Por Luana Borges

Semana passada recebi dois viajantes em minha casa, através da plataforma Couchsurfing. Um casal muito querido, que passou 6 dias em minha casa, compartilhando culturas e muitas histórias, por vezes em “portunhol”, por vezes em inglês. A experiência foi super legal e me inspirou a sugerir a ideia de fazermos uma pequena entrevista, concordaram e cada um respondeu com muito carinho. Elaborei algumas questões que tinha curiosidade em saber o que cada um deles pensa, a partir de estilos de vida viajantes, que têm uma bagagem cultural rica e histórias incríveis. Acho que você também vai gostar:

Ela pediu anonimato, então vou chama-la de Maria, 25 anos e natural de Trinidad e Tobago, graduada em Engenharia de Energia Solar no Canadá, já viveu na Mongólia e na Turquia ensinando inglês para crianças, viajou para a China, Tailândia, Inglaterra e muitos países da América Central, ao total conhece mais de vinte países. Maria encontrou seu namorado no caminho “viajeiro”, quem vou chamar de João, um músico de 29 anos, natural de Buenos Aires, pessoa simples e encantadora assim como ela.

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Sobre o que é mais importante na beleza feminina Maria diz “é muito individual. Cada pessoa tem um conceito e opinião diferente. No entanto, eu acredito que a beleza é um reflexo da auto-confiança e de ser capaz de equilibrar a mente-corpo-espírito em conexão.”

A parte mais difícil de suas viagens, por ser mulher, é quanto a menstruação mensal, em que sente dor e muito desconforto, necessitando comer alimentos básicos para evitar náusea, e por isso segundo ela, “atividades regulares como carona ou vender nossas jóias artesanais tornam-se tarefas cansativas e muitas vezes temos que ficar alguns dias na mesma cidade.”

Sobre ser feminista, Maria respondeu que o termo “tem muitas definições. Eu não posso dizer sim ou não, mas eu acredito na igualdade total e padrões duplos que não deveria existir. Estudei em um programa de engenharia que tinha 18% de mulheres e 82% homens e foi feita essa pergunta várias vezes. Eu acho que o conceito de feminismo tem muito a ver com a força interna e que é uma qualidade que tento desenvolver.”

Sobre racismo, Maria (que é negra) disse, “não lembra de sentir preconceito racial, somente algumas reações de curiosidade, pois “sou do Caribe por isso sou bastante mista e tenho o cabelo muito crespo. Na Mongólia e China muitas pessoas nas ruas puxavam meu cabelo (acho que para ver se era real), não violentamente, mas foi estranho. Na América Central muitas pessoas me chamavam de ‘morena, morena’ que foi um pouco irritante às vezes. Eu nunca tive quaisquer problemas reais, mas ao viajar para o Canadá e os EUA normalmente era a única pessoa de Afro descendente nos aeroportos.”

Ela disse que geralmente não sente o machismo em suas viagens, “acho que é uma experiência diferente como eu estou viajando com meu namorado. Algumas viajantes sozinhas já me disseram que ao tentar obter carona, às vezes, os motoristas são rudes ou têm ideias erradas. Eu experienciei um pouco isso, algumas vezes ao pegar carona revezamos quem irá estender a mão. Há carros que param (para mim) e quando vêem que somos duas pessoas (um casal) eles vão embora. É comum pessoas gritarem comentários machistas de seus carros, mas estes são poucos, obviamente homens desrespeitosos não conseguem entender uma simples cortesia.”
 
Sobre vaidade, Maria disse que ao viajar isso é bastante difícil de ser, não carrega espelho consigo, apenas o básico, “quando comecei a viajar eu tinha esmaltes de unha (que eu adoro!) E todos os tipos de produtos de higiene pessoal, mas com tempo e consideração para o quanto as coisas acrescentar ao peso de minha mochila, eu parei de usá-los. Meus artigos de luxo são shampoo e condicionador! Eu tenho o cabelo muito crespo, é uma batalha para mantê-lo saudável.”

Também perguntei se viajar pelo mundo trouxe simplicidade a sua vida, ela disse “Definitivamente! Adoro ir para a cama cedo e acordar com o sol, que é a combinação perfeita para uma vida itinerante. Eu não preciso de muitas coisas e eu me preocupo muito menos! O sol sempre vai brilhar intensamente, mesmo que seja coberto por nuvens. Eu ainda tento ler dois livros por mês, meditar e continuar com as atividades que me alimentam.”

Sobre semelhanças entre mulheres de diferentes culturas que ela já conheceu, ela disse, “é uma das lições mais importantes da vida que eu aprendi. As mulheres e as pessoas em geral, podem ser de diferentes países, culturas, religiões, grupos etários, mas todos os nossos corações batem da mesma maneira.”
 
Indagada sobre liberdade, Maria disse “é o segredo da felicidade. Eu descobri isso por acidente. Um dia percebi que eu fui ensinada sobre tudo que sei. Ensinaram-me que Inglês deve ser a minha primeira língua e que a liberdade é ser capaz de pagar a hipoteca de sua casa. Então eu comecei a entender que não aprendi nada da vida. Todas as informações que me foram dadas sobre ser livre, tive que esquecer tudo. Eu tive que aprender pela experiência e que cada erro abre uma porta. Eu aprendi que a liberdade está em sentar-se na praia em uma tarde de segunda-feira. Todos os dias eu estou um passo mais perto da liberdade total.”

Também quis saber o que sua família pensa do seu estilo de vida viajante, ela disse “minha família tem um monte de críticas. Minha mãe ainda espera que vou abandonar meu ‘estilo de vida’ e me tornar uma engenheira de sucesso. Acho que a crítica é por falta de entendimento. Eu visitei minha família há alguns meses e brigamos muito. Foi um momento difícil para mim, mas não tenho planos para reverter a nova liberdade.”

Se ela tem algum medo? “Eu tinha muitos medos antes, mas desde que eu comecei a viagem eu tenho confrontado a maioria deles. Às vezes, eu ainda fico com medo do escuro, mas é um medo irracional e algo que eu estou trabalhando para superar.”

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Ele considera que a beleza feminina “tem sua essência na sua capacidade de transformação, percepção e auto-conhecimento. O mais importante é quando você pode expandir sua condição espiritual e força interior e física, quando se rompe a ideia inicial da educação moderna e descobre as habilidades e infinitas possibilidades contidas em si para realizar qualquer um dos seus objetivos.”

Sobre o machismo durante as viagens, ele disse “a mim como homem, não lembro se alguma vez me disseram algo sexista, talvez…. mas é sabido e ouvido muitas vezes que dizem para mulheres.”

Sobre dificuldades de mulheres viajantes ele disse, “não acho que tenham mais problemas e mais soluções do que as de um homem que viaja. Boas e belas energias acompanhar os viajantes, sem importar o sexo, mas sim, a predisposição de resolver a situação. Eu acho que as mulheres que viajam aprendem a desenvolver seus métodos de precaução e também o lado mais guerreira para não deixar nada as prejudicar.”

Segundo ele, “se ser feminista significa igualdade entre homem e mulher, sim, eu sou um feminista. Ainda que preferimos não falar em feminismo, mas sobre aprender o respeito natural que merecem as pessoas. Eu acredito que o machismo é um grande problema da educação que recebemos todos desde a infância, que necessita uma mudança interior profunda para limpar a visão e perceber os maus hábitos que foram ensinados, sobretudo na escola e na televisão.

Perguntei se ele (branco e loiro), já percebeu o racismo, ele disse “sim, é claro, em todos os países predomina, já predominava no meu país antes de eu sair para viajar, como o sexismo, o racismo é uma parte fundamental da educação hoje, e através das minhas viagens tenho comprovado ser uma problema cultural, de modo que muitas vezes existe racismo sem um motivo real para ferir, mas porque tudo que parece diferente, a maioria aponta para discriminar.”

Qual vaidade ele tem? “Eu tinha todas agora não sei se eu tenho uma vaidade em particular. Mas deve ser o fato de acreditar que,  muitas vezes, meu modo de pensar é sempre o melhor, mas tenho desenvolvido a capacidade de perceber que outras formas de pensar podem somar novas soluções as minhas, sendo tão boa como de outra pessoa.

Viajar trouxe mais simplicidade a João, “simples a partir do material e do espiritual. Por exemplo, é descoberto na viagem que se eu colocar a minha energia para ser prático e resolver situações tudo se torna mais simples e, portanto, me torno mais simples, deixo de lado os problemas que a mente pode gerar, que são apenas os medo, e não problemas reais ou sem solução, pois simplicidade e tranquilidade dá-lhe soluções”, comenta ele.

Sobre o que percebeu de semelhanças entre mulheres ele disse, “desde a parte humana muitíssimas, eu diria que tudo, quero dizer tanto um homem ou uma mulher do México ou da Bolívia. A única diferença está na forma como eles escolhem para viver suas vidas. Eles comem alimentos diferentes e ouvem música diferentes, mas na sua essência são totalmente similares.”

A liberdade para ele “é um fenômeno natural com o qual todos nós nascemos, depois entramos numa sociedade que a primeira coisa que busca é cortar as asas da liberdade. Penso que a liberdade é irmã do amor, uma pessoa que tem a capacidade de sentir-se livre, você pode dar e receber amor plenamente. Eu me considero livre, porque todos os dias eu escolho quem eu quero ser.”

Sobre as críticas de sua família, ele disse, “bem, minha mãe sofreu um pouco no início, mas com o tempo compreendeu e hoje acho que toda a família tem boas ideias sobre como eu vivo.”

João tem um medo, o da confusão, de se perder e deixar de ser quem ama ser, “sempre tenho que lutar todos os dias para me manter autêntico e gerando coisas construtivas.”


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