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Há alguns meses escrevi sobre Aline Campbell na Estrada e o lançamento do seu livro Portas Abertas. Mas agora, após ler o livro busquei saber mais sobre isso tudo a partir dela.

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 “Não há diferença entre “sincronicidade do Universo” e “Deus tem um propósito na sua vida”. Essa sincronicidade afeta a todos nós. Ela tem a ver com o que atraímos por ser quem somos; e com alguma lei misteriosa que rege a tendência da natureza em evoluir holisticamente.(…)” – pág. 14 – livro Portas Abertas

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Confiando nesse princípio regente da vida a fim de ampliar a perspectiva parcial das coisas evoluindo para além dos interesses egoístas, Aline Campbell escreveu sua história no livro Portas Abertas: Três Meses na Europa sem um Centavo no Bolso, é possível baixar em PDF gratuitamente ou comprar a versão impressa pelo blog ou Facebook do projeto. Aline é uma carioca de 26 anos, artista plástica de string art, desenhos e afins, graduada em Turismo que mora com seu grande amigo o cão Saga e sua filhota Hara. Há algum tempo começou a QUESTIONAR o mundo a sua volta, sentiu-se perdida inicialmente mas organizou o pensamento e criou um propósito de viagem para mostrar a todos o que ela percebeu da vida, a importância de valorizar as pessoas, os momentos vivenciados em vez de dinheiro e bens materiais, consumo excessivo, medos e egoísmos que são fortalecidos pelo sistema social em que vivemos. Fatos que conhecemos, mas comumente não paramos para refletir e mudar, isso que Aline realiza.

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 Foto: Aline, Saga e Hara

Conto para todos meus amigos da história dela mas é difícil resumir, ler o livro situa bem a sintonia que Aline vibra. O nome Portas Abertas surgiu a partir de hóspedes que Aline recebia com frequência a partir do Couchsurfing, quando um dia lhe ocorreu o insight de que a porta do quarto dela deveria manter-se aberta para que todos transitassem livremente da sala para o único banheiro do apartamento dentro do quarto. Repensando os motivos de vergonha e privacidade que geralmente temos nesse contexto, então, ela aplicou o conceito para todo o resto, portas abertas para seu pensamento e para a bondade humana, o bem que há no universo. Sincronicidade que respira o bem e atrai o mesmo, confiando nisso para viver entregue ao máximo de percepções da vida. O nome do livro já expressa lindamente a intenção da autora com o enredo que se trata de mostrar esse lado da moeda por meio de diários de viagem, relatando suas vivências pela Europa durante três meses sem dinheiro algum.

Ela embarcou em 2013 sem levar nenhum dinheiro, nem cartão de crédito ativado para supostas emergências, exceto o gasto prévio com passagens aéreas de ida e volta, ela não desembolsou nada com transporte, hospedagem ou comida e conheceu 30 cidades em 14 países. Mas a história não é guia de turismo, tem a intenção de ilustrar através dessa corajosa atitude que é possível confiar na bondade das pessoas e ainda aproveitar um dos deleites contemporâneos de status social para muitos, uma Euro trip, sem trocas monetárias, apenas humanas. Aliás, só achamos ela tão CORAJOSA porque somos imersos em medos e inseguranças, sintoma social que ela sempre busca desconstruir em suas postagens diárias e principalmente no livro, é uma nova filosofia que Aline descobriu para si e dissemina para fortalecer a corrente. Quem está “aberto” recebe sua mensagem, exige SENSIBILIDADE E PENSAMENTO LIVRE, qualidades que quando desenvolvidas nunca mais retornam ao estado inicial, ainda bem!

Aline foi corajosa sim, sobretudo, por causa das críticas grotescas que recebeu por sua ideia e ação em prol de algo que ela acredita, mas é assim, críticas vem quando se realiza algo bom. Ela se manteve firme e segue divulgando seu estilo de vida e valores, incentivando uma sociedade mais livre, inspirando pessoas a serem mais altruístas e corajosas, capazes de viverem de forma autêntica. Confira a entrevista que Aline me concedeu:

O que te motivou a viajar sozinha?

Eu sempre gostei de ser independente no sentido de estar LIVRE para fazer o que bem entendesse, mas o que realmente me motivou a dar o passo seguinte e VIAJAR SOZINHA, foi quando comecei a receber em casa (Couch Surfing) viajantes dos mais variados lugares, que também se aventuravam sozinhos. Fiquei com vontade de experimentar também. E aliás, o APRENDIZADO é tamanho que eu recomendo a todos, a pelo menos uma vez na vida, fazer uma viagem sozinho. É muito diferente do que quando se viaja com outra pessoa. Sozinho, a abertura a explorar, falar com desconhecidos, interagir com os locais, etc, é muito maior.

Quais as principais dificuldades você encontrou nas viagens pelo fato de ser mulher?

O MACHISMO existe em todo lugar onde já estive – em alguns países mais do que outros, notei. Então constantemente eu tenho que lidar com questionamentos do tipo “cadê seu marido?” ou “se fosse minha mulher, eu não deixava”, o que me perturba um pouco. Fora isso, nunca passei por uma situação que eu não soubesse ou não conseguisse lidar. Nunca fui desrespeitada fisicamente e NÃO é porque sou mulher que ME PRIVO de fazer algo ou ir no lugar x ou y. Simplesmente confio que tudo vai dar certo, e confio em todos – tem funcionado muito bem. Minha família implicou um pouco com o estilo de vida que eu escolhi levar, mas só no começo – e nada que esteja diretamente relacionado com o fato de eu ser mulher. O que me incomoda bastante é ver, através dos comentários em certas publicações sobre minhas viagens, o número de pessoas que acreditam eu ter me prostituído pra ter conseguido tudo que já consegui – como se mulher para conseguir algo só fosse possível se utilizando o CORPO. Enfim. Me considero FEMINISTA em atitudes e tento sempre levar esses conceitos adiante – de que o feminino também é muito CAPAZ.

Quais conquistas pessoais e sociais você pensa que ganhou com as viagens?

O meu maior objetivo, através de meus dizeres compartilhados, é causar REFLEXÃO nas pessoas, inspirar pensares. Recebo diariamente relatos pessoais de agradecimento por meus textos e isso pra mim é uma conquista sem tamanho. Cresci muito como ser humano depois que comecei a VIAJAR dessa maneira aberta aos acontecimentos e sabendo que posso CONFIAR nas pessoas. Aprendi a dar e a aceitar, a olhar nos olhos, a conversar com todo tipo de gente sem discriminação, enfim, aprendi a ser mais humana e dar mais valor àquilo que não se compra.

Muitas pessoas têm medo de viajar sozinhas, especialmente mulheres, como você enxerga isso?

Muitas pessoas têm medo de muita coisa hoje em dia, e minha crítica em relação a isso vai para além do viajar. Eu não vejo o MEDO como sendo um problema – ter medo é natural do ser humano. Agora, deixar com que ele seja um impedimento a se trilhar novos caminhos, isso sim, na minha opinião, é algo nocivo ao viver.  MULHERES têm medo de viajar sozinha (e de ‘tudo o mais’ sozinha) porque o MACHISMO existe e as consequências vão da cantada na rua ao estupro. É importante saber o que se passa no mundo sim, mas mais importante é não trazer o negativo para nossas realidades. Acredito muito em carma, ENERGIA, então se vivermos aprisionados pelo medo, de medo se fará nossa realidade. Ao enfrentá-lo, vejo constantemente, o POSITIVO surpreende. Não deixar o medo dominar, esse é meu conselho. A prática é diária.

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Um dos meus capítulos favoritos do livro é Nadar Pelado e Viver Sem Dinheiro, em que Aline encontra Heidemarie Schwermer, uma alemã com mais de 70 anos e que há 17 vive absolutamente sem dinheiro. Abaixo um trecho dessa conversa:

“Eu já tinha as respostas. Eu a entendia. Entendia seus princípios e sabia bem como tudo isso era possível. Pedi um conselho, porém. Gostaria de saber seu ponto de vista sobre uma questão que com frequência temos de lidar:  

‘Mas você só pode viver sem dinheiro porque há pessoas vivendo com ele.’ 

Eu sempre me engasgo com essa. Não por não saber a resposta de fato, mas por não saber como respondê-la. Heidemarie sorriu. Disse que no mundo em que vivemos hoje não seria possível uma sociedade sem dinheiro. As pessoas têm muito o que aprender ainda, antes disso. Como treinar o desapego, por exemplo, e não criar dependência por bens materiais desnecessários. Aprender a compartilhar. Aprender a dar sem esperar em troca. Aprender a aceitar sem dar. Tudo isso são etapas.

Tudo isso não é fácil de ser atingido pela maioria. Heidemarie, eu e muitos outros por aí conseguimos enxergar o colapso e ir, de certa maneira, na contramão do sistema. E ir na contramão, como a própria expressão sugere, não é nada fácil. Mas, aos pouquinhos, conseguimos tocar pessoas que cruzam nossos caminhos — as que estão preparadas pra receber a mensagem — e assim aumentamos a corrente. Não obrigamos ninguém a seguir nossos princípios, mas mostramos possibilidades.

Saber se daria certo ou não uma sociedade livre de dinheiro é complicado. Mas, primeiramente, devemos pensar se daria certo de forma individual. Conseguiríamos viver sem dinheiro? Existe outra possibilidade pra conseguirmos o que precisamos? Do que de fato precisamos? Cada um tem as respostas pra realidade que está preparado a lidar. E talvez viver sem dinheiro não seja uma delas.”

 


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