assint luana

Gostaria de fazer um link entre o filme Ela (trailer) de 2014, que assisti há poucas semanas e o filme Ensaio sobre a Cegueira (trailer) de 2008, mas que acabei assistindo apenas esse ano. No fim das contas veio a calhar assistir ambos em data próxima, pois A Cegueira mexeu muito comigo, mesmo já sabendo do que se tratava o enredo. Eis que encontrei semelhanças entre as histórias intimistas contadas nos filmes, pois falam especificamente sobre pessoas, em contextos distintos, mas com o cerne da trama nas relações humanas.

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O filme A Cegueira trata-se de uma epidemia de cegueira súbita que deixa todas pessoas de uma cidade cegas, sem muita explicação sobre  contágio da “doença”.  As autoridades resolvem reunir as primeiras pessoas infectadas em quarentena, isoladas da sociedade e sujeitas a diversas humilhações, constrangimento e discriminações em uma espécie de internato abandonado. No local sem ninguém para ajudar, apenas guardas armados do lado de fora, há uma mulher consegue enxergar e deixa isso em segredo para acompanhar o marido que ficou cego. Sendo a única que podia enxergar a personagem ajuda os outros e tenta não enlouquecer naquele ambiente em que pode ver como as pessoas agem quando acham que ninguém está olhando e num lugar sem leis. Tal ambiente se torna superlotado a cada novo cego que chega e todos passam a viver em péssimas condições de higiene e alimentação, mas o restante do mundo parece não se importar com eles.

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 O enredo não busca desvendar a causa ou a cura da doença, mas sim demonstrar como são perdidos os valores “civilizados” das pessoas nessa situação. E os olhos da personagem que é capaz de enxerga no meio dos cegos registra toda falta de dignidade humana quando não há respeito, solidariedade, altruísmo, bondade entre outros na convivência em que se encontram. Talvez o filme também quis mostrar como realmente é a maioria das pessoas quando inseridas em um universo caótico como esse, em que fragilizadas emocionalmente, inseguras por perderem a visão, igualmente perdem o respeito com os outros do grupo. Com isso gera-se um clima de desespero, como se o mundo de cada um tivesse acabado e os princípios não tivessem mais valor, pois devido a falta da visão se tornam egoístas e mesquinhos. Nesse contexto, alguns indivíduos refletem sobre a própria vida e ao final da trama quando voltam a enxergar, sentem-se mais humanos e capazes de perceber e valorizar as coisas simples da vida, que antes não se lembravam da importância. Aos que não refletiram após todo sofrimento, ficou sugestionado que mantiveram a infeliz existência cegos ou não. Esses não conseguiram pensar em como é importante, mesmo com a visão saudável, conseguir apreciar a chuva, olhar nos olhos de quem conversa e realmente escutar, parar e sentir a brisa e o calor do sol no rosto, aproveitar a companhia da família, rir de e chorar sem medo e sem vergonha. Mas é claro, isso tudo para ser feito nas horas vagas do mundo moderno, quando não se está “correndo” para os compromisso do cotidiano e preocupado com próprio umbigo, os planos da agenda lotada, as contas a pagar, os negócio a fechar, a próxima viagem de férias, além da imagem que precisa manter no cargo que ocupa e na sociedade que vive. Ainda, esqueci de mencionar as crises de estresse e de existências sem fundamento aparente, vulgo ataque de pelanca ou pití.

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O filme Ela permeia as relações humanas também, mas de um ponto de vista diferente talvez até oposto de A Cegueira, pois em vez de embrulhar o estômago como o filme citado acima, o enredo melancólico de Ela traz a ideia de quão solitárias as pessoas se tornam no mundo contemporâneo rodeadas de tecnologias que prometem facilitar a comunicação. E comunicação você sabe né(?!), se faz entre duas ou mais pessoas. Porém, de alguma forma, para muitos isso é motivo de enfraquecimento de relações, parece que é preciso cada vez mais conservar os encontros pessoais, sem máquina intermediando, para que alguém se sinta no mundo de fato e com companhia real. Como o sociólogo Bauman teima em citar nos seus livros, os tempos modernos se tornaram fluidos, “escorre pelas mãos, mesmo sem se sentir” como diria Lulu, de um modo assustador e paradoxal, pois a velocidade da comunicação aumentou imensamente, era para ter estreitado as relações humanas, não?! Acredito que não.

No filme Ela, o protagonista Theodore começa a conversar mais com a voz do aplicativo do seu apple que atende por Samantha, que organiza seus compromissos da agenda, arquivos online e até dá conselhos sentimentais se quiser. Isso porque Samantha tem “apenas” a sabedoria armazenada de toda a internet, ou seja, conhece quase todos assuntos do mundo. Isso inclui saber sobre pessoas, então é imaginável que a voz, no caso sendo feminina tenha conquistado ele, de maneira estranhamente apaixonante. Talvez porque Theodore não tinha muitos amigos para sair e possivelmente conhecer uma namorada, talvez por ele ser divorciado e ainda estar triste por isso. O fato é que ao final da trama, o coitado percebe que Samantha, sua amada andrógena havia seduzido também mais uns 600 usuários do mesmo aplicativo. Theodore se decepcionou com Samantha e refez sua vida “real”, mas na verdade, o problema não estava na máquina, por ser tão gente fina a ponto de querer transar com ele (por conversa). E sim, a culpa foi dele e dos outros tantos que solitários buscavam a companhia ideal em uma voz de computador. Essa realidade é para muitos a forma mais fácil de relacionar-se com alguém e conseguir se expressar, sendo do outro lado uma voz computadorizada ou a voz de um amigo de carne osso mesmo.

Ao meu ver a palavra chave que baseia ambas as histórias de cinema é – individualismo – ou individualidade, como queira o sufixo. Augusto Cury citou “a individualidade deve existir, pois ela é o alicerce da identidade da personalidade.(…) Não há duas pessoas iguais no universo. Mas o individualismo é prejudicial”. Isso porque tal conceito reflete a capacidade do ser humano de ser peculiarmente único, incrivelmente original e até gente boa. Mas a individualidade também pode designar um estado de isolamento humano como nos filmes citados acima, em que uma pessoa revela egoísmo e crueldade de não se importar com mais nada que não lhe afete diretamente. Ou seja, o que não está no controle do ser individualista e se mostra estranho a sua realidade, é desprezado e muitas vezes repudiado e discriminado negativamente.

Segundo o dicionário individualidade significa a tendência para se libertar de toda a obrigação de solidariedade, para só pensar em si. Particularidade individual. Mas, não é sobre a etimologia das palavras que quis abordar aqui, e sim, o comportamento nocivo que a individualidade pode gerar em tempos que quase todo mundo busca na vida segurança, privacidade e respeito. Portanto, deixo as reflexões: será que precisamos ficar cegos para realmente enxergar a humanidade no outro e em si? Será que estamos, muitas vezes, solitários ou individualistas de mais?

comenta ai

08.08.2014


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