assint luana

Pai moderno, pai presente, pai que ajuda em casa, paizão. Mãe moderna, mãe ausente, mãe trabalhadora e egoísta. Uma visão recorrente das relações familiares de gêneros.

 

É fato que mudanças sociais aconteceram de algumas décadas para cá entre relação de pais e mães – maridos e esposas, que casados oficialmente ou apenas “juntados”  tem vistos seus papéis familiares pelo avesso em comparação a um modelo patriarcal secular, ainda bem. Entretanto, ainda há muitos desafios. Ajustar questões da vida moderna somado às relações de gênero e a crítica opressiva de imposições externas, um cenário que exige dureza de convicção para a desconstrução de preceitos pessoais a fim de reinventar valores de família e morais, que sempre foram e sempre serão convenções sociais. Por mais custoso que seja a conscientização e adaptação prática coletiva, vale a pena persistir, visto que se vivemos em sociedade tudo nos afeta de alguma maneira. Atualmente alguns homens cuidam dos filhos enquanto a mulher da casa vai trabalhar fora, uma atitude familiar atípica aos conservadores, que fruto de um acordo entre cônjuges em prol do bom convívio e sustento familiar, quando é viável repercute com som de mãe desnaturada e pai sem dignidade e acomodado.  Ah, a dignidade dos culhões masculinos (!) o machismo contra eles. Oras, quando se invertem tais papéis não há julgamentos tão notórios ou nocivos, então, enxergamos a dimensão do problema de gênero nessas relações familiares que eram para ser simples, como a aparente obviedade do que escrevo aqui.

Dave Engledow

Foto: paródia do “Melhor Pai do Mundo”, projeto do fotógrafo Dave Engledow com sua filha Alice

De simples as questões familiares nada têm, pois a princípio da construção de família ser diversa, o que hoje se discute abertamente e trabalham-se reflexões que limpem e eliminem preconceitos enraizados, já  entendemos o peso do âmbito familiar na relação direta com a problemática de gêneros que vivemos. É uma causa a se lutar sempre, família é todo laço entre pessoas que se amam, geralmente convivem, acompanham e orientam um ao outro nas escolhas de vida, independente de gêneros, classe social, grau de parentesco e ligação cosaguínea. Família pode ser uma pessoa e um cachorro, visão simplista que deveria ser aplicada a todos tipos de “instituições” familiares. E, além desse contexto estrutural complexo, ainda  há o papel de gênero permeando, senão comandando todas relações, no comprometimento e desenvolvimento de funções de cada homem e mulher, em que se naturaliza diversos comportamentos machistas, o que deve ser refletido e modificado desde a raíz, como cita Jarid Arraes:

“É preciso nomear a origem da ausência masculina no cuidado dos filhos e tarefas domésticas. Essa REFLEXÃO não pode ser exclusividade de quem é feminista ou de quem teve um pai ausente, pois a falta de participação dos pais é algo que prejudica todas as crianças e mulheres – é uma reprodução de uma injustiça social que precisa ser eliminada.” – do texto Pais ausentes, feridas de Gênero

Incoerência social que notamos com frequência não apenas em casos de pais que abandonam seus filhos, mas também de pais “ausentes” mesmo estando no convívio familiar. Presenças e participações masculinas que devem ser discutidas no meio social, para que haja revolução sobre papéis de gêneros desde as sutis discriminações do cotidiano em que determinamos capacidades limitantes para as crianças com um mundo cor-de-rosa de meninas princesas e outro mundo azul cor de príncipe machão que não chora, sexismo que é herança machista dentro de muitas famílias, reproduzido por homens e mulheres “como se fosse natural”, enquanto o natural deveria ser o questionamento de nossa educação e comportamento social sempre que possível, para que surjam posturas mais inclusivas e não sexistas, como diz Bia Krieger:

“A mulher que se dedica aos filhos, nos altos e baixos, no choro de pirraça e na risada diante de um programa infantil que ela mesma não suporta, está fazendo seu dever; o homem que joga bola com as crianças ou prende o cabelo da filha de maneira engraçada quando tem vontade é um herói. Assim, não só as mulheres são desvalorizadas, mas, tão ruim quanto, os homens são incentivados, mais uma vez, a se acomodarem com o pouco que fazem. Não à toa, estamos cheios de mulheres infelizes numa espera quase sempre frustrada por homens mais completos que saibam ser pais também trocando fralda mal-cheirosa às 3 horas da manhã.”  – do texto Pai incrível ou: como os homens são exaltados por fazerem quase nada

No que concerne aos homens sobre ser pai, mulheres são julgadas em proporção colossal quando o assunto é maternidade, se não têm vontade de ser mães ou se decidem ser, é sempre uma vida de opiniões alheias pontiagudas, de uma consciência cultural machista que não perdoa, nem respeita individualidades femininas e humanas. “E a culpa é da mãe, da esposa, da dona da casa que deveria garantir a impecabilidade de tudo”, como disse Bia Krieger para ratificar o pensamento. Afinal, a ideia de perfeição nos persegue, mas mãe independente e mulher que tudo carrega nas costas são coisas bem diferentes. Nem toda mulher nasceu para ser mãe, nem todo pai queria ter filho, nem sempre com uma criança nasce/desperta um pai e uma mãe, sabemos, mas nasce uma missão conjunta que, num mundo perfeito, seria equiparado de ambos os lados. Ainda que exista mães e pais exemplares nesse sentido, que assumem iguais responsabilidades com os filhos, a mentalidade cultural de mães sobrecarregadas ser considerada “normal” (mesmo quando há um pai “presente” para compartilhar deveres) se mostra em estatísticas uma realidade injusta ou no mínimo distorcida, de mulheres que esquecem delas para apenas ser mãe, em vez de tornar a condição materna parte integrante da felicidade pessoal.

Foto: pais e mães têm licença de 1 ano e 4 meses para cuidar de bebês na Suécia

Isso faz esquecer também que para além de gêneros, sexos e representação social somos indivíduos humanos, seres dotados de discriminações sociais edificadas e completamente passíveis de mudança e evolução ideológicas e comportamental. Outra visão simplista que me faz crer, deveria ser tudo simples, mas o fator cultural segrega coisas e pessoas em patamares surreais, o que ratifica a relevância dos estudos de gêneros, do movimento feminista entre outras provocações de pensares. Assim como criamos preconceitos sociais de toda espécie ao longo da vida, também podemos (re)criar e equilibrar o trato entre as relações de gênero de papéis maternos e paternos dentro e fora de casa, estendendo a  desmistificação da representação feminina e masculina em todas as esferas de convivência. 


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