assint luana

“São suficientemente conhecidas as condições históricas nas Américas que construíram a relação de coisificação dos negros em geral e das mulheres negras em particular. Sabemos, também, que em todo esse contexto de conquista e dominação, a apropriação social das mulheres do grupo derrotado é um dos momentos emblemáticos de afirmação de superioridade do vencedor. ” 

As palavras acima de Sueli Carneiro, coordenadora do site Geledés – Instituto da Mulher Negra, são resumidamente o panorama social em que muitas vezes é esquecida da mentalidade coletiva branca, inclusive no movimento feminista que inicialmente luta por questões de uma geração branca. Simone de Beauvoir e diversas mulheres começaram a empoderar suas vozes no século XX, disseminando a importância da independência financeira feminina, o questionamento das relações de poder na sociedade patriarcal em que nasceram e a busca por equivalência de respeito e direitos humanos entre gêneros, principalmente com o suporte de estudo e profissão, quesitos potencializadores que seguem importantes ainda hoje, pois representa de forma p r á t i c a uma maneira de empoderar mulheres. Mas, para mulheres negras, no contexto social econômico e étnico que historicamente as oprimem, “trabalhar fora” nunca foi novidade. Por isso ainda segundo Sueli, devemosenegrecer o feminismo“, explicando melhor algumas raízes do problema:

“Quando falamos do mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a proteção paternalista dos homens sobre as mulheres, de que mulheres estamos falando? (…) Fazemos parte de um contingente de mulheres com identidade de objeto. Ontem, a serviço de frágeis sinhazinhas e de senhores de engenho tarados. (…) Hoje, empregadas domésticas de mulheres liberadas e dondocas, ou de mulatas tipo exportação.”

Realidade de objetificação feminina que é abrangente para todas cores de pele e, como todo assunto de gênero, merece uma visão democrática. A isso associa-se muito ao feminismo seletivo, uma problemática real que segrega muitas mulheres, minorias sociais de diversas configurações do feminino, que não sentem-se representadas, como as negras conforme as ideias pertinentes de Sueli  Carneiro. Tal assunto precede uma importante reflexão, a sororidade genuína, a percepção do que é ser mulher em uma diversidade humana, que torna necessário um discurso feminista amplo, conduzido por empatia e busca de entendimento das realidades estranhas a nós, a fim de criar diálogos fidedignos, considerando a relevância de múltiplas narrativas vivenciadas, com altruísmo e consciência social de se transportar para a pele do outro, mesmo que nunca seja possível estar lá, sentir e lidar com diferentes preconceitos em sociedade.

Para ilustrar o universo da mulher negra, assim como outros que constituem a complexidade cultural de que fazemos parte, precisamos de boas referências, tanto literárias, quanto artísticas. Então, confira abaixo um belo exemplo de engajamento social por meio da arte, o projeto CRIOLANDO, de Santa Maria-RS, que traz arte, empoderamento feminino negro e um novo fôlego para a representatividade cultural,  “com intuito de vestir e embelezar a luta das mulheres Negras”, conforme  a descrição na página:

Entrevista concedida por Flávia Nascimento de Souza Luiz, idealizadora do Criolando:

Como surgiu?

 “A Criolando surge como um desejo de infância, descobri o estilismo através de uma revista negra chamada Raça. Lembro que tinha uns  9 anos quando esse contato foi feito, naquela época, um pouco mais tarde talvez, ganhei também minha primeira barbie de pele negra, ela tinha um cabelo liso até a bunda e seus traços eram fortemente eurocêntricos, eu estava em uma fase de querer alisar o cabelo, mas como não tinha acesso a essas coisas e aquela barbie  de certo modo me representava, cortei o cabelo dela e a deixei careca.”

“Enfim, tudo isso pra dizer que toda vez que íamos brincar de boneca eu pegava essas revistas e anotava o nome das respectivas barbies nas modelos para assim sabermos a roupa e o rosto do dia de nossas bonecas. Assim, acredito que começou meu interesse por moda, a partir do momento que comecei a me enxergar.”

“Oficialmente a Criolando nasceu em Março/2015 depois da minha inserção no movimento negro e percepção da necessidade de algumas pautas que favorecessem a estética das mulheres negras, mas é um transição que vem sendo gerada há 10 anos em formato identitário.”

Foto: par de brincos Criolando, à venda na página do Facebook.

Quem produz a arte?

“Sim, eu Flávia é quem faço os desenhos e pinturas. Quase sempre em parceria com o Projeto do meu namorado, o Pret.A, que tem a mesma intenção da Criolando, porém de modo geral para com a cultura africana e afro-brasileira e não apenas direcionado para as mulheres”

Criolando pertence a um grupo feminista?

“Não, acredito que posso pregar ideais feministas e não pertencer a um grupo específico.”

A necessidade de “enegrecer o feminismo”, como diz Sueli Carneiro, está acontecendo?

“Sim, e creio que isso está sendo feito dentro dos grupos, de diferentes modos, alguns de modo interseccional outros de modo mais fechado, mas está acontecendo, sim.”

Foto: brincos da linha Criolando, que confecciona bolsas e acessórios “por uma moda afrocentrada”, segundo Flávia.

Qual a consciência feminista (empoderamento) da mulher negra hoje ?

“Eu vejo hoje muito mais mulheres assumirem a sua negritude de modo positivo, ainda muito em redes sociais, pois acaba sendo um núcleo onde podemos encontrar várias pessoas que se identificam contigo num grau extremamente exacerbado, também vejo mulheres a minha volta, dia a dia fortalecendo e resistindo a essa luta, mas creio que ainda não chegou onde mais precisa chegar, nas escolas de periferia, nas próprias periferias, onde é muito mais fácil para essas minas a situação de subordinação que é imposta a elas.”

Como é a reação das mulheres diante das criações Criolando?

“As que me procuram, procuram porque gostam. Existem várias grifes pelo Brasil todo com o mesmo intuito, várias em que me inspiro e também várias que acabo fazendo questão de manter contato. Bom, eu faço minhas artes para as mulheres negras, e quanto a isso não há dúvidas, gosto de vê-las se enxergarem no que faço, gosto de vê-las usando o que é pra elas. Isso se chama IDENTIDADE, coisa que muitas mulheres não tiveram na sua fase de construção pessoal, coisa que se meu pai não tivesse comprado uma revista, quem sabe eu não teria, ou só teria depois que conhecesse meu companheiro, que é de extrema importância polÍtica na minha vida, ou quem sabe, se não fosse pela revista que eu nem o conhecesse, pois nem teria descoberto que ser negro é lindo. (…) é gratificante e muito legal porque eu tô recém começando o curso de Design de moda que com certeza vai ser o que vai me dar a base para estar sempre melhorando, sempre em transformação.”

Quais suas inspirações em filosofias e mulheres negras da história?

“Em todas, desde as que eu escuto no fone, as que eu leio sobre, as que lutaram na senzala e enfrentaram os senhores, até as que dirigem caminhão, limpam chão, zelam prédios, dançam, encenam, ensinam, cuidam da família sozinhas. É a elas que reverencio, são elas que me MOTIVAM, todas elas.”

Há planos de ampliar o projeto Criolando?

“Sim, futuramente, quem sabe, com um conceito próprio, único. Veremos.”

 


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