Medo em dobro

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É assustador andar na rua e sentir medo e desconfiança de todo homem que cruzar o caminho, é uma sensação de insegurança pelo simples fato de ser mulher. Homens podem ter empatia pela violência que assombra a vida feminina, mas apenas mulheres entendem bem, um gênero historicamente oprimido pela dominação patriarcal que subjulga a figura feminina. Muitos pensam nisso equivocadamente como vitimismo, pois é uma situação real e cruel, que dá sentido ao ditado “todo homem é um estuprador em potencial”, o que até hoje acaba naturalizando o medo entre as mulheres em relação aos homens.

Por isso, mulheres que precisam andar sozinhas em seus trajetos cotidianos suspeitam de qualquer homem, tem medo em dobro, pela possibilidade de ser assaltada e estuprada, os relatos de assédios em transportes públicos são inúmeros e ilustram uma parte dessa violência. Há pessoas que defendam metrôs e ônibus exclusivamente femininos, seria uma conforto e segurança garantida, mas paleativo, a fonte do problema está na educação da sociedade. Requer uma revolução do pensamento social, em conscientização, denúncia e punição, o que vem gradativamente ocorrendo. E quem sofre tais violações é coagida e traumatizada, muitas vezes morta, e em diversos casos são agredidas dentro da própria casa.

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Imagens: dia 03 de junho de 2015 centenas de pessoas saíram as ruas de Buenos Aires para protestar contra o feminicídio ao grito de #NiUnaMenos. A marcha ocorreu em cidades da Argentina, do Chile, Uruguai e México. “É pela vida, chega de mortes”, “o machismo mata”,“nem a roupa nem os costumes podem justificar o abuso”; algumas das frases em cartazes.

Nesse sentido é entendível o repúdio que algumas mulheres têm de homens em geral, pois a partir de suas experiências traumáticas essas sentem-se prezas fáceis e têm a necessidade de se proteger da maneira mais radical e generalista possível. Compreensível eu diria, não justo, assim como o que fizeram com elas. São casos de violência que muitas vezes parecem distante, são notícias na mídia banalizadas pela recorrência, que acreditamos ser fatos incapazes de nos atingir. Mas a qualquer momento pode acometer uma mulher próxima ou a própria que lê a notícia, numa volta para casa à noite, na espera do ônibus, atravessando um parque, andando no seu bairro ou no centro da cidade, assédios e estupros a mulheres acontecem frequentemente, infelizmente, no Brasil e no mundo, há séculos. Isso gera um consentimento passivo que trata tais casos como triviais, é uma “cultura do estupro” moral e físico, que junto a hipocrisia social ainda promove a culpabilização da vítima em diversas situações (“também, com essas roupas estava pedindo…” “mas sozinha a essa hora na rua esperava o que?”, etc).

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É um medo que se estende aos estereótipos econômicos e étnicos de homens que sozinhos ou em gang provocam uma sensação de pavor ainda maior, é uma discriminação hipócrita mas real. Uma percepção social generalizada que vivemos todos os dias, que estupidamente acredita que homens brancos e engravatados podem ser menos violentos à primeira vista. Em suma, é terrível para uma mulher achar que qualquer homem pode ser um estuprador a solta na rua, o medo de homens é em dobro para toda e qualquer mulher. As estatísticas mostram a raiz desse amedrontamento social, em 2015 Dilma sancionou o feminicídio como crime hediondo, mortes de mulheres decorrentes de conflitos de gênero, ou seja, pelo fato de serem mulheres:

“Segundo dados da Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM), 68% dos crimes desse tipo são cometidos dentro da residência das mulheres. Para Dilma, é preciso mudar o ditado popular ’em briga de marido e mulher não se mete a colher’. ‘Em briga de marido e mulher, nós achamos que se mete a colher, sim, principalmente se resultar em assassinato’. “

Crimes cometidos a todo o momento que a Lei Maria da Penha também ajuda a evitar e punir, protegendo mulheres há algum tempo. Mas tudo isso ainda pode ser inútil quando vemos casos em que o policial machista que recebe a queixa da violência também culpa a vítima duvidando do seu medo e dos fatos acontecidos. E assim, muitos crimes poderiam ser evitados e as vezes a lei não funciona, mas o lado positivo é que as mulheres vêm perdendo o medo de denunciar (Mulher que se dá o respeito), de ir atrás de seus direitos, a fim de punir seus agressores, que muitas vezes vivem debaixo do mesmo teto que elas. O feminicídio é a última instância do controle da mulher”, diz promotora Silvia Chakian

mulheres

Problemática social que começa com o fiu fiu na rua, as cantadas baratas em diversos ambientes, formas brandas de assédio moral, constrangedor, coercivo e que indigna muitas mulheres, as quais muitas vezes se calam por medo e quando reagem ainda são chamadas de “mal educadas”, ironia agressiva. Desse ponto até o assédio físico é um caminho curto, ao desrespeito ao corpo alheio, ao corpo da mulher que comumente é objetificado pela mídia, pela representação da mulher em papeis sociais de submissão e força intelectual subjulgada. Esse contexto de mentalidade social contribui e muito para alguns homens acreditarem que tem o direito de assediar mulheres na rua, de assaltarem e ainda estuprarem como se fosse uma vantagem extra, senso de poder sobre a mulher igual de cônjuges que forçam relações sexuais mesmo sem o consentimento da parceira.

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Fotos: centenas de sapatos vermelhos encheram a praça municipal da Cidad Juárez, no México em 2012. O motivo era o crescente desaparecimento de mulheres, o protesto foi uma iniciativa do artista mexicano Elina Chauvet e do jornalista espanhol Javier Juarez, que contou com a cooperação de várias organizações de familiares de mulheres desaparecidas.

É uma violência interligada por fios de conservadorismo patriarcal, de uma educação falha que muitas vezes naturaliza a violência masculina, “porque homem é assim mesmo”, como se todos fossem tarados psicopatas, os únicos seres dotados de desejos sexuais que ao verem uma mulher inibem as sinapses cerebrais. Mitos machistas reproduzidos por muitos homens e mulheres, o que devemos desconstruir, um bom método é começar pelas crianças, ensinando que é essencialmente importante o respeito ao corpo alheio e as escolhas do outro em sociedade. Sobretudo, esclarecendo as meninas que elas NÃO devem “comportarem-se como mocinhas”, e sim, que devem ser autênticas, assim como os meninos que dentro de suas liberdades sempre devem respeitar o espaço dos outros indivíduos. Assim, com sentimento de consciência social e coletividade quiça construiremos uma sociedade de pessoas respeitosas, que prezam pela igualdade de direitos não sexistas e por uma vida com menos violência, principalmente dessa que as mulheres sentem medo em dobro e com razão.


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