso.

O partilhar de uma ideia de representação social ratifica a simbologia de uma unidade e de um pertencimento, construindo a força da adesão coletiva que contribui para o fortalecimento de elos culturais. Assim surgem signos de status econômicos, estilos de vida, ideologias diversas de “tribos” em um mesmo ambiente social e urbano, em que grupos têm influência sobre o pensamento de seus membros, desenvolvendo pensamento distintivo, que causa diferenciação e ao mesmo tempo identificação de alguns. Com isso vivenciamos as expressões identitárias citadas por Durkheim: “O que as representações coletivas traduzem é a maneira pela qual o grupo se pensa nas relações com os objetos que o afetam” (1985, p. XVII). São muitos os afetos sociais nesse sentido, oriundos de uma diversidade cultural que democraticamente devemos respeitar, num meio que inevitavelmente acabamos por delinear nossa identidade também, o que gostamos de ver retratada na moda, na mídia e nas artes. Ainda por essa razão os produtos culturais carregados de significados não podem atender demandas conservadoras que deixam nossas vidas doentes, acumulando o que se vê de nocivo e discriminativo nas relações humanas em sociedade, deve inspirar novos hábitos e despertar pensares inovadores. 

interseccionalidade, conceito trazido por Kimberlée Crenshaw (1994), vai ao encontro da representatividade que impera nesse contexto, de reflexos importantes que instigam ações e tem o poder de perpetuar comportamentos numa cultura, estagnação que deve ser repensada sempre. A autora foca sobretudo as intersecções da raça e do gênero, com abordagem parcial de classe ou sexualidade, que “podem contribuir para estruturar suas experiências (as das mulheres de cor)” (Idem, p. 54). Com essa ideia é destacada as múltiplas fontes da identidade social, que embora não seja uma aplicação global remete a um aprendizado multidisciplinar necessário para entender a complexidade das identidades e das desigualdades sociais por uma visão integrada, preocupada com o todo, indo além do simples reconhecimento dos sistemas de opressão social hierarquizados, reformulando essa estrutura.


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