assint luana

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Valores e servidão

No sistema econômico em que vivemos muitas pessoas costumam julgar o valor humano em detrimento do trabalho feito pelo indivíduo, à semelhança da teoria existencialista filosófica de Sartre em que o homem se constrói à medida que se projeta para fora de si, com significado através de seus atos e realizações. Mas para a maioria do mundo capitalista a noção de realização se define melhor no sucesso baseado em poder aquisitivo do que no sucesso de satisfação pessoal. Essa é a pirâmide de interesses em que pessoas com baixo poder aquisitivo, satisfeitas ou não com a própria ocupação ou emprego, são classificadas num mesmo patamar inferior e trabalhadores financeiramente bem-sucedidos mesmo que com péssima qualidade de vida em constante desejo de mudar o estilo de vida acabam sempre no topo da pirâmide, como pessoas socialmente bem-sucedidas.

Mentalidade de senso comum que faz da sociedade um campo de meritocracia seletiva, em que o reconhecimento de mérito de alguém que estuda durante dez anos para concluir um doutorado, por exemplo, não será maior de quem ganha dez mil reais por mês sendo aprovado em concurso públido a nível de ensino médio. Valoriza-se mais a quantia remunerada e o porte da empresa que emprega, do que o conhecimento e esforço individual aplicado no âmbito de trabalho. Realidade que também valoriza pessoas de acordo com a resposta da fatídica pergunta “o que faz da vida?” como se exlcuisse todas as outras potencialidades daquele ser. Por isso, muitos já respondem “estou em tal área profissional, mas sou diversas coisas”, difícil resumir em uma frase geralmente.

Ter uma conta bancária gorda é quase um pré-requisito de felicidade, já o emprego pode ser qualquer um, mas claro, se passar em concurso público ou se tornar advogado(a), médico(a), engenheiro(a) ganha de brinde o prestígio social. Então, convivemos com um olhar pejorativo sobre algumas profissões que não exigem ensino superior, como se fossem “meros serviçais do alto clero”. Mentalidade igualmente discriminativa a que classifica alguns artistas como “vagabundos”. Um sistema que confere a imagem de credibilidade para seletas classes profissionais, enquanto na verdade o valor de um serviço prestado é subjetivo. Há servos em toda profissão: médicos, policiais, artesãos, atletas, músicos, cozinheiros, advogados, jornalistas, professores, etc.  Qual o real sentido desses ofícios para a sociedade? E o sentido para quem o faz? Tudo pode parecer sem propósito caso o profissional não tenha gosto/amor pelo que faz. Todos cumprem funções importantes para alguém, todos servem e dependem do coletivo para realizar suas profissões de alguma maneira, não apenas garçom “serve” os outros. Hipocrisia social que, por exemplo, motiva “gente abastada” a se envergonhar de ter “sub emprego” na terra natal, mas em viagens internacionais trabalham de garçom a limpeza de vasos sanitários, ambos os empregos são dignos, mas não onde há conhecidos. Por que será?!

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Trabalho ou emprego

É uma opressão social ilustrada pelo ditado popular “o trabalho dignifica o homem” que em grande parte fundamenta o sistema de quem trabalha pouco e lucra bastante com o trabalho alheio. Assim cria-se uma ética trabalhista e de conduta social questionável, a qual é abraçada pela maioria da população, limitando-se em poucas opções para “ser alguém na vida”. Sabemos que atualmente há muitos empreendedores(as), gente que arrisca muita coisa em busca do sonho de se realizar profissionalmente e muitas vezes transforma 360 graus o estilo de vida, porque afinal, a recompensa pessoal é gigantesca. Atitude insurgente que pode ser motivada por ideologia que não encaixa num sistema incoerente ou por simples (e importante) qualidade de vida particular.

Aliás, emprego e trabalho são conceitos bem diferentes, a palavra trabalho tem sua origem no vocábulo latino Tripalu, nome de um instrumento de tortura formado por três (tri) paus (paliu). Por isso, originalmente, “trabalhar” significa ser torturado no tripaliu, como os escravos e os pobres que não podiam pagar os impostos na Antiguidade e, com esse significado seguiu toda a Idade Média. Nessas épocas, quem trabalhava eram as pessoas destituídas de posses a exemplos de camponeses, artesãos, agricultores, pedreiros etc. Somente ao longo do tempo, especialmente a partir da Revolução Industrial, o termo ganhou o sentido genérico que atribuímos atualmente,  “aplicação das forças e faculdades humanas para alcançar um determinado fim”, entre outras definições segundo o Dicionário Aurélio. Já o termo emprego significa ocupação remunerada ou ato de empregar, que em princípio não exige sacrifício e obrigação assim como a conotação do trabalho.

Por conta das diferenças etimológicas comumente falam “você quer um emprego ou um trabalho?”, tornando “trabalho duro” uma redundância de labor. Convergindo com tal ideia existe o ditado “preocupe-se em amar o que se faz, do que fazer o que se ama”, sentença conformista que limita sonhos e talentos genuínos de se desenvolverem, pois independente da condição financeira, muitos atingem a satisfação profissional “após passar anos de trabalho” a fim de atingir o emprego ideal. É um idealismo relevante de manter em um contexto social de valores invertidos que necessitam ser repensados, mudança que pode “dar trabalho”. Isso libertaria muitas pessoas dos padrões distorcidos de sucesso que vivenciamos, com exemplos plásticos de status social, superficialidades  e insatisfação crônica que se alimenta de valores financeiros em vez de valores humanos. Muitos já livraram-se dessas amarras e estão no caminho da felicidade que dignifica, e você?!

Honestidade-X-Desonestidade6


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